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Brasília

Câncer de mama é a maior causa de morte entre as mulheres brasileiras

Arquivo Geral

09/03/2010 6h00

Mariana Laboissiére
Em 2010, são esperadas mais de 49 mil novas ocorrências de câncer de mama no Brasil, com risco estimado de 49 casos para cada 100 mil mulheres. Só no Distrito Federal, do começo do ano passado até os dez primeiros dias de setembro, a doença fez 92 vítimas, ficando à frente do câncer de colo de útero. Mas, apesar de ser considerado um câncer de bom prognóstico, trata-se da maior causa de morte entre as mulheres brasileiras, principalmente entre 40 e 69 anos, com mais de 11 mil mortes registradas no ano de 2007. 
O diagnóstico no início da doença é fundamental para garantir a sobrevida da paciente. Hoje a coordenadora Comercial Jucimara Santana Dias, 29 anos, sabe bem a importância disso. Foram precisos dois anos para que a jovem descobrisse que tinha câncer de mama em estágio avançado. “Eu me preparava para uma mamoplastia – redução de seios – quando recebi a notícia. O nódulo já estava palpável”, conta. Segundo ela, o apoio do marido foi primordial durante o tratamento. “A mulher está sujeita a dois caminhos quando se descobre nessa situação: perder a auto-estima ou fazer de tudo para não perdê-la. Eu apostei na segunda opção e hoje acredito estar curada”, expõe.
A mamografia é um exame de imagem essencial para a detecção precoce e para posterior tratamento do problema, no entanto, nem todos os hospitais públicos do Distrito Federal possuem equipamentos adequados para realizar o diagnóstico. Existem 11 mamógrafos em toda Rede Pública de Saúde, destes sete funcionam. De acordo com a Secretaria de Saúde, são oferecidas 329 vagas semanais para pacientes realizarem esse tipo de exame, mas a média de espera na fila pode chegar a dois meses.
A estudante Jéssica Raiane Freita Guedes, 17 anos, viveu na pele esse drama. Ela teve que esperar um ano até conseguir marcar uma cirurgia para retirada de um nódulo no seio direito. O presente veio ontem, em pleno Dia Internacional da Mulher. A mãe da garota, Maria Moura, 39 anos, conta que viveu dias de aflição enquanto aguardava. “Eu nunca imaginei que a minha filha poderia passar por isso, até tinha medo de que eu passasse, mas ela não”, explica. “Agora vamos aguardar o resultado da biópsia. Não sabemos se o susto passou”, completa.
A cirurgia de Jéssica foi possível graças ao Programa Fila Zero de Cirurgias de Mama promovido, no último sábado, pela Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Cerca de 80 mulheres que estavam à espera para cirurgias dessa natureza foram submetidas a avaliações para verificar a real necessidade da intervenção.  Até o final de março, todas as pacientes terão sido atendidas, passando também por mamografias e ecografias. Nove médicos radiologistas participam da ação.
Dados nacionais deste ano apontam que no Sistema Único de Saúde (SUS) e em clínicas privadas existam, ao todo, 3.877 mamógrafos. De acordo com o Ministério da Saúde, a quantidade é suficiente para atender a população, mas ainda é necessário melhorar o acesso das mulheres a esse procedimento.
O presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia Regional – DF, Antonio César Hummel, confirma que não há deficiência na oferta de equipamentos na Rede Pública. “Cada mamógrafo tem capacidade de realizar de 700 a 800 exames por mês, mas os dados recentes mostram que no DF esse índice é muito baixo. Os mamógrafos daqui fazem entre 220 a 240 exames”, explica. “O problema é falta de técnicos, radiologistas, além do acesso aos mastologistas e aos exames. O ideal seria que o paciente tivesse o resultado nas mãos após 10 dias da primeira consulta, mas não é isso que acontece. Em hospitais particulares a espera muito menor”, reitera.
Desde 2000, a mortalidade por câncer de mama vem aumentando anualmente no Brasil, alcançando cerca de cem óbitos anuais a cada 100 mil habitantes. Porém, a média no DF é de 50 casos por ano por 100 mil mulheres.  Hummel avalia que o índice esteja estável, no entanto, ele explica isso não quer dizer que a mortalidade diminuiu. “Falta um programa adequado que realize o registro de casos. Hoje não há um controle eficaz por parte da secretaria”, denuncia.
Segundo mais comum

O câncer de colo do útero é outro tipo recorrente entre as mulheres, sendo responsável pelo óbito de 230 mil mulheres por ano. O índice de novos casos esperados para 2010 é de 18.430, com um risco estimado de 18 ocorrências a cada 100 mil mulheres, mas no Brasil não existe um Programa Nacional de combate ao câncer ginecológico.
A presidente Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Distrito Federal (SGOB), Walquíria Primo, explica que, se descoberto precocemente e realizado tratamento adequado, a possibilidade de cura para o câncer de colo de útero é de quase 100%. Segundo ela, para que isso aconteça, a Secretaria de Saúde deve implantar um programa de rastreamento contínuo de pacientes. Além disso, é preciso divulgar e informar a população sobre a doença.
“Pelos dados que temos do Instituto Nacional do Câncer, o índice de mulheres com esse tipo de câncer está estável, mas isso não tira a obrigação do Estado em oferecer pessoal para realizar atendimento e, é claro, o exame Papa Nicolau. Aproximadamente 80% das mulheres sexualmente ativas deveriam ser atendidas”, explica a presidente.
Nos Estados Unidos, 90% das mulheres acima de 16 anos são rastreadas para câncer do trato genital, enquanto que no DF, esse número não passa de 25,3%. Walquíria afirma que para reverter o quadro é preciso realizar de campanhas de conscientização continuamente. “É necessário buscar essas pacientes, pois a luta é para diminuir a mortalidade. Deveria existir um programa linear no sentido de incentivar a mulher a procurar atendimento ginecológico próximo da sua casa, principalmente em postos de saúde “, justifica.
Saiba mais

Ao estabelecer que todas as mulheres têm direito à mamografia a partir dos 40 anos, a Lei 11.664/2008 que entrou em vigor em 29 de abril de 2009 reafirma o que já é estabelecido pelos princípios do SUS. Embora tenha suscitado interpretações divergentes, o texto não determina periodicidade para realização do exame, nem altera as recomendações de faixa etária para rastreamento de mulheres saudáveis.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que, entre maio de 2008 e abril de 2009, a maioria dos mamógrafos operantes em serviços públicos brasileiros foi subutilizada, isto é, teve baixa produtividade. Em apenas 5% desses locais (23 em 435) foram feitas 25 mamografias ou mais por dia, parâmetro considerado ideal pelos técnicos do tribunal. No País, a média de produção das máquinas foi de apenas 9,8 exames/dia.
No programa Mais Saúde, o governo brasileiro elegeu como meta ofertar, até 2011, mamografias a 60% das mulheres entre 50 e 69 anos, o que significaria 7 milhões de exames. No entanto, a pesquisa apontou que, mesmo descontando o conjunto de mulheres cobertas por planos de saúde, a produção atual da União, Estados e municípios deixa pelo menos 15% delas sem cobertura.

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