A Orquestra Sinfônica do teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS) inicia a temporada 2010 nesta terça-feira (16), às 20h na sala Villa-Lobos. No palco, o maestro Ira Levin trará composições de Ludwig Van Beethoven e Gustav Mahler.
A primeira composição da noite será ‘Abertura Egmont, em fá maior, op. 84’. Modernamente, executa-se apenas a abertura sinfônica da música de cena que Beethoven compôs em 1810 para o drama “Egmont”, em cinco atos, que Goethe escrevera em 1788. A montagem vienense contou não só com a abertura, mas também com outras nove partes da música incidental grandiosa concebida por Beethoven. A abertura foi publicada em 1811, separadamente do restante da obra – e assim é tocada hoje em todo o mundo.
A peça de Goethe fala da luta contra a tirania, mostrando a ação do conde de Egmont liderando uma guerra de libertação no século 16. Beethoven havia lido a obra de Goethe muito tempo antes – e se entusiasmara com ela. Quando recebeu a encomenda, Viena acabara de ser invadida pelas tropas de Napoleão. Fazia, então, todo sentido aderir à resistência contra os invasores compondo música, digamos, militante. Depois da enorme decepção que tivera com Napoleão, que começou como libertador e terminou se autocoroando imperador (Beethoven dedicou-lhe sua terceira sinfonia, a “Heróica”, e depois rasgou a dedicatória em sinal de protesto), o compositor reencontrou no drama de Goethe os ideais de liberdade e condenação de todas as formas de absolutismo. “Egmont” traduz esta luta em heróicos sons.
Logo após do intervalo, é a vez da ‘Sinfonia nº 9’ de Gustav Mahler. Nenhum outro compositor exerceu maior influência sobre a música do século 20. Ao contrário de Beethoven e Wagner, por exemplo, que se dedicaram respectivamente a absorver o sofrimento universal ou modificar os valores sociais e artísticos, Mahler apenas buscou na música soluções espirituais para seus problemas pessoais. Por isso, tentou de todas as maneiras driblar o destino – tinha muito medo de morrer após compor sua nona sinfonia, como acontecera a Beethoven – escrevendo em 1908 “O Canto da Terra”, magnífico ciclo de canções sinfônicas sobre poemas chineses. Em seguida, teve mesmo de enfrentar o que chamava de “o desafio da Nona Sinfonia”.
Mahler alias, sempre fora o chamado “compositor do verão” – só compunha durante as férias de verão, quando descansava de suas intensas atividades como. Mas em seus últimos quatro anos de vida alterou esta rotina: passava os invernos nos Estados Unidos, onde regeu também a Filarmônica de Nova York, mas curtia a primavera e o verão na Europa. Em 1910, conseguiu escrever apenas um imenso Adagio da Décima Sinfonia.
Foi o ano da crise conjugal que se tornou célebre: Alma o traiu com o jovem arquiteto Walter Gropius de modo escandaloso, quase público, num momento em que o compositor constatava a impotência sexual. Aconselhado por um amigo, consultou-se durante uma tarde inteira de agosto de 1910 com Sigmund Freud.
A sinfonia joga o tempo todo com a passagem da vida para a morte. Dois movimentos lentos enquadram dois mais rápidos. É possível que esta inversão – em geral os andamentos mais animados abrem e encerram as sinfonias – signifique que Mahler, já bastante doente, estava na verdade dando adeus ao mundo, despedindo-se da vida. O compositor Alban Berg, um dos jovens criadores que Mahler, quando todo-poderoso da música em Viena, apadrinhou, escreve que “o primeiro movimento é o que Mahler fez de mais extraordinário. Vejo aí a expressão de um amor excepcional por essa Terra, o desejo de nela viver em paz, de gozar plenamente os recursos da natureza – antes de ser surpreendido pela morte, porque esta se aproxima irresistivelmente. Todo o movimento está impregnado de sinais precursores da morte. Ela está em toda parte, ponto culminante de todo o sonho terrestre… Sobretudo, é claro, nessa passagem terrível onde o pressentimento se torna certeza: em plena alegria de viver, aliás quase dolorosa, a morte em pessoa é então anunciada, com toda força”.
E, apesar de Mahler nos levar para dois passeios mais agitados e alegres nos dois movimentos intermediários, a sombra da morte afirma-se no impressionante Adagio final, de cerca de meia hora de duração. O pianíssimo final – a indicação é quatro “ps” – vai reduzindo a vida aos poucos, até o silêncio da morte. É de arrepiar.
PROGRAMA
LUDWIG van BEETHOVEN (1770-1827)
Abertura Egmont, em fá maior, op. 84
INTERVALO
GUSTAV MAHLER (1860-1911)
Sinfonia nº 9, em ré maior
– Andante comodo
– Im Tempo eines gemächlichen Ländlers. Etwas täppisch und sehr derb
– Rondo-Burleske. Allegro assai: Sehr trotzig
– Adagio. Sehr langsam und noch zurücklhaltend
Regência: Ira Levin