
“Ah, se essa água fosse eterna”. No Dia Mundial da Água, comemorado hoje, a finitude deste bem precioso é colocada em xeque. É hora de repensar formas de evitar a escassez. Para especialistas, as ameaças de desabastecimento são reais para os quase 2,5 milhões de habitantes do DF. Entre os vilões desse cenário estão a urbanização desenfreada, o aumento da demanda por água para consumo e a má conservação dos mananciais. Para tentar reverter o quadro, soluções a curto prazo começam a ser tomadas e, nos próximos anos, o Lago Paranoá também servirá como fonte de abastecimento.
“A qualidade está boa, mas sob pressão”. É o que afirma o vice-presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Paranoá, Paulo Sérgio Salles, sobre os rios, lagos e riachos. Segundo ele, muitos pontos de abastecimento foram perdidos em consequência da urbanização desordenada
Para Paulo, a ameaça de escassez é uma realidade próxima e deve ser encarada com seriedade. “A urbanização aliada à falta de sistema adequado de saneamento e ao assoreamento estão matando as nossas fontes de abastecimento”, diz.
Contribuição
Ciente deste problema, o professor Evandro Teixeira, 37 anos, ressalta que a participação da comunidade é essencial. De sua parte, ele frisa que tem se esforçado para reduzir as chances de escassez. “Tenho uma chácara e utilizo a água da cisterna para diversos fins”.
De acordo com ele, medidas simples podem contribuir para o uso racional de água. “Passo menos tempo no chuveiro. Aciono a descarga só uma vez. Transmito isso aos meus alunos”, explica.
Chuva
O ano começou com tempo mais seco na capital. Tanto em janeiro quanto em fevereiro o acumulado de chuva ficou cerca de 40% abaixo do normal. No entanto, em março os padrões mudaram um pouco e, até o último dia 17, já choveu 190mm, que equivale à média do mês. Com a previsão de chuvas para os próximos dias, a cidade deverá ter pela primeira vez em 2014, volumes de água acima do esperado. Em 15 dias, ou seja, até o dia 31, vai chover mais de 120mm.
De acordo com Paulo Sérgio Salles, a falta de chuvas é um agravante. “Se chove forte e passa vários dias sem chover, isso não é bom para o abastecimento. No Lago Paranoá, por exemplo, demora muito pra voltar”, explica.
Consumo médio: 400 litros/ano
Para o promotor de Defesa do Meio Ambiente (Prodema) Roberto Carlos Batista, a preservação dos recursos hídricos é responsabilidade de todos. “É importante evitar ações como a urbanização, cujo o crescimento populacional está atrelado, e fez com que o sistema ficasse deficitário”, ressalta.
De acordo com o representante do MP, a conscientização é uma das principais maneiras de garantir o serviço de fornecimento em qualidade e quantidade desejáveis. “Nós temos uma média de consumo extremamente alta por habitante. Cada pessoa gasta o equivalente a 400 litros por ano. Há um consumo nada racional”, salienta.
“Também há o problema dos poços tubulares. Cidades como Sobradinho e São Sebastião usam muito isso. Falta planejamento e racionalização das águas. Eu, particularmente, não vejo campanha de economia nesse sentido”, avalia.
Batista alerta que as chances de o DF ter destino semelhante ao de São Paulo, onde a escassez de água dá sinais visíveis, são grandes. “Além do crescimento populacional, nós temos o problema de qualidade da água. As áreas que poderiam proteger as nascentes estão sendo devastadas. O segundo problema é a poluição. Na década de 1990, foi constado que o lixo da Estrutural já estava contaminando o Parque Nacional”, lembra.
Investimentos
O Secretário de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos do DF, Eduardo Brandão, ressalta que a preservação tem sido uma das nossas maiores preocupações da pasta. “O Brasília, Cidade Parque, é um programa que tem revitalizado e implantado os parques do DF. Além da preocupação com o aumento da qualidade de vida, cuidamos e protegemos nascentes. Temos ao todo 72 parques e 20 unidades de conservação e todos receberão investimentos. Em todas as unidades, há recursos hídricos”, relata.
Para a especialista em Meio Ambiente Rosana de Castro, o caso da região em que se encontra o DF traz desafios. Sua oferta de água é naturalmente menor por ser localizada em região de nascentes. Nessas áreas, grandes massas de águas, como rios volumosos, são difíceis de serem encontradas.
“O DF concentra nascentes que abastecem diversas regiões do País. Nesse sentido, o dever não tem sido muito bem cumprido. E o maior culpado é a falta de planejamento”, diz Rosana.