João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília
O músico e militar da reserva Ademar Correa não conseguia enxergar tão bem até o início de julho. Aos 60 anos, era difícil ler as partituras do baixo e as letras pequenas que aparecem na televisão. Ademar descobriu, depois de acompanhamento com oftalmologista, que o impedimento na visão era decorrente de uma catarata já avançada. No Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em média, 28,7% das pessoas com mais de 60 anos sofrem de catarata. A doença seria responsável por 51% dos casos de cegueira no mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A pesquisa mais recente sobre o tema foi divulgada pelo IBGE no ano passado, com dados referentes a 2013. A região Centro-Oeste apresentou a maior incidência em indivíduos com mais de 60 anos: 33,7% da população. Em seguida, vêm as regiões Nordeste (31,9%), Sudeste (28,7%), Norte (26,7%) e Sul (21,8%). O grande desafio é que não há tratamento preventivo. Com o envelhecimento do corpo, ela pode aparecer para qualquer pessoa. Há ainda pessoas que apresentam a doença antes dos 50 anos, e até mesmo ainda crianças.
diagnóstico.
O oftalmologista e especialista em catarata Jonathan Lake afirma que, quanto antes a doença for identificada, melhor. Com a cirurgia, a melhora é certa tanto para a visão próxima ou distante e sem sofrimento. Ele lembra da importância de levar os recém-nascidos ao oftalmologista para que qualquer problema seja identificado.
O especialista explica que o olho é como uma máquina fotográfica com lentes na frente. A retina seria o filme. O responsável pela doença é o cristalino, uma dessas lentes. Ele não para de crescer mesmo na velhice, assim como os cabelos.
Perto dos 40 anos, o cristalino fica grande demais. Assim, ele enrijece e perde a função, já que deixa de ser transparente e não permite que os raios luminosos entrem no globo ocular da mesma forma. A pessoa passa a enxergar tudo embaçado e com dificuldade.
“A ideia é que não exista a catarata. Ou seja, assim que o paciente começar a tê-la, é preciso tratá-la”, diz o oftalmologista, que percebe que, no DF, há níveis excelentes de diagnóstico devido a bons profissionais e centros avançados.

Hugo Barreto
Diferença vista imediatamente
Para o militar da reserva Ademar Correa, conviver com a doença estava difícil. Ele lembra que não conseguia andar direito na rua sem a ajuda da mulher. Assim que foi diagnosticado com catarata, procurou fazer a operação de correção.
“Quando saí da sala de cirurgia, já notei a diferença. Mesmo com o efeito de anestesia”, diz o militar. Ele se recorda de que, quando chegou em casa, já via o que não enxergava antes na televisão.
Cirurgia
A cirurgia é quase completamente robótica, pode ser feita com laser ou não. Em geral, dura dez minutos e a pessoa pode ir para casa no mesmo dia já enxergando bem. A operação consiste em retirar o cristalino com defeito e, em seu lugar, colocar uma lente que desempenha o mesmo papel.
A doença não volta e os únicos cuidados necessários são o uso de colírios e o acompanhamento com o oftalmologista regularmente. De vez em quando, pode ser preciso apenas uma limpeza na lente.
É possível fazer a cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que cobre a cirurgia e a lente, e também por convênios particulares. Os planos são obrigados a fazer todos os procedimentos sem cobrança extras, já que o paciente corre o risco de ficar cego. De acordo com o médico Jonathan Lake, que chega a fazer 30 atendimentos diários de pacientes com a doença e mais ou menos 200 cirurgias para a correção do problema, no DF, é possível se submeter à cirurgia com certa tranquilidade.
De acordo com a Secretaria de Saúde, em 2014, entre atendimentos emergenciais e ambulatoriais, foram 155 procedimentos cirúrgicos, e, no ano passado, 130.
A Secretaria de Saúde informa que o atendimento para pacientes com catarata é realizado no ambulatório de nove unidades de Saúde do DF: hospitais de Ceilândia, Taguatinga, Gama, Guará, Paranoá, Sobradinho, Taguatinga, Asa Norte, Base e Materno Infantil. Este último é especializado em oftalmologia pediátrica.
Vida nova
“Se eu tivesse continuado sem fazer tratamento, teria ficado cego. A leitura, até de jornal, era muito difícil”, afirma Ademar Correa, que também foi professor de música do Colégio Militar de Brasília.
Ele completa que, às vezes, até esquece de colocar os óculos de leitura devido ao sucesso da cirurgia. “Agora, eu vejo até o que não devo”, brinca Correa. “Quero ir à praia para ver as coisas boas de lá”.
Saiba Mais
O governo local fez mutirão de cirurgias por meio da Carreta da Visão. Mas o projeto foi encerrado ainda em 2014.
Segundo a Secretaria de Saúde, de abril a outubro de 2014, o programa realizou 65.629 consultas e 41.490 cirurgias de catarata em cinco regiões do DF (Ceilândia, Gama, Sobradinho, Taguatinga e Samambaia).
Durante seu funcionamento, o projeto passou também a realizar 800 consultas diárias (além dos pacientes agendados da catarata).
O principal objetivo do programa foi a redução do número de pacientes com catarata no DF. Para tanto, foi atendida principalmente a população de risco da doença (maiores de 60 anos), realizando cirurgias no próprio local de atendimento. Com oito oftalmologistas e um anestesiologista, a carreta era constituída de 65 profissionais da Saúde.