Jéssica Antunes
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Muros altos, cercas elétricas, alarmes e câmeras de segurança não são mais suficientes para inibir a ação de criminosos em residências no Distrito Federal. Uma aposta para dificultar o acesso de visitas nada bem-vindas pode ser a blindagem de portas, janelas e até a construção de passagem secreta. A capital registra um crescimento anual médio de 15% no setor, e o Distrito Federal está entre os dez que mais recebem o serviço. Gastos vão de R$ 2 mil a R$ 2 milhões.
O receio não é por menos. No ano passado, ações de bandidos fizeram 684 famílias vítimas dentro de suas próprias casas, representando crescimento de 17,5%. E 2016 chegou para corroborar com esse aumento. Dados da Secretaria de Segurança apontam que, em média, duas casas são roubadas por dia no DF. Houve 266 casos de janeiro a março, 50,3% a mais que nos mesmos meses do ano passado.
Para evitar os crimes, há sensores que detectam movimento, passagens secretas que levam a um quarto oculto, portas, janelas e paredes revestidas com chapa de aço que pode suportar tiros de fuzil. O uso dessas tecnologias pode ampliar a sensação de segurança por dificultar o acesso à residência e por proteger os moradores caso a invasão ocorra.
Setor em crescimento
“Tudo o que é relacionado à segurança teve aumento de procura”, afirma Rogério Garrubbo, presidente da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin). Comparado ao mercado de blindagem de automóveis, o nicho residencial ainda engatinha, mas apresenta crescimento considerável.
Empresas do segmento em todo o País estimam que, nos últimos seis anos, a procura por proteção em casas tenha aumentado mais de 30%. Segundo a Abrablin, as empresas certificadas pelo Exército Brasileiro para instalar materiais resistentes a tiros e arrombamento em residências trabalham com uma média de 500 portas por mês.
Nacional
Felipe Masetti, considerado um dos empresários líderes do setor de blindagem arquitetônica, diz que o aumento da procura é um fenômeno nacional em virtude da violência.
“O crime se sofisticou e, consequentemente, tem que ter proteção contra esse nível de ataque, mas nem todo mundo precisa disso. A blindagem envolve uma análise de risco feita por consultoras de segurança especializada”, explica.
Ponto de vista
Na avaliação do especialista em segurança pública Nelson Gonçalves Souza, sem segurança humana, o investimento em segurança física não adianta. “Os indivíduos aproveitam a fragilidade da residência. Se houver falha física no perímetro residencial, isso será um fator de oportunidade, assim como a falta de atenção. Uma vez dentro da residência, ninguém sabe o que acontece lá”, alerta.
Por isso, ele crê que o nível de atenção tem que ser superior ao de outros tempos: “A recomendação é maior atenção ao se aproximar de casa, observar se está sendo seguido. Isso não é paranoia!”. Para ele, a polícia só resolveria o problema se houvesse um para cada habitante. “Isso é utopia”, assegura.
De prédios do governo a particulares
O usual é que a blindagem seja feita em guaritas, como ocorre em prédios governamentais como o Palácio do Planalto, mas, no DF, o serviço já se estende a prédios e casas. Na capital, há apenas uma empresa especializada autorizada a funcionar.
Anilzio Júnior, proprietário da Safety Car, trabalha na área há mais de 20 anos. “A procura aumenta em uma proporção assustadora de uns 15% ao ano. Em 2015, a média de serviços foi de dois a três por mês e, no ano, anterior muito menor”, contabiliza.
A loja na Cidade do Automóvel funciona desde 2006. De acordo com Anilzio Júnior, os clientes são pessoas que, geralmente, já sofreram um atentado e passaram por um trauma. Seu nicho, comenta, é amplo.
“Desde um alto executivo até uma pessoa de classe média que quer uma simples porta blindada em um cômodo da casa”, detalha. Anilzio garante que acontece tanto em regiões do lago quanto em Ceilândia.
Custo varia pelo nível de proteção
A blindagem arquitetônica tem caráter mais exclusivo pelos valores serem altos, explica o Rogério Garrubbo, presidente da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin): “A pessoa tem que se sentir ameaçada e ter como arcar com o custo elevado. São usados materiais de alta tecnologia, de difícil fabricação, instalação e transporte”.
Os custos variam de acordo com o nível de proteção, que vai desde o antiarrombamento até a proteção contra balas de fuzil, com o tamanho da porta ou janela e com o tipo de material e acabamento. Em uma pesquisa entre empresas de todo o País, o JBr. descobriu que, para proteger uma janela simples de balas como a .40 e calibre 38, é preciso desembolsar a partir de R$ 2 mil por metro quadrado. Uma porta sai por, pelo menos, R$ 4 mil.
No DF, o empresário Anilzio Júnior diz não ser possível determinar uma média. “Influencia o metro quadrado, o tipo de material usado na esquadria e sua mobilidade, mas o preço não varia de acordo com o local de moradia”, assegura.
Apesar do investimento, ele lembra que “não tem como garantir que a pessoa será ou não assaltada”. Isso porque considera que a segurança não é obtida com um único item, mas um sistema: “Começa da atitude da própria pessoa. Não adianta blindar um carro e andar com a janela aberta, por exemplo. É uma falsa sensação de segurança”.
Exército tem que autorizar
Apenas empresas autorizadas pelo Exército podem trabalhar com blindagem. Antes de fazer o serviço, é preciso conferir Certificado de Registro (CR), Título de Registro (TR) e Relatório Técnico Experimental (ReTEx) do fabricante. Todos são emitidos pelas Forças Armadas e garantem que os produtos foram ou não aprovados após testes.
“O mercado não é fechado e não depende de concessão, mas de financiamento. O serviço demanda conhecimento de alta engenharia e não há obrigatoriedade do diploma”, explica Garrubbo.
Moradores a favor e contra o serviço
O Exército informou que a fiscalização dos serviços de blindagem é feita por vistorias agendadas ou imprevistas do Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados da 11ª Região Militar ou do Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados das diferentes Organizações Militares (SFPC/OM) e por um sistema de controle on-line.
Ao mesmo tempo em que aparenta ser um sistema de segurança eficiente, parte da população tem um pé atrás quanto ao excesso de proteção. “Não adianta ficar cada vez mais dentro de uma bolha”, pensa a professora Márcia Filgueiras, 54 anos.
Moradora da Asa Sul, ela conta com sistema de câmeras, grades e cachorro. Quando chega na rua, dá uma volta antes de acessar a residência. “A blindagem seria uma opção, mas é remediar um problema mais grave no sistema penitenciário e na falta de projetos eficazes de educação. Não sou a favor de nos trancarmos em casa”, opina.
Para a fisioterapeuta Vanessa Caixeta, 32 anos, a blindagem ainda não é uma opção. Ela mora em um condomínio fechado em Vicente Pires, onde mantém ativo alarme na casa. “O custo é alto. Pode ser que, no futuro, seja algo mais acessível e comum. O problema é que muitos roubos e furtos acontecem com a pessoa surpreendida fora de casa”, analisa.
Saiba mais
O caso mais emblemático de blindagem que o empresário Anilzio Júnior se lembra é o de fornecer o serviço em um andar inteiro, há cerca de quatro anos.
Ele conta que o cliente estava construindo uma casa quando foi assaltado em um apartamento. Se sentindo ainda mais vulnerável, decidiu proteger um andar inteiro, cem metros quadrados de construção. O serviço de blindagem de portas e janelas custou, na época, R$ 250 mil.