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Brasília

Cinquenta Tons de Cinza: filme desperta novas sensações

Arquivo Geral

12/02/2015 6h45

No topo da lista dos brinquedinhos eróticos mais procurados há anos, os vibradores  terão de se contentar com o segundo lugar. Itens como algemas, vendas, chicotes, chibatas, mordaças e kits de amarras, todos produtos sadomasoquistas, passaram a liderar o mercado nos últimos tempos. O sucesso absoluto da linha nos sex shops da cidade é unânime e, inclusive, disparou a venda de artigos ainda mais ousados, como as bolinhas de pompoarismo, fantasias de couro e até o balanço erótico.

 A mudança repentina no interesse do público, principalmente o feminino, não foi à toa. Pelo contrário, a motivação, o filme Cinquenta Tons de Cinza,   tem   data para estrear no cinema: hoje. O longa é uma adaptação do best-seller de E L James que se tornou um fenômeno mundial e, desde então, vem estimulando a curiosidade pelo sadomasoquismo romântico. 

No início, o tema soava estranho e, muitas vezes, era alvo de preconceito. Mas, ainda assim, a vontade de entender sobre o assunto e, mais do que isso, de experimentar novos “brinquedinhos” foi ganhando força junto com a ficção.

Novas formas

O termo sadismo expressa a busca pela satisfação sexual a partir do sofrimento alheio, enquanto o masoquismo é a prática na qual uma pessoa tem prazer ao sentir dor. Acessórios sadomasoquistas, portanto, são aqueles que têm a intenção de despertar essa sensação em ambos. E  é exatamente isso  que tornou os objetos mais cobiçados e aumentou a demanda no mercado.

 Na prática, porém, a ideia não é machucar o parceiro ou ser machucado de verdade e, sim, tornar a relação mais divertida, afirma a presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme), Paula Aguiar.

 De acordo com ela, o crescimento nas vendas dessa categoria de produtos foi bastante expressivo, chegando a aumentar, em média, 28% no ano passado em relação ao ano de 2013. Os dados são de uma pesquisa recente da Abeme que mapeou a relevância da trilogia literária no setor e o impacto econômico gerado.

 “Vemos esse avanço a partir de vários ângulos positivos. Primeiro, a chance do setor de produzir e lançar novos produtos e, segundo, o fato de iniciar uma reflexão sobre o tema, que estava tão esquecido no mercado, assim como a libertação da mulher na busca pelo prazer”, acrescenta Paula, ressaltando a expectativa   em relação ao filme.

Influência já chegou ao comércio

Diante do sucesso nas vendas dos artigos sadomasoquistas, os comerciantes garantem que a satisfação dos clientes é geral. No Erotika Sex Shop (502 Sul), por exemplo, a supervisora Juliana Buosi afirma que, em média, 30 consumidores passam pela loja diariamente. 

Já nas datas comemorativas, como o Dia dos Namorados, aniversário de casamento e despedida de solteiro, a supervisora explica que o fluxo varia entre 50 e 100 pessoas por dia.

Interesse maior

De acordo com Juliana, a grande diferença não é no número de clientes, mas sim nos objetivos dentro do estabelecimento. 

 “O movimento dentro da loja sempre foi bom e isso não mudou muito, a diferença agora é que a maioria dos clientes que visita nosso estabelecimento sempre compra alguma coisa. Além disso, o tipo de artigo que a clientela escolhe também mudou. Hoje, mulheres de 18 até 40 anos procuram um chicote ou algo mais ousado e não apenas um simples lubrificante”, conta.

Saiba Mais

Fenômeno de pré-venda nos Estados Unidos, o filme Cinquenta Tons de Cinza também já começou a bater recordes no Brasil. No Groupon Brasil, por exemplo, o longa vendeu cerca de 10 mil ingressos em apenas 36 horas. 
 
A adaptação para o cinema do 1° filme da trilogia   traz  o ator britânico Jamie Dornan no papel do poderoso magnata Christian Grey. O intérprete está prestes a se tornar um dos maiores símbolos sexuais do cinema e ainda terá uma biografia publicada.
 
A proximidade da estreia do filme vem movimentando, inclusive, o mercado de lingerie, que se inspirou no romance para apresentar modelos ousados. A aposta agora são nas modelagens mais firmes e em tecidos como a seda e a renda.
 
Ponto de vista

A procura por artigos sadomasoquistas e o aumento de consumidores nos sex shops é positivo, desde que seja uma vontade em comum do casal, garante a sexóloga Vânia Kussmaul. Isso porque, alerta, quando o interesse é exclusivo do parceiro, a experiência pode ser desagradável, além de causar um desentendimento desnecessário. “Por isso, aconselho conversar antes de optar por qualquer nova prática. Tudo o que é de comum acordo é benéfico para ambos os lados”, afirma.
 
No entanto, Vânia acrescenta que o aumento do fluxo de consumidoras nos sex shops, de fato, é interessante. “As mulheres que optam por brinquedos eróticos, para uso pessoal, costumam conhecer melhor o próprio corpo, o que, no geral, ajuda na relação a dois”, assegura a sexóloga, ressaltando que o verdadeiro sadomasoquismo pode ser perigoso, tendo em vista que envolve risco de morte.
 
De acordo com ela, o sucesso desses artigos está mais relacionado a um fetiche do que a busca pelo prazer através da dor física. “Na verdade, é tudo uma grande brincadeira e é legal que seja encarada dessa forma mesmo”, conclui. 
 
Trilogia dá tom à procura
 
De acordo com a supervisora do Erotika Sex Shop (502 Sul),  Juliana Buosi, a mudança no comportamento do consumidor é única e exclusivamente em razão da trilogia Cinquenta Tons de Cinza. “Perdi as contas de quantas clientes já entraram na loja com o livro na mão. Inclusive, elas chegam com a página marcada e pedem o produto que está naquele capítulo. Acredito que o livro funciona como um escudo, uma desculpa para as pessoas perderem a vergonha e o preconceito com o tema”, conclui.
 
 Segundo o gerente do sex shop Ideia Sexy (CLSW 304), do Sudoeste, Felipe Caldas de Souza, o faturamento da loja cresceu 60% em relação a janeiro do ano passado. Além disso, ele afirma que, atualmente, aproximadamente 50 consumidores passam pelo local por dia, sendo que antes o número chegava, no máximo, a 30.
 
Perfil

“Nosso público é bastante variado, porém é fato que as mulheres, com idades entre 18 e 60 anos, estão dominando o mercado sadomasoquista. Acho que a curiosidade está falando mais alto e isso não tem nada a ver com a proximidade do Carnaval. Uma vez, atendemos as três gerações de uma família”, admite. 
 
Situações inusitadas e prazerosas
 
Com 5,3 mil produtos no total, a Afrodith Sex Shop (415 Sul) ainda teve de ampliar seu estoque. De acordo com a gerente Vitória Meira, devido ao aumento da demanda, a loja resolveu reformar o local destinado aos artigos sadomasoquistas. “Nos últimos seis meses, as vendas dos itens sado cresceram 32%. Mais do que isso, enquanto pedíamos os produtos duas vezes por ano. Agora, temos que fazer a solicitação umas oito vezes”, comemora.
 
Vitória ressalta ainda que, com a busca por novas experiências, algumas histórias engraçadas também surgiram. “Uma vez recebi uma ligação de uma cliente que tinha algemado o marido e não sabia onde estavam as chaves. Foi uma situação muito divertida, pois existem alguns truques que as mulheres ainda não sabem sobre os produtos sadomasoquistas. Toda algema de brinquedo, por exemplo, tem um segredo para abrir, mesmo sem as chaves. Acredito que até essas histórias ajudam a diminuir o pudor”, conclui. 
 
Algo natural
 
Para a vendedora Fernanda Bezerra Dutra da Silva, de 29 anos, cliente das lojas de produtos eróticos, o tabu em relação a esse tema é ultrapassado. De acordo com ela, ir ao sex shop precisa ser algo natural, pois isso torna a relação do casal mais divertida e interessante.
 
“O sucesso dos livros se deve ao fato de trazer à tona uma relação picante, logo, comprova que esse assunto precisa ser debatido na realidade. Antes de ler a trilogia, eu já tinha curiosidade pelos artigos sadomasoquistas, mas após a leitura criei coragem para comprar alguns, como a venda, as famosas bolinhas e um aparelho de choque. Acredito que os cosméticos eróticos perderam para esses itens”, ressalta  Fernanda.
 
Tema sensual e romântico para leitores
 
 Para a economista Clara (nome fictício), 32 anos, a curiosidade por esses acessórios também se intensificou após a leitura da trilogia em apenas três dias. “Passei as madrugadas inteiras lendo até as 5h. Acredito que o fato de a história trabalhar o sadomasoquismo de uma maneira sensual e romântica foi decisivo. Sempre tive vontade e curiosidade por esse tema, mas isso sempre ficou apenas na minha imaginação” relata.
 
De acordo com a economista, o tema  deixou de ser tabu e é tratado com naturalidade. “Agora, não tenho mais vergonha de falar sobre o assunto e ainda tive a oportunidade sanar muitas dúvidas, mesmo não comprando nenhum produto ainda”, afirma ela, ressaltando que a sexualidade precisa ser conversada naturalmente dentro de casa.
 
Descobertas
Na opinião da assessora Joana Saraiva, de 26 anos, que leu os dois primeiros livros em uma semana, mais do que atiçar a curiosidade, a história coloca o leitor dentro de um universo que ele não imaginava que existisse.
 
“Muita coisa eu descobri lendo os livros e, por isso, minha expectativa em relação ao filme é enorme”, destaca. Joana ressalta ainda que não tinha resistência para visitar lojas especializadas em produtos eróticos. “Nunca tive problema ou receio de ir a sex shop, mas também nunca fui uma consumidora frequente”, relata.
 
 
 

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