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Como praticantes do candomblé no DF lidam com preconceitos

No Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa, conheça como praticantes do candomblé enfrentam os preconceitos diários

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Paloma Castro e João Carlos Magalhães
(Jornal de Brasília / Agência de Notícias UniCEUB)

Quando era criança, Cynthia Byar Beckman Soares sentia vibrações de energias que ela desconhecia. Era uma sensação diferente, e que aos poucos lhe provocava medo. Hoje, aos 48 anos, ela entende o porquê. Como se sua vida estivesse já predestinada, ela encontrou as respostas que precisava no candomblé.

“O centro é a minha casa. Foi lá que a vida ressurgiu dentro de mim”, conta Cynthia, moradora do Jardim Botânico. Apesar da distância, ela não economiza para ir ao terreiro que fica do outro lado da capital, em Ceilândia, onde frequenta há 10 anos.

Após ter sofrido um abuso sexual na infância, precisou de estímulos para lidar e tratar o seu trauma, e foi no candomblé que ela descobriu o “axé” para seguir em frente. Na religião de matriz africana axé significa força sagrada, luta, vitória.

“O candomblé é amor à vida, a tudo o que vem de Deus! É respeito à nossa ancestralidade e ao próximo”, destaca Pedro Henrique de Farias, de 35 anos.

Para o pedagogo, os mistérios da fé sempre o atraíram. Ele não só gostava, como também estava aberto para conhecer a religiosidade das outras pessoas. Mas a curiosidade pelo candomblé foi despertada por causa da música.

“Como grande amante do samba e da cultura baiana, desde criança ouvia músicas que falavam de Orixás e aquilo mexia muito comigo”, contou. A partir daí, Pedro Henrique começou a buscar saber quem eram essas personalidades e seus significados. Não deu outra, se encantou pela religião e passou a reverenciá-los em suas orações.

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Proteção no ambiente de trabalho

“O orixá me ajuda demais”, conta Cynthia, auxiliar parlamentar do Senado Federal, que com as situações do dia a dia, busca colocar seu orixá na frente para lhe orientar e proteger. Cynthia lembra de um episódio de discriminação sofrido por uma ex-colega de trabalho, que ao descobrir que a candomblecista não comia pipoca – por orientação do orixá – fez questão de presentá-la com um saco cheio, e aos risos. Dizendo continuamente: “Cynthia hoje você vai comer a pipoca, hoje vai”.

Mesmo com a intimidação da ex-colega, ela se apegou no sagrado. Aos cochichos disse: “O que eu faço? Orixá toma frente! Se eu tiver que comer, eu como. Se não for, me dá um sinal”. E o sinal veio minutos depois. Ao abrir o saco que havia saído do microondas, todas as pipocas estavam queimadas, impossíveis de comer.

Para Cynthia, o episódio de alguns anos atrás se revelou como uma “provocação” só por ela pensar e seguir algo diferente dos demais colegas – evangélicos. “Esse foi o momento em que eu senti a crueldade do ser humano”, lembra. “Eu entreguei na mão do orixá para ele resolver. E ele resolveu. Pra você ver o poder do sagrado”.

Somente há uns três anos a candomblecista assumiu sua fé no Senado Federal, pois desde os 22 anos trabalha na Casa e nunca disse no que ou quem acreditava. Tinha medo de sofrer preconceito, ser rejeitada ou até mesmo exonerada do cargo.

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Mas com a criação do Comitê de Raça e Gênero, proposto pela Diretora-Geral do Senado Federal, Ilana Trombka, Cynthia não precisou mais se esconder. Ao participar do conselho ela assumiu sua fé para toda a Casa.

“Me senti protegida por parte da diretoria do Senado. Essa abertura me deu a oportunidade de ser quem eu sou sem comprometer o meu trabalho e a comunhão com os meus colegas. A Dra. Ilana abriu esse espaço para as pessoas serem respeitadas independente das suas diferenças. Então eu sou muito grata a ela”, confessou.

Desmistificando a fé

Após se assumir, Cynthia não percebeu grandes mudanças no ambiente profissional. Foram poucos que a “olharam torto” e a “pediram trabalhos”. O que para ela, este último é algo “absurdo”.

“Muitas pessoas relacionam a minha religião com o charlatanismo, que por sinal é crime. Não existe isso no candomblé de fazer trabalhos contra uma pessoa para amarrar ou prejudicar alguém. Assim como existem padres ou pastores pedófilos, por exemplo, também existem pais de santo que utilizam de má fé para ganhar dinheiro ilícito”, justificou.

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No cursinho de inglês em que trabalha, Pedro diz não sofrer preconceito e que se tiver qualquer oportunidade para falar abertamente sobre sua crença, ele faz questão de argumentar. O que ele observa, e que tem sido de grande importância, é o respeito e o questionamento que alguns têm sobre sua religião.

“Eu gosto de responder, explicar, debater. Isso é muito bom, pois desmistifica aquela visão preconceituosa e racista que grande parte das pessoas têm sobre as religiões de matriz africana”.

Família e amigos

Embora seja o único candomblecista da família, Pedro Henrique se sente respeitado por todos, cuja maioria são católicos e evangélicos. E até quando decide passar uns dias na casa do pai e da madrasta, se sente acolhido por ambos, independente da diferença de crença. “Quando quero acender uma vela, incensar a casa ou algo parecido, eles aceitam de bom coração. Entendem que manifestações de fé vão além de religiões”, reconheceu.

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Pedro acrescenta que todos da família sabem de sua crença, mas que preferem não tocar no assunto. Acredita ele que “talvez seja por uma questão de respeito”, porém, o candomblecista não fica imune a certos comentários que acabam surgindo em reuniões familiares.

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“Sempre tem aquele tio ou tia que quer te convencer a ir na igreja deles e te converter para o que eles julgam como sendo o certo”. De acordo com ele, isso acontece porque “na cabeça das pessoas ou você é católico ou evangélico, nunca de outra religião”.

Já Cynthia nunca precisou convencer as três filhas a conversão, fez questão de deixá-las livres para seguir seu próprio caminho de fé. Sobre os parentes, ela diz: “nunca precisei dar satisfações”, pois quando aderiu ao candomblé ela já era uma mulher independente e que não morava mais com os pais.

Preconceito no real e no virtual

Se o assunto for  ‘preconceito’, Cynthia é a primeira a não se incomodar. Ela que já passou por diversas discriminações durante seus 20 anos na fé, prefere seguir em frente e não guardar mágoa de quem a julga. “Quando a gente fica magoado com alguma coisa, quem sofre é a gente. Eu não quero isso pra mim, eu quero ser livre desses sentimentos ruins”.

Enquanto que para Pedro, principiante na religião de matriz afro, alguns comentários ainda o incomodam, como: “não vai fazer macumba pra mim não, hein”, “misericórdia” ou “sério mesmo?” e, nas sextas os olhares o rodeiam quando ele transita pelos lugares. O motivo se deve às vestimentas brancas. No candomblé, as sextas são sagradas, e a cor a ser vestida só pode ser branco.

E quando a demonstração de fé ultrapassa o mundo real, ou seja, manifestações nas redes sociais, Pedro percebe a discriminação se refletindo na vida online. “É incrível como nas redes sociais, basta fazer uma postagem falando da minha fé que lá se vão duas, três, quatro pessoas parando de seguir”.

Todavia, ele prefere seguir a mesma linha de Cynthia. “Deixo pra lá, passo por cima”. E acrescenta que após a reação de susto das pessoas ao descobrirem sua crença, elas começam a fazer uma série de perguntas. “A curiosidade sempre existe né”, reafirma ele.

O dever do Estado

O professor Agnaldo Portugal, do departamento de filosofia da Universidade de Brasília (UnB), explica que o Estado tem o dever de garantir aos praticantes das religiões de matriz africana dignidade no exercício da fé.

“As pessoas têm direito, pela constituição federal, a ter a crença religiosa que quiserem desde que elas não ofendam a ordem pública. E as religiões de matriz africana não ofendem de forma alguma a ordem pública”, explica.

A reportagem entrou em contato com a delegacia especial de repressão aos crimes por discriminação racial, religiosa, ou por orientação sexual, ou contra a pessoa idosa ou com deficiência (Decrin), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), para questionar quantos foram os crimes contra as religiões de matriz africana no Distrito Federal em 2021. A PCDF respondeu que a Decrin não tem esse levantamento.

“Eu acho muito estranho, dada a frequência da violência contra esses grupos, que a polícia não tenha dados sobre esse assunto. Porque as agressões são muito frequentes”, diz Portugal.

Origem

O nome pode confundir. Muito embora a denominação deixe claro que a matriz dessa crença esteja na África, religiões como umbanda e candomblé são brasileiras e fazem parte da cultura tupiniquim.

Os primeiros praticantes, africanos escravizados, iniciaram no Brasil suas crenças. As religiões foram criadas e se perpetuaram em meio a escravidão e perseguição, o que não mudou até os dias de hoje, de acordo com Agnaldo Portugal.

“Seria muito mais interessante para nós, como sociedade, se entendêssemos a importância dessas crenças para nossa cultura. O samba, o carnaval, a capoeira, os ídolos brasileiros estão, de alguma forma, ligados a essas religiões”, argumenta o pesquisador.

Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Distrito Federal conta com 9.346 praticantes de Umbanda, Candomblé e outras declarações de religiosidades afro-brasileiras.

 Nenhuma melhora

De acordo com Agnaldo Portugal, a perseguição aos praticantes de religiões com matriz africana aumentou nos últimos anos, em vez de diminuir. Agnaldo usa o livro ‘Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?’, escrito por Edir Macedo, como exemplo.

“Claramente houve uma deterioração. Em 1997, Edir Macedo publicou um livro cheio de preconceitos contra essas religiões, que inclusive incitava a violência”. O livro chegou a ter a venda proibida, mas em segunda instância, retornou à prateleira.

Em 2019, o livro, acusado de atacar os praticantes de religiões como umbanda e candomblé, foi relançado pela editora Unipro. Na época, a Igreja Universal fez pronunciamento afirmando que “Ao contrário do que dizem muitas fake news, o livro não ataca nenhuma religião ou seus praticantes”.

Para o professor de filosofia, essa é uma evidência de que a situação está cada vez pior. “Do ponto de vista teológico, é uma decadência inacreditável”, conclui o professor.








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