O sucesso do Carnaval de Brasília surpreendeu candangos e turistas. Contudo, o inesperado número de foliões, que ultrapassou a marca de um milhão de pessoas, é avaliado pelo comércio como resultado da crise financeira do Governo do Distrito Federal (GDF). Com o atraso no pagamento dos servidores, que representam 5,2% da população da capital, muitos deixaram de viajar e receberam a visita de parentes e amigos. Porém, para a Secretaria de Turismo, a multidão espalhada nas ruas do DF é uma tendência, relacionada à ocupação de espaços públicos. Por isso, a região pode se tornar uma referência nos próximos carnavais.
“Brasília já deu um ótimo cartão de visita neste ano. É a capital da República, onde o Brasil se encontra. E a gente tem uma característica muito particular, que é a manifestação de várias culturas. Na Bahia, tem axé. No Rio, samba. Em Recife, frevo. Aqui, tem tudo, todos os ritmos. E essa é marca da nossa cidade”, aponta o secretário de Turismo, Jaime Recena.
Segundo ele, o sucesso dos bloquinhos, que levaram multidão às ruas, é resultado de um movimento de ocupação da cidade. “Com o surgimento desta ideia, as pessoas participaram mais do Carnaval”, avalia.
Já o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes e Bares (Sindhobar), Clayton Machado, acredita que o estouro da festa em Brasília é consequência do atraso no pagamento dos servidores. “Os restaurantes, por exemplo, ficaram às moscas. Então, não podemos dizer que houve um fluxo grande de pessoas de fora. A mesma coisa nos hotéis. O que podemos falar é que a cidade tem capacidade e muita para ter um Carnaval dez vezes maior do que esse”, ressalta.
Na avaliação do representante, a folia da capital é feita pela própria população. “A movimentação daqui foi de pessoas da cidade”, completa.
Dois lados
Na prática, as duas teorias encontram embasamento. Nas ruas da cidade, ao contrário do que aconteceu nos anos anteriores, turistas e brasilienses lotavam os pontos turísticos. Famílias que deixaram de viajar e receberam amigos e parentes.
“Meus pais moram aqui, então decidimos vir para o Carnaval”, conta o jovem Lucas Amaral, 23 anos, que estava acompanhado da namorada, Hana Pedrosa, de 18. Juntos, foram ao Galinho, bloquinho que surpreendeu a pernambucana.
“Achei a festa organizada e se compara aos bloquinhos de Recife e Olinda”, diz a estudante. Já Lucas, que mora no Rio de Janeiro, aponta que uma das vantagens do DF é estar fora do eixo das grandes folias. “Acho que ainda não é uma cidade que as pessoas mais agitadas buscam”, destaca.
Monumentos fechados
A empresária Kátia Veríssimo, de 53 anos, estava visitando a Catedral Metropolitana de Brasília, monumento que ficou fechado durante os dias de Carnaval. “Na segunda- feira, fomos a alguns locais de visitação e nos decepcionamos. A maioria estava fechado. Aí, tiramos fotos do lado de fora da Catedral, por exemplo, e voltamos hoje para entrar”, conta.
Carioca, ela veio à capital acompanhada do marido e dos netos. “Isso, com certeza, tem que mudar se Brasília quiser ser vista como uma cidade turística. Não dá para receber as pessoas com os principais monumentos fechados no feriado”, constata.
O secretário de Turismo, Jaime Recena, destaca, entretanto, que a alteração no horário de funcionamento de alguns pontos turísticos durante o período não depende só do GDF. De acordo com ele, determinados monumentos, como a Catedral, por exemplo, não são da ingerência do Buriti.
“Alguns locais, como a Torre de TV, que estava aberta, são administrados pelo GDF. A Catedral não é. Quem a gerencia é a Arquidiocese de Brasília, que definiu fechar o espaço durante os dias de Carnaval”, explica. Para melhorar esse quesito, salienta, é preciso uma gestão integrada, com todos os órgãos e empresas privadas que administram os espaços de visitação. “Aí, vamos poder oferecer um serviço melhor aos turistas”, completa.
Futuro
Sem arriscar mais detalhes, o secretário reconhece ainda que o Carnaval de Brasília tem espaço para melhorar e a intenção é fazer isso no próximo ano. Porém, a folia 2016 só começará a ser planejada após os resultados completos de todos os órgãos envolvidos na festa.
“Agora, nos organizamos da forma que dava. Acabamos de assumir o governo numa situação financeira complicada e apoiamos a festa do jeito que pudemos”, disse.
Modelo pode ser repetido
Neste ano, a justificativa para a ausência de suporte financeiro por parte do Governo do Distrito Federal (GDF) foi a crise nos cofres públicos. Por várias vezes, o atual governador Rodrigo Rollemberg afirmou que em 2016, tanto escolas de samba quanto bloquinhos contarão com o apoio econômico do Buriti. Desta vez, os 60 bloquinhos que se espalharam pela cidade deram conta do recado apenas com a ajuda de patrocinadores e doações. Por isso, tiveram de economizar nos contratos com bandas e sonorização. Ainda assim, não é descartada pela Secretaria de Turismo a possibilidade de outros carnavais bancados exclusivamente pela iniciativa privada.
“O mais importante deste Carnaval, eu acho, é o fato de não ter sido feito com dinheiro público. Só aí foram economizados mais de R$ 10 milhões em relação ao ano passado. E foi um sucesso. Acho que 2015 foi único e que tem tudo para ser o ponto de referência para o Carnaval do ano que vem e os próximos”, afirmou o subsecretário de Marketing e Eventos da Secretaria de Turismo, Sandro Cunha.
“Acredito que Brasília está se tornando um dos destinos do Carnaval do Brasil. E isso é um fato novo. E eu acredito que a vinda de turistas comprova que estamos no caminho certo”, avaliou Sandro Cunha.
Índices caem, mortes crescem
Ontem, foram apresentados os dados consolidados dos quatro dias de festa. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, foram mais de nove mil profissionais de segurança espalhados nas ruas do DF, com um total de 22 mil pessoas abordadas. A festa foi uma das menos violentas na história do DF.
Em relação aos acidentes, houve redução de 25%, caindo de 70, em 2014, para 52 este ano. O número de feridos também diminuiu: foram 41 este ano e 51 em 2014, uma redução de 20%. Na quantidade de mortes, contudo, ocorreu algo peculiar. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), foram 11 mortes nas rodovias que cortam o DF. Seis pessoas foram presas e 33 autuadas pela Lei Seca.
Queda
De acordo com a Secretaria de Segurança, ocorreu uma queda de 37,7% no número de crimes contra o patrimônio, que passaram de 448, em 2014, para 279. Os roubos em coletivos também diminuíram significativamente (60%), passando de 42 no ano passado para 17. Ao mesmo tempo, mais pessoas foram presas. Entre os adultos, houve acréscimo de 9,3%, saindo de 150 para 164. Também no mesmo período de 2014, 75 menores foram apreendidos. Agora, foram cem. Ou seja, 33,3% a mais. Nos locais de festa, 29 foliões foram roubados e ocorreram 34 furtos.
“Nós tivemos um Carnaval com um número de pessoas muito maior que normalmente tínhamos e, apesar disso, tivemos redução de ocorrências em praticamente todas as naturezas criminais”, salientou o secretário de Segurança Pública, Arthur Trindade.
Boa parte dos foliões que estiveram na festa comprova a veracidade das estatísticas. “Me senti muito seguro. A polícia daqui vê alguma briga e vai, protege quem está de fora”, afirma Danilo Andrade, de 27 anos. Ele e a namorada, Maria Jaqueline, de 21, ambos maranhenses, foram ao Bloco Raparigueiros e elogiaram a organização do evento.