João Paulo Mariano
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O paladar do policial militar reformado Jeremias Rodrigues Neto, 58, é restrito. Ele só consegue identificar se os sabores são salgados, doces, apimentados e ácidos. O sentido não resistiu às agressivas sessões de quimioterapia e radioterapia, além da cirurgia para combater um tumor na faringe. Ele, como muitos, nem sabia da existência de câncer nessa região. Porém, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são 41 mil casos por ano no Brasil. Eles poderiam ser evitados com alguns cuidados.
Para falar mais sobre esse assunto, hoje, 27 de julho, é o Dia Mundial de Conscientização e Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço. A campanha Julho Verde busca divulgar mais o problema e dar às pessoas as armas necessárias para lutar contra a doença. Segundo especialistas, muitos só vão se tratar quando o estágio está avançado. Assim, a chance de sobrevivência gira em torno de 40% a 60%, além das sequelas.
É o que alerta a professora da Universidade de Brasília (UnB) Cristina Furia. “Cerca de 70% das pessoas chegam aos consultórios com estágio avançado. O problema é que os tumores ocupam estruturas vitais para respirar, mastigar, engolir e falar. Isso dificulta a vida do paciente”, afirma a oncologista.
Limitações
O policial Jeremias, por exemplo, se diz feliz por ter descoberto a doença rapidamente. Por isso, pôde reduzir as sequelas. Em muitos casos, quando o câncer atinge a laringe, a pessoa perde a fala. Se o tumor crescer em uma outra parte da cavidade bucal, o paciente pode perder o movimento da língua e ter dificuldade de se alimentar e até mesmo conversar.
Foi em maio de 2013 que Jeremias descobriu um caroço no pescoço. Ele juntou esse estranhamento com a coceira que sentia há meses na garganta e foi a um otorrinolaringologista. O médico, percebendo que havia algo estranho, pediu para que procurasse um oncologista, que descobriu o tumor.
A cirurgia ocorreu em setembro daquele mesmo ano. Logo vieram as sessões de rádio e de quimioterapia. A sequela mais grave foi a perda do paladar.
“Eu não consigo saborear um bife. Não sinto o gostinho da gordura. Sinto falta dos detalhes. É estranho ir a uma festa de Natal e não sentir o gosto daquelas coisas. Eu acabo comento na marra”, afirma. Jeremias emagreceu mais de 20 kg após o tratamento.
Incidência
De acordo com a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), no DF, entre os tumores do pescoço e da cabeça, a maior incidência para 2018 deve ser na cavidade oral, com 150 casos – 130 homens e 50 mulheres. Já outras 90 pessoas devem ter o tumor na laringe – 70 homens e 20 mulheres.
Como os dados mostram, é mais comum a incidência em pessoas do sexo masculino. O oncologista clínico do Instituto Oncovida, Nilson de Castro Correia, explica que, em geral, os paciente fumam e bebem com muita frequência, em especial bebidas destiladas, ou contraem HPV (papilomavírus humano) por meio do sexo sem preservativo.
Um estudo do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) apontou que 80% dos pacientes com câncer de cabeça e pescoço atendidos pelo hospital são tabagistas. Já aqueles que consomem álcool excessivamente são 50%. Desses pacientes analisados, 60% tinham entre 51 e 70 anos, sendo que problemas na boca e laringe eram os mais comuns.
Tratamento para não ficar em silêncio
A principal luta para muitos pacientes que passam pelo tratamento de câncer de cabeça e pescoço é não perder a vida ou a voz. Em especial, para aqueles que têm tumor na região da laringe, pois é onde estão as cordas vocais. Segundo Ministério da Saúde, há 6 mil pessoas que passam pelo problema no Brasil.
Se o tratamento obriga o paciente a retirar a laringe, a alternativa é implantar um aparelho que a substitui e reproduz a voz, mesmo que mais metálica. Contudo, o Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece o aparelho, que custa cerca de R$ 1 mil e nem todo paciente tem condições de pagar.
Legislação
A Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) e a associação de pacientes que tiveram os tumores se juntaram e entraram na luta para modificar a lei e fazer com que a laringe eletrônica seja obtive pelo sistema público. O integrante da SBCCP, Antônio Bertelli, elucida que a situação é analisada na Câmara dos Deputados, mas ainda não foi apreciada em plenário. A esperança é que, com a mudança na lei, menos pessoas fiquem silenciadas.
Ele espera que com a campanha do Julho Verde mais pessoas saibam do assunto e busquem tratamento o mais rápido possível na rede pública ou privada.

Saiba Mais
A Secretaria de Saúde do DF afirma que as pessoas que precisarem de tratamento destes tumores podem procurar as unidades da pasta. A porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde, que após consulta e avaliação, fará o devido encaminhamento ao ambulatório especializado para a demanda.
Atualmente, o Hospital Regional de Taguatinga, Instituto Hospital de Base e Hospital Universitário de Brasília possuem atendimento em oncologia e quimioterapia. Em casos que necessitem de radioterapia, o tratamento é feito no Instituto Hospital de Base, Hospital Universitário de Brasília e unidades contratadas (Sírio Libanês, Instituto de Radioterapia de Taguatinga e Santa Lúcia).
Em casos de indicação cirúrgica, o procedimento é feito no Hospital de Base.