Laura Quariguazy
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Diego Coelho não anda, mas voa. E como! O atleta de crossfit, que é cadeirante desde 2011, foi convidado para vir a Brasília pela empresa iFly para participar de uma experiência única. Com a ajuda de instrutores, entrou no túnel que projeta ventos a mais de 200 km por hora e pôde simular o voo, flutuando. A intenção da empresa ao chamar o atleta é disseminar a ideia da superação de limites.
Segundo Glauber Jackson, instrutor de voo, a liberdade de movimentação depende do nível de estabilidade de cada pessoa dentro do túnel. No caso de Diego, há um nível alto na parte superior do corpo por causa da prática de exercícios físicos, mas não na parte inferior, devido à lesão medular.
“Imagine pôr a mão para fora do carro em alta velocidade. Se você fica com a mão solta, ela chacoalha com força e sem controle, e você tem de firmar para não balançar tanto. É justamente esse controle que Diego não tem nas pernas. Então, vamos ser ‘cintos de segurança’ para que esteja sustentado”, conta.
A participação de Diego deu mais do que certo. Ele diz que a experiência foi incomum: “Entrar na cabine foi excepcional porque a cadeira já se tornou parte do meu corpo. E lá dentro era só eu, livre, sem ela”. Ele voou de forma estável, fechou os olhos e emocionou a todos os presentes.
Do acidente à cirurgia
Diego, hoje aos 31 anos, perdeu os movimentos em 2011, após uma cirurgia necessária devido a um acidente de trânsito. O paulista começa a história explicando como correu atrás da felicidade para ficar com Suzi, de quem está noivo. Ele conheceu a amada brasiliense na China, onde ambos estudavam. Na volta do intercâmbio, e já apaixonado, Diego veio a Brasília e pediu Suzi em namoro. Em 29 de outubro de 2011, o relacionamento engatou. No dia seguinte, um acidente virou todas as peças no tabuleiro.
Saindo do almoço de aniversário da avó de Diego, o carro que ele dirigia foi fechado por um motociclista. O veículo bateu de frente com outro carro, a três minutos de casa. Apesar da gravidade do choque, ele saiu do acidente andando, mas Suzi sofreu fraturas. O atleta ficou no hospital em observação, porque sentia dores na região do peito.
Coma
Os médicos pretendiam liberá-lo dois dias depois, no mesmo dia que Suzi foi para casa. Porém, Diego entrou em coma. Havia sangue nos pulmões. Ele foi encaminhado às pressas para cirurgia de drenagem, com 20% de chance de sobrevivência. No procedimento, foi descoberto outro problema: o esgarçamento da aorta. Seria preciso colocar uma prótese cardíaca, que deveria ser feita por cateter na virilha, pois, se fosse de peito aberto, Diego morreria pela falta de tempo.
Esperança
A lição de Diego Coelho não precisa de complementos: “É difícil estar na cadeira? É. Mas ela melhorou muito a minha vida. Se hoje sou um atleta, é por causa dessa cadeira”, resume.
Com sua história ilustrada pela experiência de voar no túnel da iFly, ele deixa o recado de que “independentemente de você estar com uma lesão na medula ou em pé, tudo o que você quiser fazer, você é capaz, só depende de você”. E completa: “O legal da iFly é a sensação de poder voar, de superar mais um limite. A minha próxima etapa, com certeza, é saltar de paraquedas!”.
Perguntado sobre sua forma de lidar com as atuais limitações, ele não deixa espaço para aparências de um mundo perfeito. “O primeiro ano foi bem difícil, muito difícil. Mas o tempo foi passando e foi ficando mais tranquilo. Hoje, eu lido bem melhor com a situação”.
Do susto à certeza da recuperação
Durante a cirurgia, Diego sofreu três paradas cardiorrespiratórias, e, depois, foram mais dez dias em coma. “Acordei amarrado. Agitado, chamei as enfermeiras. Já não me lembrava de mais nada. Assim que saí da UTI, recebi a notícia de que tinha sido lesado medular na cirurgia”, conta ele.
Na colocação da prótese, foi interrompido o funcionamento da artéria de Adamkiewics, que irriga a medula. “Médicos já me disseram que eu nunca mais ficaria em pé, nunca mais ia andar, nunca mais ficaria sentado sem nenhum tipo de encosto”, relembra.
A partir do diagnóstico, começou a luta pela reabilitação. Ele chegou a fazer 11 fisioterapias semanais, e aos poucos foi recuperando o controle de tronco. Nos dois primeiros anos pós cirurgia, engordou bastante, chegando a pesar 130kg, mas tomou uma decisão radical e deu a volta por cima. “Fiz uma cirurgia bariátrica há dois anos e comecei a treinar, inicialmente apenas musculação. Há seis meses estou no crossfit, emagreci muito”, afirma.
A carreira como atleta começou com um convite descompromissado. “Primeiro, o esporte foi apenas para auxílio da fisioterapia. Mas, em menos de um ano, fui convidado a participar de eventos e acabei tomando gosto pela prática”.
O atleta conquistou importantes títulos. Ele não perde a fé na melhora, e explica, seguro, como pretende reverter o quadro: “Não é uma questão de se eu vou voltar a andar, mas de quando eu vou. Pode demorar o tempo que for: cinco, 10, 20 anos, um dia vai acontecer”.
Saiba mais
O túnel de vento é uma modalidade desportiva, o body flight, que segue normas e tem competições pelo mundo. Segundo o instrutor Glauber Jackson, a luta dos praticantes é para transformá-lo em um esporte olímpico, uma vez que existem mais de 50 túneis de vento espalhados pelo planeta.
A iniciativa é encabeçada pela Federação Internacional do Aerodesporto.
A iFly Brasília é uma empresa de InDoor Skydiving que funciona no Setor de Clubes Sul. Duas sessões de voo para uma pessoa saem por R$ 249, valor que diminui quanto mais se retorna ao túnel de voo.