Menu
Brasília

Cinco crimes passionais foram registrados este ano, com duas mortes

Arquivo Geral

01/03/2009 0h00

“O amor é fogo que arde sem se ver”. A definição poética do amor, construída pelo português Luís Vaz de Camões, order reacende as chamas daqueles que compartilham uma vida a dois. Em nome deste sentimento, o ser humano é capaz de fazer loucuras. É capaz até mesmo de matar ou morrer para ter a pessoa amada ao seu lado. Mas esse será o amor verdadeiro? Quando o respeito dá lugar ao ciúme e à obsessão e a paixão de transforma em ódio, o conto de fadas pode trilhar caminhos perigosos e terminar de forma trágica.


Apenas nos dois primeiros meses deste ano, cinco crimes passionais foram registrados pela polícia no DF. Três mulheres morreram e duas, por sorte, escaparam da mira daqueles que diziam amá-las demais. O Núcleo de Estudos e Programas para Acidentes e Violências (Nepav) da Secretaria de Saúde registrou no ano passado 435 casos de violência praticada contra a mulher. Destes, 288 sofreram agressões físicas e 147 abusos sexuais. A maioria por parte dos cônjuges, namorados ou companheiros.

A psiquiatria ainda tenta entender porque uma pessoa chega ao ponto de matar a outra ou praticar algum ato violento contra uma pessoa que julga ser seu grande amor. Estudos mostram que os crimes são praticados com mais frequência pelos homens, com idade entre os 18 e 30 anos. De acordo com o psiquiatra do Hospital Santa Lúcia e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Raphael Boëchat, diversos fatores influenciam no comportamento agressivo de um homem. Entre eles a cultura machista enraizada na sociedade e a forma como a pessoa encara o relacionamento amoroso.

Conforme o psiquiatra, cada caso deve ser analisado separadamente, mas os crimes passionais geralmente estão relacionados a transtorno de comportamento. “Uma pessoa que mata a outra por ciúmes por qualquer outro motivo não pode ser considerada normal. É doente”, defende.
Boëchat explica que o homicídio praticado pelo marido contra a mulher e vice-versa, pode acontecer após descontrole emocional. Pessoas com personalidade explosiva e impulsivas são mais propensas a cometer um crime passional. Quando ingerem bebidas alcoólicas, drogas ou estimulantes se tornam mais perigosas e chegam ao ponto de matar uma pessoa.


“Quem ama não mata”
Assim aconteceu com a garçonete Tais Ribeiro da Silva, de apenas 20 anos. Ela namorava havia um mês com Deivison de Souza, 25 anos. No último sábado, dia 21, a jovem saiu para beber com o companheiro e alguns amigos. Na volta para casa, o casal começou a discutir. Segundo testemunhas, ele insistia em dormir junto de Tais, mas ela negava. Ambos passaram a noite bebendo. A garçonete fechou a porta de casa e foi deitar.

Alguns minutos depois o namorado teria voltado e a chamou do lado de fora. Ao abrir a janela, um tiro certeiro atingiu sua testa. Apesar da pouca idade, Tais tinha três filhos de 5, 3 e o mais novo, de 1 ano. Nenhum era de Deivison. A tia da garçonete não conhecia o rapaz pessoalmente, mas tinha notícia de que ele era violento. “Ela tinha medo dele. Tudo o que ele queria ela tinha de fazer. Se minha sobrinha colocasse uma saia curta ele mandava trocar”, contou a tia da vítima, Ana Cristina da Silva, de 34 anos. O companheiro negou na delegacia a autoria do crime.


O psiquiatra Raphael Boëchat analisa o comportamento violento do ser humano não apenas do ponto de vista psicológico, mas, também, biológico. Ele explica o fato de o homem ser autor da maioria dos crimes passionais. Um dos fatores que predispõem para uma atitude violenta é o hormônio masculino testosterona, que está ligado à violência. A quantidade desse hormônio no homem pode motivar uma ação agressiva. A estrutura cerebral masculina também é diferente da estrutura cerebral da mulher. “Para a mulher chegar ao ponto de matar o marido é porque é muito, muito grave. Não é da índole dela”, explica o psiquiatra.


No entanto, Raphael Boëchat diz que alguns casos não têm cura. “Quando a agressividade é da personalidade da pessoa não há cura”, explica. Nesse caso o que se pode fazer é indicar medicações específicas para controlar os impulsos. Raphael Boëchat atende, em média, cinco pacientes com quadro de agressividade por mês em seu consultório. Nem todos se demonstram arrependidos por ter matado ou espancado a companheira.


A tia da garçonete morta no último sábado não acredita em reabilitação e tampouco que o assassinato de sua sobrinha tenha acontecido pelo fato de Deivison amar demais. “Quem ama não mata. Não entendo até hoje como uma pessoa é capaz de fazer uma coisa dessas”, diz a dona de casa Ana Cristina. Segurando a foto da sobrinha, ela conta que Tais era cheia de sonhos e planejava conseguir um bom emprego na intenção de construir uma casa para morar com os filhos.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado