Como se fosse uma folha de papel, o asfalto foi arrancado pela água em Ceilândia, próximo à Unidade de Pronto Atendimento (UPA). O que resta está retorcido, formando uma espécie de onda. “A chuva veio e o asfalto foi”, resumiu Leandro Alves, 25, que vende coco à beira da pista. A situação se reflete em toda a região, fazendo moradores arcarem com prejuízo.
A situação mais crítica é na pista de desaceleração para o retorno pouco antes da UPA, na QNN 27/ 28. Quem pretende fazer a curva precisa ir até o extremo da pista do meio para, só então, manobrar. Segundo Leandro, tudo começou pela boca de lobo, que fica próxima a uma faixa de pedestre. “Hoje, aquela faixa da pista não existe mais. A última chuva, de sexta-feira, piorou muito a situação. Parece que ninguém consegue fazer um asfalto direito”, reclama.
Para atravessar a faixa de pedestres com três crianças, a desempregada Cristiane Lima da Silva, 30, tem de levantar o carrinho de bebê. “Não tem como passar arrastando porque o buraco é grande. Está desnivelado”, diz. Por isso, demora mais do que o normal para chegar ao outro lado, provocando insatisfação de alguns motoristas.
Entrequadras “esquecidas”
Enquanto as avenidas apresentam asfalto considerado bom pelos motoristas, o cenário entre as quadras é de excesso de buracos. Em menos de um metro, são 15 aberturas na QNN 22/24. “Só lembram de arrumar às vésperas das eleições”, queixou-se o administrador Felipe Araújo, 29, que teve de fazer reparos no veículo.
Na QNN 5/7, a calçada da casa do aposentado José Alves, 73, é que sofre. Para desviar de dois buracos que ocupam as duas faixas, “todo mundo passa por cima da calçada”, conta. Por isso, parte do meio-fio não existe mais: “Quebraram tudo”.
De acordo com ele, há menos de um mês houve operação para tapar buracos. “Arrumaram alguns, mas deixaram outros abertos. Chegaram a prometer que voltariam, mas nunca mais vieram”.
Viaduto alaga de novo
Entre 2013 e 2014, o viaduto da QNN 5/7 de Ceilândia foi palco da morte de duas pessoas. Uma criança e um jovem, de sete e 20 anos, se afogaram na inundação que chegava a três metros de altura. Foram oito meses de obras de drenagem até a liberação do local. No entanto, parece que as obras não foram suficientes para sanar o problema.
Depois de três horas de chuva neste fim de semana, o alagamento ultrapassou um metro de altura, segundo moradores. A balconista Jéssica da Silva, 21, mora em frente ao viaduto e não tem poucas reclamações. “Depois da obra, passou a alagar mais rápido e também a demorar para baixar o nível da água”, revela. Dessa vez, o alagamento matou um cão.
Na sexta-feira, conta, se formou uma fila de veículos que não conseguiram passar pelo local. O mesmo aconteceu com quem precisava atravessar a pé. Ali é a única passagem à quadra vizinha. O cabeleireiro Jeferson Guedes, 22, reclama: “Quando chove e alaga, a gente fica preso. Eu não pude passar para o outro lado porque tive de esperar a água escoar”.
Pior que isso, diz ele, é o bueiro sem tampa. “Isso aqui está sempre aberto”, mostra. “Certa vez, até tentei colocar a tampa de concreto no lugar com uma amiga, mas acabamos deixando cair no fundo. Não encaixou”, lamenta.
Em outubro do ano passado, o Jornal de Brasília já havia mostrado que o local foi palco de novos alagamentos. Naquela época, o bueiro já estava sem tampa.
Versão Oficial
O administrador regional de Ceilândia, Vilson José de Oliveira, diz ter conhecimento das situações da pista próxima à UPA e das entrequadras, e prevê a necessidade de novas obras no viaduto que vitimou duas pessoas. “Na semana retrasada fizemos o conserto de um buraco, mas nesta semana a chuva foi muito forte e descolou quase metade da pista de desaceleração”, explicou. Para amanhã, uma equipe deve refazer o asfalto ali e em parte da cidade. Sobre a situação nas vias internas, ele afirma que estão em execução ações emergenciais. “Até por causa da chuva, não dá para tapar buracos neste momento, seria jogar asfalto fora. Quando finalizarmos as vias principais e secundárias, as pistas entre as quadras serão arrumadas”, garantiu. Em relação ao viaduto da QNN 5/7, ele considera que, “na época, fizeram um trabalho com as manilhas com dimensão muto pequena, deveria ser maior. Já tentaram fazer um paliativo e não deram conta”. Agora, vai pedir a uma equipe para conferir o local e, caso necessário, desentupir as bocas de lobo. “Tem que refazer a captação. Mas é uma obra grande, tem que fazer um estudo bem detalhado”, finalizou.