
Se não tivesse se acidentado “naquele buracão”, Antônio Soares, hoje com 53 anos, não estaria em cadeira de rodas, com os movimentos limitados. Em 1992, enquanto retornava de Palmas (TO) para o DF, caiu em uma cavidade no meio da estrada, perdeu o controle do carro e capotou seguidas vezes. A coluna foi estraçalhada, a carreira de pintor interrompida e sua vida, por pouco, não acabou ali.
A situação é um exemplo extremo, mas um indicativo de como ruas esburacadas e mal conservadas podem representar risco aos motoristas. O JBr. flagrou diversas imperfeições graves nas pistas da capital, inclusive em locais por onde passou o programa Asfalto Novo, interrompido em novembro, antes do fim da terceira etapa.


Foram quase R$ 450 milhões investidos desde junho de 2013, mas os efeitos do recapeamento sumiram em alguns pontos. De acordo com a Novacap, 872 km foram reformados e outros dois mil ainda estariam por ser incluídos. Para o usuário, no entanto, pouca coisa mudou.
DPVAT


Antônio, hoje cadeirante, lembra que na época chegou a
receber o seguro DPVAT. “O valor foi uma mixaria e desde então tive que me virar”, recorda-se. Desde então, passou a militar por pessoas com deficiência e criou a Apodefitins, associação beneficente de Palmas (TO), onde mora atualmente. Ele veio a Brasília neste fim de semana tanto para arrecadar fundos para comprar novos equipamentos quanto para ajudar a transportar dois associados de volta a Tocantins.
Curiosamente, havia um buraco ao lado do quebra-molas onde ele pedia contribuição dos motoristas, na pista do trilho do trem entre o Núcleo Bandeirante e o Guará, na saída da Colônia Agrícola Bernardo Sayão.
No início da manhã, quando chegou ao local com amigos, os carros desviavam de uma “cratera” na faixa da direita e quase o atropelaram por diversas vezes. Isso motivou que ele sinalizasse o buraco, diminuindo os riscos. “É só para as pessoas não jogarem os carros contra nós”, diz.
Problema independe de condição social
Os buracos no asfalto podem ser encontrados tanto em áreas menos favorecidas, passando por locais de classe média e chegando a regiões com população de alto poder aquisitivo. Em Planaltina, moradores colocaram um sofá dentro de uma abertura enorme, na entrada da cidade. Em Taguatinga, na entrada da pista principal do centro, em frente à Quadra C12, a cratera obriga a redução quase completa de velocidade, fazendo as vezes de lombada às avessas.
Nas áreas de maior poder econômico, como o Park Way, nas proximidades do aeroporto, por exemplo, os buracos surgem principalmente nas vias paralelas de acesso aos condomínios, atrás do Núcleo Bandeirante, outra cidade que sofre com o problema.
O motorista prejudicado pela irregularidade na pista pode ser ressarcido pelo Estado com base na Constituição Federal e Código de Trânsito Brasileiro, legislações que dispõem sobre a obrigação governamental de fazer a manutenção das vias acessadas pelos cidadãos.
“Mora aqui há mais tempo que eu”
O fotógrafo Fernando Lima, de 29 anos, mora em Águas Claras há dois anos e garante conhecer um habitante inusitado que vive ali há bem mais tempo: o buraco em frente à Rua 8 Sul, na Avenida Araucárias. “Deve ser fruto de alguma infiltração gerada pela obra da frente. Cobrem ele de tempos em tempos, mas com a chuva ele sempre volta”, reclama.
O sogro de Fernando já teria tido prejuízos na ordem de R$ 2 mil para arrumar o carro após passar pelo local. “Há falta de zelo total com a cidade. Todo mundo reclama na ouvidoria da administração regional, mas não adianta nada. Com a transição de governo, Águas Claras está largada às traças”, exalta-se. Para o fotógrafo, a situação é grave nas pistas de toda a região.
“Até andando por aí você vê que o asfalto é irregular, mal feito. Em frente à igreja já colocaram sinalização para alertar os motoristas, e mais para baixo na avenida tem sempre algum problema. Está um caos”, revolta-se. A cidade recebeu o programa Asfalto Novo em janeiro deste ano. Foi prometida pelo GDF a recuperação completa da pavimentação das duas principais avenidas, Castanheiras e Araucárias. Em menos de um ano, há necessidade de novo serviço.
Resultado
Morador de Samambaia, Leandro Araújo, auxiliar de serviços gerais de 28 anos, afirma andar com a roda “meio troncha” há quase um ano, após passar inadvertidamente por um buraco próximo de sua casa. “Estava chovendo bastante e a água encobriu a cratera. Passei direto, senti o baque e percebi o carro estranho. Só depois que vi o estrago”, conta.
Ele acredita se tratar de um problema de gestão, de maneira geral, pois Leandro conta ter verificado a mesma situação em Taguatinga e em Ceilândia. “Falta interesse político em resolver a questão. Os administradores, principalmente, moram nos locais, passam por lá todo dia e ainda assim não se mexem para resolver os problemas. Como pode?”, esbraveja.
A reportagem procurou ontem a Novacap e a assessoria do GDF, mas não conseguiu contato.
Oficina mecânica como destino
De acordo com o mecânico e dono da Piloto Auto-Centro, no Guará II, Dirceu Ferreira de Sousa, de 41 anos, as falhas no asfalto levam muitos clientes a procurar seus serviços de manutenção. “Os casos que eu mais vejo por aqui são rodas empenadas, pneus rasgados e problemas de suspensão em geral”, enumera.
Ele próprio foi vítima da má conservação das vias. Recentemente, precisou trocar a roda da camionete após pegar um buraco transformado em “lagoa” pela ação das chuvas. “É uma despesa inesperada para o cidadão e o tipo de coisa que pode atrapalhar uma viagem de família”, critica Dirceu.
O mecânico estima que o prejuízo médio dos clientes vítimas das falhas na pista esteja entre R$ 400 e R$ 700, mas podendo ultrapassar bastante esse valor, a depender do tipo de peça avariada e do modelo do veículo afetado.