Mesmo cercado por uma paisagem essencialmente urbana e com pouco espaço para ampliar suas lavouras, o Distrito Federal encerrou 2025 com avanço da produção agrícola. As principais culturas locais alcançaram R$ 1,88 bilhão em valor de produção, crescimento nominal de 16,2% em relação ao ano anterior. Soja, milho e feijão concentraram cerca de 64,4% desse total, segundo a Produção Agrícola Municipal (PAM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado, no entanto, exige uma distinção importante. O chamado valor da produção não corresponde ao lucro dos agricultores nem ao dinheiro investido para plantar. O indicador é uma estimativa obtida a partir da quantidade produzida e do preço pelo qual aquela produção foi avaliada na época da colheita. Assim, ele mostra o valor econômico gerado pela atividade agrícola, mas não permite saber, sozinho, quanto sobrou no bolso do produtor depois dos gastos com a lavoura. O que a pesquisa permite observar é que, em 2025, o campo brasiliense conseguiu colher mais, e que esse avanço não ocorreu apenas pela abertura de novas áreas.
A área plantada com as culturas (produto agrícola que é cultivado) acompanhadas pela pesquisa chegou a 195,8 mil hectares, 6,1 mil hectares a mais que em 2024. O crescimento foi de 3,2% e manteve uma sequência de quatro anos de expansão. Ainda assim, segundo Elton Mendes, servidor do IBGE que trabalha com pesquisas agropecuárias, o principal responsável pelo aumento da produção não foi o avanço da área ocupada pelas lavouras, mas a melhora da produtividade, especialmente de soja e milho.
Na prática, produtividade significa fazer cada hectare de terra render mais. Enquanto a quantidade produzida representa o volume total colhido, a produtividade mede quanto uma cultura entrega, em média, por hectare plantado. No DF, por exemplo, a soja tem média histórica de 3,6 mil quilos, ou 60 sacas, por hectare. No sorgo de segunda safra, são cerca de 4,2 mil quilos, ou 70 sacas, por hectare.
Em 2025, o milho liderou em volume, com 423,5 mil toneladas, seguido pela soja, com 328,9 mil, e pelo sorgo, com 96,6 mil toneladas. O feijão chegou a 41,9 mil toneladas. A capital também se destacou nacionalmente: teve a quinta maior quantidade produzida de sorgo e a sétima de feijão entre os municípios brasileiros produtores.
Bilhões que saem do campo
Quando a produção é convertida em valor, a soja aparece na frente. A cultura gerou R$ 639,9 milhões em 2025. O milho alcançou R$ 430,5 milhões e o feijão, R$ 140 milhões. Juntas, as três culturas responderam por 71,2% do valor das lavouras temporárias pesquisadas no DF. Tomate, sorgo e morango também tiveram participação relevante, com R$ 105 milhões, R$ 88,5 milhões e R$ 69,8 milhões, respectivamente.
Os números mostram também que produzir mais não significa, necessariamente, aumentar o valor de todas as culturas na mesma proporção. O valor da produção do milho avançou 71,7% em relação a 2024 e o da soja cresceu 11%. Já o feijão seguiu na direção contrária e apresentou queda de 35,1%.
Essa diferença ocorre porque o indicador depende não somente do volume colhido, mas também do preço atribuído ao produto. Há culturas que alcançam grandes valores pelo enorme volume produzido, como soja, milho e sorgo. Outras ocupam áreas menores e produzem volumes mais modestos, mas têm maior valor individual, caso do café, do morango e das frutas.
É justamente aí que a agricultura brasiliense mostra outra face.
Do grão à xícara
Entre as lavouras permanentes, o café ocupou a maior área destinada à colheita no DF em 2025, com 417 hectares, à frente da goiaba, com 373 hectares, e do abacate, com 317. Em valor de produção, a goiaba liderou, com R$ 37,1 milhões, seguida pelo café, com R$ 33,3 milhões, pelo abacate, com R$ 27,8 milhões, e pela banana, com R$ 22 milhões. As quatro culturas responderam por 66,1% do valor das lavouras permanentes pesquisadas na capital.
O crescimento da cafeicultura pode ser visto na trajetória do Café Minelis. A produção começou em 2003, quando a propriedade tinha apenas um hectare de café. No ano seguinte, eram cinco. Em 2008, a área chegou a 20 hectares e, atualmente, passa de 100 hectares plantados. Segundo Cláudio Coutinho, sócio do empreendimento, a presença de novos produtores e a procura por cafés especiais da região ganharam força principalmente na última década.

A história começou em pequena escala e foi construída com tentativa, estudo e experimentação. Em 2013, a participação da propriedade em seu primeiro concurso nacional de qualidade mudou a percepção da família sobre aquilo que saía das lavouras brasilienses. “Ali nós entendemos que tínhamos algo especial nas mãos”, conta Coutinho.
O clima do DF, segundo ele, reúne duas características favoráveis ao café: altitude e tempo seco durante a colheita. O desafio aparece na florada, quando falta água e a irrigação se torna necessária. A combinação de condições naturais, estudo e dedicação ajudou a propriedade a conquistar dois prêmios nacionais, reconhecimentos que, segundo Coutinho, deram segurança para continuar crescendo.
Mas produzir café exige paciência. Uma área recém-plantada demanda fertilização, irrigação e cuidados especiais por pelo menos quatro anos antes de começar a produzir. Por isso, a propriedade não pretende ampliar a área neste ano, após ter feito expansão no ano passado.
Para enfrentar também as oscilações de preço, a família passou a ir além da lavoura. Criou uma microtorrefação para torrar e distribuir o próprio café e, depois dos prêmios, abriu espaço para o turismo rural. Segundo Coutinho, verticalizar a produção permite trabalhar melhor as margens do negócio nos períodos de dificuldade, enquanto as visitas à propriedade surgiram da procura do próprio público depois da maior visibilidade conquistada pelo café.
Uma potência dentro da cidade
A diversidade ajuda a explicar uma característica peculiar do campo brasiliense. Apesar da pequena extensão territorial quando comparada à de estados agrícolas, Brasília aparece em posições relevantes quando os dados são observados no nível municipal.
Em 2025, a capital registrou o terceiro maior valor de produção de sorgo e o sexto maior de feijão entre os municípios produtores do país. Também apareceu em oitavo lugar no alho, 14º no morango e 17º no tomate.
Nas frutas, foram colhidas 10,1 mil toneladas de goiaba e 6,5 mil toneladas de abacate. Brasília teve a 13ª maior produção municipal de goiaba e a 16ª de abacate no país.
Para Elton Mendes, embora a pequena área faça com que o DF tenha pouco peso quando comparado aos estados, a leitura muda quando Brasília é colocada lado a lado com outros municípios. A capital está entre os 120 maiores produtores de soja do país e, ao lado de Campo Grande, é um dos dois únicos municípios com mais de 500 mil habitantes nesse grupo. Também se destaca em culturas como feijão, sorgo, trigo, alho e morango.
É uma Brasília que nem sempre aparece para quem atravessa diariamente suas avenidas e áreas urbanas. Para o servidor do IBGE, a capital não é apenas um grande centro urbano: tornou-se também “um grande polo agroindustrial”.