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Brasília

Cenário de escassez de água cada vez mais próximo

Arquivo Geral

22/03/2014 9h00

“Ah, se essa água fosse eterna”. No Dia Mundial da Água, comemorado hoje, a finitude deste bem precioso é colocada em xeque. É hora de repensar formas de evitar a escassez. Para especialistas, as ameaças de desabastecimento são reais para os quase 2,5 milhões de habitantes do DF.  Entre os vilões desse cenário estão a urbanização desenfreada, o aumento da demanda por água para consumo e a má conservação dos mananciais. Para tentar reverter o quadro, soluções a curto prazo começam a ser tomadas e, nos próximos anos, o Lago Paranoá também servirá como fonte de abastecimento.

 “A qualidade está boa, mas sob pressão”. É o que afirma o vice-presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica  do Rio Paranoá, Paulo Sérgio Salles, sobre os rios, lagos e riachos. Segundo ele, muitos pontos de abastecimento foram perdidos em consequência da urbanização desordenada

 Para Paulo, a ameaça de escassez é uma realidade próxima e  deve ser encarada com seriedade. “A urbanização aliada à falta de sistema adequado de   saneamento  e ao assoreamento  estão matando as nossas fontes de abastecimento”, diz.

 Contribuição

Ciente deste problema, o professor Evandro Teixeira, 37 anos,  ressalta que a participação da comunidade é essencial. De sua parte, ele frisa que tem se esforçado para reduzir as chances de escassez. “Tenho uma chácara e utilizo a água da cisterna para diversos fins”.

 De acordo com ele, medidas simples podem contribuir para o uso racional de água. “Passo menos tempo no chuveiro. Aciono a descarga só uma vez. Transmito isso aos meus alunos”, explica.

Chuva  

O ano começou com tempo mais seco na capital. Tanto em janeiro  quanto em fevereiro o acumulado de chuva ficou cerca de 40% abaixo do normal. No entanto, em março os padrões mudaram um pouco e, até o último dia 17, já choveu 190mm, que equivale à média do mês. Com a previsão de chuvas para os próximos dias, a cidade deverá ter pela primeira vez em 2014, volumes de água acima do esperado. Em 15 dias, ou seja, até o dia 31, vai chover mais de 120mm.

 De acordo com Paulo Sérgio Salles, a falta de chuvas é um agravante. “Se chove forte e passa vários dias sem chover, isso não é bom para o abastecimento. No Lago Paranoá, por exemplo, demora muito pra voltar”, explica.

Consumo médio: 400 litros/ano

Para o promotor de Defesa do Meio Ambiente (Prodema)  Roberto Carlos Batista, a preservação dos recursos hídricos é responsabilidade de todos. “É importante evitar ações como a urbanização, cujo o crescimento populacional está atrelado, e fez com que o sistema ficasse deficitário”, ressalta. 

 De acordo com o representante do MP, a conscientização é uma das principais maneiras de garantir o serviço de fornecimento em qualidade e quantidade desejáveis. “Nós temos uma média de consumo extremamente alta por habitante. Cada pessoa gasta o equivalente a 400 litros por ano. Há um consumo nada racional”, salienta.

 “Também há o problema dos poços tubulares. Cidades como Sobradinho e São Sebastião usam muito isso. Falta planejamento e racionalização das águas. Eu, particularmente, não vejo campanha de economia nesse sentido”, avalia.

 Batista alerta que  as chances de o DF ter destino semelhante ao de São Paulo, onde a escassez de água dá sinais visíveis, são grandes. “Além do crescimento populacional, nós temos o problema de qualidade da água. As áreas que poderiam proteger as nascentes estão sendo devastadas. O  segundo problema é a poluição. Na década de 1990, foi constado que o lixo da Estrutural já estava  contaminando o Parque Nacional”, lembra.  

Investimentos

 O Secretário de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos do DF, Eduardo Brandão, ressalta que a preservação  tem sido uma das nossas maiores preocupações da pasta. “O Brasília, Cidade Parque, é um programa que tem revitalizado e implantado os parques do DF. Além da preocupação com o aumento da qualidade de vida, cuidamos e protegemos  nascentes. Temos ao todo 72 parques e 20 unidades de conservação e todos receberão investimentos. Em todas as unidades, há recursos hídricos”, relata. 

 Para a especialista em Meio Ambiente Rosana de Castro, o  caso da região em que se encontra o DF traz desafios. Sua oferta de água é naturalmente menor por ser localizada em região de nascentes. Nessas áreas, grandes massas de águas, como rios volumosos, são difíceis de serem encontradas. 

 “O DF concentra nascentes que abastecem diversas regiões do País. Nesse sentido, o dever não tem sido muito bem cumprido. E o maior culpado é a falta de planejamento”, diz Rosana.

Risco de tragédia
 
Proteger as nascentes do Parque Olhos  D´Água, na Asa Norte, é uma preocupação de ambientalistas, da população e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Em setembro de 2013, o MP  e o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) firmaram Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para retomar as obras de canalização de águas pluviais, a cargo da Cimentos Planalto (Ciplan). 
 
De acordo com o documento, as obras possuem caráter emergencial e visam acautelar danos ambientais maiores decorrentes do aumento de vazão pluvial no período de chuvas. Outro problema são erosões que representam grave risco de segurança para a estabilidade do Bloco I da SQN 212. Cabe ressaltar que a obra, em caráter provisório, não dispensa a implementação de rede de drenagem de águas pluviais pela Novacap, mediante projeto aprovado pelo Ibram. 
 
Rede pluvial
 
Segundo o advogado Ricardo Eugênio Montalvão, os moradores clamam pela construção da rede pluvial definitiva e a implementação do corredor ecológico. Ele frisa que o movimento em defesa do parque já conseguiu verba e tem toda uma documentação sobre o que está havendo no local. 
 
“Após muita luta, conseguimos o orçamento de R$ 15 milhões da União  e o Decreto 33.588/12 que autoriza a obra. Precisamos de apoio do governo para elaborar o projeto básico e viabilizar o empenho dessas verbas”, explica Montalvão. Hoje  haverá manifestação em prol da causa, ao lado das nascentes do córrego. 
 
Em resposta, a Novacap  esclareceu que tem um projeto de drenagem para atender as quadras 212/ 213 da Asa Norte, passando pelo Parque Olhos D’água, pela área da Universidade de Brasília e lançando as águas no Lago Paranoá.
 
“Porém, até o presente momento, o projeto ainda não recebeu autorização ambiental para sua implementação. O Ministério Público do DF ainda discute com a Novacap, o Ibram e a Universidade de Brasília uma solução técnica e ambiental para viabilizar a drenagem do parque e evitar os processos erosivos”, informou a nota.
 

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