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Brasília

Com faixas, desempregados fazem apelo por recolocação no mercado de trabalho

Arquivo Geral

05/05/2016 17h38

Os motoristas e transeuntes que passaram pelo Eixo Monumental no fim da tarde dessa quarta (4) se depararam com uma cena, no mínimo, inusitada. Vestido de terno, uma camisa branca e sapatos pretos, Uziel dos Santos segurava uma placa próximo ao semáforo que antecede a entrada da Rodoviária do Plano Piloto, terminal por onde passam 800 mil pessoas diariamente. 

Sozinho, com uma mochila nas costas e pranchetas em punho, os dizeres escritos no letreiro registravam a súplica: “Quero um emprego. Sou pai de família, tenho habilitação ‘B’ e curso de vigilante”. Uziel é mais um dos brasileiros que enquadram na estatística de desempregados na capital federal. 

Leia mais: Desemprego no Distrito Federal bate recorde 

No DF, consumidor é o que mais falta faz

Sem emprego desde agosto de 2015, o homem de 40 anos encontrou no sinal de trânsito uma forma diferente de solicitar uma chance de adentrar novamente o mercado de trabalho. Ele expôs o rosto e ofereceu seu currículo para quem quisesse ver, bastava apenas passar por aquela via, naquela tarde. “Eu percebia no olhar das pessoas que elas queriam me ajudar. Recebi muitas palavras positivas e de apoio”, desabafou Uziel ao conversar com o Jornal de Brasília. 

Desempregado e sem expectativas

Uziel é casado há 19 anos com Maria do Rosário, de 45. Pai de três filhos, ele conseguiu adquirir a propriedade onde mora, no Recanto das Emas, com a ajuda do ex-patrão, com quem trabalhou como caseiro por sete anos. “Meu ex-patrão atua na construção civil. Ele disse que a crise o levou a se desfazer do imóvel que eu cuidava”, explicou. Para sobreviver e atender às necessidades da família, ele se mantém por meio de bicos indicados por amigos. Entretanto, com o aumento das dificuldades, ele diz precisar de estabilidade. “Eu me senti incapaz com a dificuldade de colocar comida em casa. Quase todo dia, vou ao Sine (Site Nacional de Empregos) procurar por vagas, mas não encontro nada. O cartaz foi uma outra forma de pedir ajuda”, disse Uziel.

Perante os desafios, ele diz que pensou em retornar para o estado de origem, Alagoas, mas, em conversa com amigos e familiares, mudou de ideia. No último domingo (1º), quando foi comemorado o Dia do Trabalhador, Uziel veio pela primeira vez ao Plano Piloto para entregar currículos, sem sucesso. Foi então que ele resolveu retornar na quarta, com o objetivo de tentar modificar essa situação. 

Sensibilidade

A coragem e a força de vontade demonstrada naquele cartaz cativou a secretária Patrícia Pellicano. Ela passava pelo local, como de costume, para ir à fisioterapia, quando se deparou com a cena. “No momento em que olhei para o lado e percebi aquele homem bem vestido e de cara lavada pedindo um emprego, achei incrível! É fácil mandar currículo, mas a atitude dele foi um verdadeiro exemplo da pessoa que corre atrás. Não tive outra reação a não ser pegar o celular e fotografá-lo. Ele ainda me olhou e abriu um sorriso”, contou Pellicano. 

A secretária publicou a iniciativa em sua página em uma rede social e, em poucas horas, teve mais de 400 compartilhamentos.”Eu realmente tinha a intenção de ajudar, mas levei um susto quando percebi a repercussão da história. Me emocionei em saber que meu gesto motivou outras pessoas a fazer o mesmo”, ressaltou.

Menos de 24 horas após a postagem, apareceram diversas propostas de emprego para Uziel. Em uma delas, veio uma mensagem de um empresário. “Eu navegava pela rede quando me deparei com a postagem, que chamou a minha atenção porque já vi muita gente pedindo dinheiro, mas emprego não”, disse Carlos Alexandre Hoff. “Eu pedi para a diretora financeira verificar a disponibilidade de vaga e entrar com contato com ele. Caso o perfil se enquadre na vaga disponível da empresa, daremos uma oportunidade”, completou o empresário.

Uziel agora corre contra o tempo para providenciar a documentação solicitada para a avaliação, pois o prazo para entrega é na próxima segunda (9), dia em que ele poderá fazer parte do outro lado da atual estatística do DF. “Em meio há tantas oportunidades, creio que vou me encaixar novamente no mercado de trabalho. Sou muito agradecido por tudo que fizeram por mim”, afirmou, confiante.

Isabete busca por recolocação

A procura por emprego parece não ter limites. A empregada doméstica Isabete Martins, de 43 anos, também encontrou uma forma diferenciada para solicitar uma colocação no mercado. Por meio de uma faixa, exposta no Park Way, sentido Aeroporto, ela divulgou seus serviços. “Por aqui, passam muitos carros e a área é um bom lugar para o meu tipo de colocação. Achei que fosse mais fácil”, afirmou. 

Desempregada há sete meses, Isabete conta que a faixa foi colocada na última segunda (2), após tentativas, sem sucesso, de conseguir um emprego. Ainda segundo Isabete, a alternativa ainda não surtiu efeitos, mas ela garante que não pensa em desistir. “Recebi algumas ligações, mas não me enquadrava no perfil. Tenho fé que as coisas vão melhorar e não vou desistir”, ressaltou.

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