Jurana Lopes
Especial para o Jornal de Brasília
A crise econômica que o País enfrenta e o fim dos incentivos fiscais, como a redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), têm contribuído para o aumento das vendas de carros seminovos e usados, de até 20%. Por outro lado, houve queda na venda de veículos zero-quilômetro, estimada em 15%. Para os veículos populares, a alíquota de IPI subiu de 3% para 7%. No caso dos carros flex, o imposto foi elevado de 9% para 11%. Já nos carros a gasolina, chega a 13%.
Outro fator que prejudica o setor é a dificuldade de aprovação de crédito de quem busca um financiamento. Os bancos estão exigindo entradas com valores mais altos e reduzindo a quantidade de parcelas. A recusa de crédito é resultado da elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que incide sobre empréstimos e financiamentos a pessoas físicas: a alíquota subiu de 1,5% para 3% ao ano.
O setor tem sentido o impacto. De acordo com Marcelino Rocha, gerente de financiamento da concessionária Saga, a procura por seminovos e usados tem sido alta. “Com o aumento do IPI, os clientes que estavam pensando em comprar um carro zero-quilômetro migraram para a busca por um seminovo, geralmente fabricado em anos recentes, a partir de 2012. Comparando o primeiro trimestre de 2015 com o mesmo período de 2014, eu diria que houve um aumento nas vendas de seminovos e usados de 22%, em média”, estima.
Crédito escasso
Segundo o gerente de financiamento, a queda na venda de carros novos foi acentuada, mas, apesar da procura pelos modelos usados e seminovos, o crédito escasso está prejudicando o setor. “Hoje, os bancos estão exigindo pelo menos, 20% do valor do carro de entrada e tem reduzido o tempo para quitar o veículo. Antes, era possível financiar um carro até sem a entrada e em 60 meses. Agora, as aprovações de crédito estão sendo dificultadas, infelizmente, pouquíssimas fichas são aprovadas”, relata.
Marcelino destaca também que cerca de 50% dos clientes estão comprando à vista ou conseguem o crédito porque têm bom relacionamento com o banco. Em março, a loja da Cidade do Automóvel conseguiu vender 114 seminovos. Já em abril, o mês fechou com cerca de 70 usados vendidos. Apesar da diminuição, Marcelino está com boa expectativa para maio, que, segundo ele, é bom para vendas.
Mudança de cenário nas lojas
O cenário é semelhante em diversas lojas de automóveis do Distrito Federal. O gerente de vendas da concessionária Stock Car, Jorge Torres, informou que, em seu estabelecimento, houve uma queda de aproximadamente 30% nas vendas de veículos zero-quilômetro nesses primeiros meses de 2015, comparado ao mesmo período do ano passado.
“O mercado de veículos está estável, a procura por seminovos tem sido maior. Mas, apesar do aumento do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), ainda estamos vendendo carros novos, só que cerca de 30% a menos que no início do ano passado”, explica.
Torres calcula que a loja tem conseguido fazer cerca de cem vendas mensalmente neste ano. E revela que, para isso, um diferencial faz parte da estratégia da empresa: abrir as portas todos os dias, até aos domingos, independentemente de feriados.
Seminovos e usados
De acordo com Paulo Poli, presidente da Associação da Agências de Automóveis do Distrito Federal (Agenciauto-DF), houve um aumento entre 15% e 20% nas vendas de veículos seminovos e usados. Ele também confirma que um dos fatores que explica isso foi a queda nas vendas de carros zero-quilômetro.
“Hoje, com a crise financeira que estamos enfrentando, é mais vantagem comprar um carro seminovo, porque ele já tem uma desvalorização no preço. As pessoas estão percebendo que o custo- benefício é bem maior para o momento. É muito prazeroso comprar um carro novo, mas é preciso analisar a realidade”, pondera.
Vendedor se preocupa
Apesar do aumento no número de vendas de veículos usados, o vendedor da concessionária Salão do Automóvel Élio Ignowsky se queixa da baixa nas vendas em geral. “A crise econômica está afetando todo o setor automobilístico brasileiro, e estamos vendendo muito pouco, cerca de 40% a menos. Estamos fechando o mês com a venda de 20 ou 30 carros somente”, relata, preocupado.
Para Rubens Martelo, supervisor de vendas da loja Stock Car, um fator que influencia muito na opção por veículos seminovos é a grande diferença de preço. “Muitas vezes, o cliente paga um valor bem menor em um carro fabricado no ano anterior e que é praticamente novo e superconservado, só porque ele já sofreu a desvalorização pelo fato de já ter saído da concessionária. O custo-benefício compensa para o cliente”, analisa.
Muita gente que opta pelo seminovo parece não se arrepender. Everson Calixto, 31 anos, técnico em telecomunicações, optou por um carro do ano 2012 quando surgiu a ideia de adquirir um veículo. “O carro zero-quilômetro está muito caro. Essa crise está atingindo todo mundo, os bancos estão exigentes demais. Então, optei por comprar um seminovo. O valor é muito mais acessível, são carros conservados e com poucos quilômetros rodados”, argumenta.
Pesquisa
A servidora pública Natália Caetano, de 31 anos, não pensou duas vezes na hora de trocar o carro e também optou por modelo 2012. “A diferença de preço seria bem maior se eu quisesse um carro novo. Então, pesquisei bastante e decidi ficar com um seminovo. O custo-benefício é melhor. É um carro quase novo, conservado e pouco rodado”, conta.