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Brasília

Casal larga emprego para rodar o mundo trabalhando

Arquivo Geral

07/05/2016 7h00

Manuela Rolim

manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br

Eles largaram tudo. Em maio do ano passado, deixaram para trás casa, família, amigos e estabilidade profissional. A ideia era viajar sem destino durante um ano. Uma aventura, no mínimo, invejável e, ao mesmo tempo, inconsequente. Será? Não para os protagonistas dessa história. Ao planejarem a partida, a brasiliense Karen Ribeiro Valadares, 30, e o australiano Liam Cole, 27, juntos há quase oito anos, criaram uma empresa de marketing digital e hoje percorrem o mundo enquanto trabalham pela internet.

Com o emprego dos sonhos na mala, o que parecia uma temporada turística virou estilo de vida. Quanto ao prazo de 365 dias na estrada, esse já não existe mais. Após visitarem 22 países, os andarilhos não pensam em parar tão cedo.

Os dois se conheceram em 2008, quando a brasileira – que havia acabado de se formar em Publicidade pela Universidade de Brasília (UnB) – foi fazer um curso em Sidney. “Nós tínhamos uma amiga em comum, nos conhecemos num pub e começamos a namorar. Depois de um ano e meio, voltei para o Brasil porque acabou o curso. Quando eu estava no aeroporto, ele me fez uma surpresa e disse que tinha comprado passagem para vir ao Brasil também”, lembra Karen. Entre algumas idas e vindas de Liam, passaram-se pouco mais de dois anos, até que em 2011, a publicitária decidiu se mudar para a Austrália.

A ideia de dar a volta ao mundo surgiu em 2014. “Nós viemos para a Copa. Quando voltamos para a Austrália, eu trabalhava na Ogilvy [& Mather, uma das maiores agências de publicidade do mundo], adorava meu emprego e ele também estava trabalhando. Estávamos todos bem. Mas, um dia no carro, eu pensei que não estava pronta para comprar uma casa. Queria viajar. Aí, começamos a conversar sobre isso, meio que na brincadeira mesmo”, conta.

O casal decidiu que, como ia largar o emprego, não poderia ser uma viagem de três meses. Teria que ser de, pelo menos, um ano. “Mas a gente não queria só viajar, queria também trabalhar durante o período, focar na nossa carreira”, completa.

Assim nasceu a Working As We Go (“trabalhando enquanto seguimos”, em tradução livre), uma empresa de publicidade, especializada em marketing digital. Karen é a responsável por criar e divulgar os sites de clientes. Liam, que é designer, cuida do layout das páginas e da criação de peças gráficas. Como o trabalho é todo feito no computador, o casal pode executá-lo de qualquer parte do mundo. De acordo com a brasiliense, os clientes chegam até a Working As We Go de três principais maneiras: por meio do Facebook, da página da empresa e da indicação de outros clientes.

Quase um ano após a criação do negócio – em 11 de maio de 2015 – o casal já desenvolveu 18 projetos e visitou 55 cidades de 22 países. A primeira parada foi no Japão. Essa, aliás, foi a única viagem planejada com antecedência. “A gente não tinha nenhuma outra passagem comprada. Muitas vezes, a gente planejava uma viagem no dia anterior. Não sabia nem pra onde ia”, explica. Eles costumam passar, em média, uma semana em cada local. “Se você chega numa cidade pra ficar três dias, é muito corrido. Não tem como trabalhar, porque você quer conhecer. Se a gente tem uma semana, dá pra tirar uns três dias pra fazer turismo. Funciona muito melhor”, avalia Karen.

Entre os destinos visitados, estão países tradicionalmente turísticos, como França e Inglaterra, e outros nem tão conhecidos assim, a exemplo da Guatemala. Karen e Liam têm dificuldades  para escolher o lugar que mais gostaram. “O Japão, por ter uma cultura muito diferente da nossa; [a ilha de] Santorini, na Grécia, que é maravilhosa, muito linda; Praga e Budapeste, pela arquitetura, os castelos… É difícil escolher um só”, afirma a publicitária.

Mesmo depois de tantos quilômetros percorridos, o casal não pensa em parar. No último dia 24, eles embarcaram para o Rio de Janeiro. A sequência do roteiro tinha ainda passagens por Chile, Peru e Bolívia. A única pausa será no dia 10 de junho, quando os dois vão se casar, em Brasília. As viagens – garantem – serão lembradas na cerimônia. “Falar de Liam e Karen sem falar de viagem é meio complicado”, brinca a noiva, aos risos.

Conselhos

Para aqueles que desejam seguir os mesmos passos e se lançar numa jornada pelo mundo, a brasiliense recomenda planejamento prévio e coragem. “Muita gente fala que nós somos sortudos. A gente só se acha sortudo por ter saúde e por nada de dramático ter acontecido conosco, porque nós trabalhamos como loucos um ano antes. Economizamos cada centavo. A gente não saía, não comprava nada. É preciso querer e ter a coragem de fazer. Eu aconselho juntar uma grana antes e se jogar. Não tem como perder muito. O máximo que pode acontecer é você voltar para trás. Vale a pena arriscar”, garante.

Na opinião de Karen, a maior dificuldade durante as viagens é manter o controle financeiro. “O orçamento é muito contadinho. É preciso ter em mente que você não é turista, não pode comer em restaurante todo dia”, diz. A brasiliense também minimiza outras adversidades temidas por quem ainda não teve coragem de viajar apenas com uma mochila nas costas. “Com a língua você se vira. As pessoas são muito receptivas, tem muito mais gente boa do que ruim no mundo. Todo mundo está disposto a te ajudar. Em relação à comida, eu não tive muita dificuldade, pelo contrário, era uma bênção. Já sentir falta da família, até que a gente sente. Mas, quando você vê um monumento ou uma paisagem maravilhosa, pensa: ‘eu consigo esperar mais um pouquinho’”, pondera.

Entre os poucos apertos e as muitas experiências boas, a publicitária faz uma avaliação positiva de tudo o que viveu até agora. “Você aprende muito a se adaptar e ver a beleza no que é diferente. A gente cresceu muito. Hoje, respeitamos muito mais o próximo, temos uma cabeça muito mais aberta para ouvir uma coisa que é totalmente contrária ao que a gente pensa. Viajar é melhor do que qualquer escola”, indica.

Histórias

Após visitar tantos lugares diferentes, Karen e Liam colecionam histórias. Uma das mais marcantes, segundo eles, aconteceu na Guatemala. “Os ônibus lá são privados, não têm ligação com o governo. Nós pegamos um e, depois de um tempo, paramos em uma feira para outros passageiros embarcarem. Enquanto aguardávamos, perguntei para o motorista se ali vendia frango. Ele respondeu que não, mas disse que pararia em outro lugar para eu poder comprar. Seguimos a viagem e, no meio do caminho, ele para e pergunta se eu ainda queria o frango. Ele parou o ônibus com todo mundo dentro só pra eu poder comprar”, diverte-se a brasiliense.

Ainda na América Central – desta vez na Costa Rica – o casal viveu outro episódio que o marcou de uma maneira negativa. “Nós fomos fazer rafting e o bote virou. O Liam ficou muito tempo embaixo d’água. Eu não faço mais”, arremata.

Já nos Estados Unidos, em Michigan, o casal também viveu uma experiência marcante. Segundo Karen, ao entrar em uma loja para comprar o vestido de noiva, ela ganhou uma nova cliente. “O site deles não era muito bom. Eu ofereci os nossos serviços e eles nos contrataram. Saí de lá com um vestido incrível e uma cliente”, comemorou.

Serviço

http://www.workingaswego.com

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