Menu
Brasília

Brasilienses mostram alternativas para enfrentar o trânsito

Arquivo Geral

08/06/2009 0h00

 


Um dos principais pontos defendidos pelo arquiteto Lúcio Costa, salve quando projetou a capital Federal, online era a facilidade no fluxo de trânsito, advice devido às largas avenidas desenhadas e a ausência de cruzamentos nas vias. Mas depois de 49 anos da construção de Brasília, o cenário é completamente diferente: a frota de veículos no Distrito Federal dobrou nos últimos dez anos. Ao todo, são mais de 1 milhão e 86 mil, o que dá quase um carro para cada dois habitantes. O resultado? Intermináveis engarrafamentos nos horários de pico. Percorrer qualquer quilômetro pelas vias da cidade se tornou uma aventura, independentemente do meio de transporte escolhido.


Para fazer um raio X dos principais problemas de trânsito no DF, a equipe do Jornal de Brasília reuniu quatro brasilienses. Cada um utiliza um meio de transporte diferente para ir ao trabalho: patins, bicicleta, carro e ônibus. Eles saíram juntos, para seguir o mesmo trajeto. O resultado final foi surpreendente. Seja qual for o transporte escolhido, o brasiliense enfrenta inúmeros problemas para trafegar na cidade.


O personal trainer Guto Ziller, o estudante Marcus Lacerda, o consultor em Turismo André Santoro e o consultor imobiliário Thiago Alves aceitaram o desafio de saírem, às 13h45, horário de pico no trânsito, em meios de transportes diferentes, da Quadra 104 do Sudoeste até o Ministério dos Transportes. Ao todo, eram nove quilômetros (veja infografia e diário de bordo na página 5). Parece pouco, mas em horários de grande movimento de carros, qualquer distância se torna interminável.


Raio-X
Dada a “largada”, cada um procurou um caminho alternativo. Não se tratava de uma aposta, ou uma corrida. Mas, sim, de um pequeno diagnóstico sobre a atual situação do trânsito. Enquanto o patinador e o ciclista procuraram vias alternativas, pela ausência de ciclovias, o motorista enfrentava o primeiro engarrafamento na principal via do Sudoeste. O usuário de ônibus, por outro lado, foi até a parada esperar o transporte público.


Em 16 minutos, Guto Ziller, de patins, foi o primeiro a chegar ao Ministério, seguido, por poucos segundos, pelo ciclista Thiago Alves. Quase dez minutos depois, foi a vez do motorista André Santoro, que perdeu quase cinco minutos à procura de uma vaga para estacionar seu carro. Após uma hora de viagem, o usuário de ônibus Marcus Lacerda se juntou ao restante e chegou ao destino final. “Seria melhor se viesse a pé. Com certeza, chegaria mais rápido e economizaria dinheiro”, lamentou Marcus.


O resultado não espantou o professor de Engenharia de Tráfego da Universidade de Brasília, Paulo César Marques. O excesso de carros nas ruas acaba prejudicando os usuários de transporte público. “O sistema está mal gerido. O itinerário dos ônibus é muito longo para poder compensar o gasto. Eles não têm uma faixa exclusiva. O passageiro acaba sujeito ao engarrafamento”, afirma Marques.


Outro problema é a falta de consciência dos motoristas em respeitar os veículos menores. “Lugar de bicicleta é na rua, junto com outros veículos. Os motoristas não costumam ver bicicletas e patins como meios de transporte”. As ciclovias, segundo ele, são necessárias somente em caso de vias com velocidade alta, para dar segurança aos ciclistas.







  Diário de bordo dos aventureiros
PATINS
Há 15 anos, o personal trainer Guto Ziller, 33 anos, adotou o patins como seu principal meio de transporte. Ele sai todo dia de casa, no Setor Octogonal, e patina até a Academia Body Tech, onde trabalha, no Setor de Clubes Sul. São mais de 50 Km diários. “Ir de carro? Para quê? De carro cansa. É muito trânsito e estresse”. Guto já sofreu três acidentes nas vias do DF. Segundo ele, o desrespeito dos motoristas e a falta de ciclovias são as principais ameaças. “Os motoristas não encaram os patins como um meio de transporte”. Na opinião dele, os motoristas que menos respeitam são os homens, principalmente os taxistas e motoqueiros. Para se prevenir no trânsito, usa uma lanterna nos patins e outra no capacete. Certa vez, viajou de Brasília a Goiânia patinando. Os 210 km foram percorridos em 12 horas diretas de viagem. A próxima meta do atleta é ir de Brasília a Belo Horizonte.
Resultado final do trajeto: 16 minutos e 31 segundos
Velocidade média: 33 Km/h

ÔNIBUS
O estudante da Universidade de Brasília Marcus Lacerda, 27 anos, adotou os seus próprios pés como meio de transporte. Mas quando a distância é um pouco mais longa, não tem jeito: usa o serviço de transporte público. “Acho desnecessário comprar um carro em Brasília. As pessoas estão mal acostumadas. Só fazem as coisas de carro”. Durante o trajeto, Marcus esperou 22 minutos, debaixo de um sol forte, pela chegada do primeiro ônibus, no Sudoeste. Depois de 20 minutos, chegou à Rodoviária do Plano Piloto para trocar de ônibus. Na segunda viagem, levou mais 20 minutos até chegar ao Ministério dos Transportes, um tempo bastante longo para um trajeto tão curto, mas sujeito a congestionamentos, especialmente nos horários de maior movimento. “Ainda bem que tenho meu aparelho de MP3 para escutar músicas. É o que me faz companhia quando preciso esperar”, ressaltou.
Resultado final do trajeto: 1 hora e 18 segundos
Velocidade média: 9 Km/h


BICICLETA
O consultor imobiliário Thiago Alves, 29 anos, anda de bicicleta desde os 14 anos. Para ele, usar o carro é uma raridade. “Só serve para sair com a namorada”, brinca. Para todo canto, o “camelo” é seu meio de transporte favorito. O principal problema no trânsito de
Brasília, segundo ele, é a falta de sinalização dos motoristas. “Eles não sinalizam para nada. Não entendem que seta não é uma opção de fábrica”, afirma. Para enfrentar o trânsito, Thiago fez alguns reparos na bicicleta. O modelo 84 da Caloi foi quase todo reconstruído. O guidom, mais alto, deixa a coluna reta e evita batida nos espelhos retrovisores dos carros. As rodas são soldadas, para não serem roubadas. “Prendo o camelo num poste com cadeado. Como é um modelo velho, ninguém quer roubar” explica. No trajeto, Thiago preferiu cortar caminho pelo Parque da Cidade. O maior problema foi passar pela pista da Rodoviária, onde os motoristas não sinalizam.
Resultado final do trajeto: 16 minutos e 48 segundos
Velocidade média: 33 km/h


CARRO
Desde que tirou carteira, o consultor em Turismo André Santoro, 22 anos, só anda de carro. Em média, são 90 km por dia, entre idas ao trabalho e faculdade. Enfrentar o trânsito nos horários de pico é o maior problema. “Já gastei mais de uma hora subindo o Setor Comercial Sul, em direção ao Setor Hoteleiro. Além do engarrafamento, faltam vagas. A gente acaba deixando com os flanelinhas. Caso contrário, eles riscam o carro”, reclama. André estava confiante que, de carro, chegaria primeiro. No entanto, encontrou inúmeros problemas na principal via do Sudoeste: muitos balões e faixas de pedestre impediam que o carro ultrapassasse os 50 km/h . Quando conseguiu chegar ao Ministério dos Transportes, o problema foi achar vagas. “O jeito foi colocar o carro em uma baliza improvisada, uma vaga que não existia.”
Resultado final do trajeto: 25 minutos e 17 segundos
Velocidade média: 21 km/h


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 





Governo busca opções
Para o especialista em trânsito Paulo César Marques, o excesso de carros nas ruas, além de dificultar a fluidez do trânsito, contribui para a falta de estacionamento. Segundo ele, às vezes a viagem de carro não é longa, mas o tempo que se gasta para achar uma vaga faz com que o
motorista demore mais tempo dentro do estacionamento do que fora.

Na opinião do especialista, por isso, é necessário o incentivo de meios de transporte alternativos. “Devemos criar condições para que as pessoas não precisem utilizar o carro. Não é
necessário gastar com grandes obras. Em alguns pontos, basta pintar uma faixa à direita, que ficaria exclusiva para as bicicletas”, explica Marques.

O secretário de Transportes, Alberto Fraga, afirma que o Governo do Distrito Federal está  buscando alternativas para a cidade, literalmente, não parar. Fraga diz que não ficou surpreso com o resultado final do raio X, organizado pela equipe do JBr. “O nosso sistema de trânsito está totalmente estrangulado. Se tivéssemos corredores exclusivos para os ônibus, seria diferente. Eles param toda hora para pegar passageiros. Então, é normal chegarem por último”, avalia.

Alternativas
Segundo Fraga, este mesmo teste já foi aplicado em outras grandes metrópoles do Brasil. Em todas, deu a mesma coisa. “Um ciclista, ou patinador, sempre chega primeiro do que os carros em grandes distâncias. Acho que essa experiência serve para motivar os brasilienses a procurarem outros meios alternativos, como a bicicleta”. afirma. Para isso, a Secretaria espera implementar, ainda neste mês, o serviço de aluguel de bicicletas. Ao todo, serão 50 estações
espalhadas pela cidade. Cada uma com cerca de 20 bicicletas. O resultado final do edital para a construção do projeto sai em dez dias.

Sobre a necessidade de instalar ciclovias, Fraga garante que, até o fim do governo Arruda, serão feitos 250 quilômetros de vias para os ciclistas. “Só neste ano, construímos 58 quilômetros. Nos próximos meses, serão mais 90. Ao final do governo, teremos uma das maiores malhas cicloviárias do País”, defende.

Fraga, no entanto, discorda da opinião do especialista da UnB quando se trata de implementar novas vagas de estacionamento. “Temos um déficit de 30 mil vagas no centro da cidade. Precisamos construir 45 mil novas vagas em garagens subterrâneas. Claro que o governo incentiva o uso da bicicleta, mas não podemos oferecer isso como única opção de transporte para quem trabalha de terno e gravata, por exemplo”, ressalta.









  SAIBA +
Brasília é a recordista do País em número de carros por habitante. Na média, dá quase um carro para cada dois brasilienses

A cada hora, sete carros engrossam o trânsito do Distrito Federal. São quase 200 novos carros por dia. Segundo o Departamento de Trânsito do DF (Detran), a frota de veículos registrados na cidade chegou, em maio de 2008, a 1 milhão

Atualmente, o DF tem 1.089.000 veículos


 


 


 


 


 


VOCÊ, LEITOR!
Qual alternativa usa para evitar o trânsito? Comente!


 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado