Com a determinação de priorizar a educação dos internos e promover um trabalho integrado com a família de cada um deles, a nova diretora do Centro de Internação de Adolescentes da Granja das Oliveira (Ciago), Maria Salvadora Lacerda Melo – servidora de carreira do GDF – acredita que o processo de ressocialização na unidade atingirá os resultados almejado na sua gestão.
Como educadora e com longa experiência na área de assistência social, Salvadora tem a convicção de que a participação da família é fundamental no trabalho de promoção dos adolescentes em cumprimento da medida socieducativa. Ela acredita que eles são passíveis de mudança e de ascensão na sua integralidade. “Não admito rótulos nesses meninos e nem tampouco que sejam tratados de maneira discriminada”, afirma.
Escolarização
Hoje, é uma referência do sistema socioeducativo do Distrito Federal. Abriga 144 adolescentes do sexo masculino, que cumprem uma rígida carga horária com jornada integral de atividades educativas. Além de cursarem o ensino regular, na modalidade EJA (Ensino para Jovens e Adultos), ministrado por 21 professores da Secretaria de Educação, os adolescentes ainda participam de atividades socioculturais, esportivas e das oficinas profissionalizantes. “A escolarização faz parte do processo de ressocialização e os adolescentes têm que ser assíduos na escola e nas atividades extraclasse”, explica Salvadora.
A participação dos internos nas atividades é essencial, pois, segundo a diretora, a avaliação de cada um deles é baseada em seu desempenho nas múltiplas ações desenvolvidas na unidade. A partir daí é que se estuda o retorno do adolescente para a comunidade, podendo inclusive ser liberado antes do período de internação previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, de até 3 anos. “O nosso desafio é fazer com que o adolescente repense a forma de conviver na sociedade e com que ele queira mudar e voltar melhor para a família e para a comunidade” enfatiza.
Equipe multiprofissional
Conforme Salvadora, o atendimento aos adolescentes é contínuo. O trabalho de ressocialização é feito por meio de uma equipe multiprofissional, composta por especialistas das áreas exigidas pela legislação, a exemplo de psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, médicos clínico e psiquiátrico, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, odontólogos e auxiliares de odontologia, além do pessoal da área administrativa, nutricionistas, educadores e socioeducadores. Ela ainda destacou que todo o atendimento tem como base o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Sistema Nacional Socioeducativo (Sinase).
Segundo Salvadora, o sistema de ressocialização do Ciago oferece um atendimento técnico sistematizado, que ocupa os adolescentes o dia inteiro. O trabalho é todo monitorado por psicólogos e assistentes sociais. Quando não estão em aula, eles se ocupam com atividades nas oficinas de cerâmica, padaria, confeitaria, marcenaria, alfaiataria, informática, serigrafia, capoeira, hip hop, futebol, entre outros.
Conquista pessoal
O resultado desse trabalho intensivo foi constatado, no final do ano, quando 13 internos do Ciago foram aprovados no vestibular da Universidade Católica de Brasília (UCB) e do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Agora, a batalha da atual diretoria está voltada para a busca de bolsa de estudo. “Precisamos oferecer meios para que eles dêem continuidade aos seus projetos pessoais e para que não haja frustrações diante de uma relevante conquista” alertou Salvadora.
Como se trata de um fato inédito, a disponibilidade de financiamento de estudo para jovens em cumprimento de medidas socioeducativas não existe. A esperança está em um entendimento entre a diretoria do Ciago e a reitoria da universidade, que ficou sensibilizada com os argumentos de Salvadora e prometeu analisar a possibilidade de disponibilizar as vagas, por meio de uma bolsa social da própria universidade.
Diante das dificuldades, Maria Salvadora, por intermédio do secretário de Justiça, Flávio Lemos, sugeriu ao Secretário de Ciência e Tecnologia, Izalci Lucas, que insira na Fundação de Amparo à Pesquisa (FAP) cotas para contemplar estudantes em medidas socioeducativas. A sugestão foi acatada e deverá ser incluída nos próximos projetos da FAP.
Gestão direta
Atualmente, o Ciago funciona com um modelo de gestão compartilhada. A expectativa é de que até julho deste ano, o Governo do Distrito Federal, por meio da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, assuma integralmente a administração dessa unidade. Segundo Salvadora, o Ciago já está se preparando para a nova realidade.
Conforme explicou, a direção está fazendo um reordenamento interno nos aspectos técnicos e administrativos com vista à gestão direta. Por outro lado, a Secretaria de Justiça também já tomou algumas iniciativas para a concretização do processo. Uma delas foi o lançamento dos concursos públicos, este mês, para a contratação de técnicos de nível superior e equipe de aproveitamento nas atividades meio, além de atendente de reintegração social para a nova gestão da unidade.
Salvadora
Bacharel em história, pedagoga, administradora escolar e servidora da carreira pública de assistência social da Secretaria de Justiça, Maria Salvadora começou a trabalhar no Ciago no momento em que foi inaugurado, em 2006. Lá, ela permaneceu, por dois anos, como assessora da direção. No final de dezembro, Salvadora voltou ao centro como diretora. “Eu gosto muito do que faço e estou aqui por vocação”, enfatiza ela.
Na bagagem, Salvadora carrega uma vasta experiência no trabalho de assistência social com adolescentes. Vem desde a época da Funabem – Fundação Nacional do Bem-estar do Menor – órgão do Ministério da Previdência Social que funcionava no Gama. Também atuou no Centro de Abrigamento Reencontro, na direção do Abrigo do GDF, entre outros. Já são 32 anos de serviço público. Mais que o casamento de 29 anos que gerou duas filhas e os netos Pedro e Lucas. Baiana de Campo Alegre de Lourdes, ela tem orgulho de ser uma pioneira. Em 1960, com 4 anos, Salvadora aportou em Taguatinga com a família, onde mora até hoje.