Já virou lugar-comum falar do carnaval de Brasília citando o “vazio” político da capital durante os quatro dias da Festa de Momo. Mas a cidade que acolhe migrantes de todo país expressa muito mais em seu pequeno carnaval o encontro de culturas de quem deixou o estado de origem, mas trouxe na bagagem o jeito de viver, se divertir e manifestar.
Na cidade de Taguatinga, por exemplo, o encontro dos blocos Mamãe Taguá e Asé Dudu, hoje (20), expressou bem essa mistura e a releitura das referências nordestinas e da cultura negra.
Com seus bonecos gigantes, tambores de Maracatu, figuras de bodes, foliões com pernas de pau e fantasiados de palhaços e bonecos com cabeça feita de cabaça, o Grêmio Dramático e Recreativo Mamãe Taguá, nome oficial da agremiação, varreu as ruas do centro de Taguatinga. O bloco foi fundado por artistas em 1995 e sua referência é a cultura popular nordestina.
“Na verdade, o bloco foi fundado por artistas, alguns nordestinos, outros não, que não puderam viajar no carnaval e decidiram botar o bloco na rua”, conta Jorge Simas, um dos fundadores. “Nossa referência é a cultura popular nordestina, um pouquinho de cada estado do Nordeste que chega aqui, interage e vira outra coisa.”
Nos 17 anos do bloco, uma geração de “filhos da mãe”, como carinhosamente são chamadas as crianças do bloco, se formou. Elas vieram neste ano formando um cordão como a tradição do boitatá. A banda do bloco tocou marchinhas, samba e até a clássica Mamãe, Eu Quero, em ritmo de funk.
Asé Dudu
“Tolerância e Respeito”, esse é o lema do bloco afro Asé Dudu, que se apresentou hoje (20) no centro de Taguatinga, cidade satélite a cerca de 15 quilômetros de Brasília. O bloco traz na batida, nos instrumentos, nas roupas e no ritual, a alma da cultura negra. Em ritmo de Ijexá e outros ritmos de terreiros, a banda do bloco tocou várias canções com referência nas religiões de matrizes africanas.
“Nossas canções evocam o respeito à diversidade. Nosso bloco é um instrumento de luta contra a intolerância com todas as suas faces”, explicou o fotógrafo Ogan Luiz Alvez, um dos fundadores da agremiação. “Não dá para se combater a intolerância racial sem que, ao mesmo tempo, a gente combata a intolerância religiosa, as posturas sexistas, a questão da homofobia. Isso passa pela questão da indivisibilidade dos direitos humanos e é isso que a gente procura defender”, completou.
O Asé Dudu foi formado em 1986 por jornalistas negros e começou saindo atrás do Pacotão, no Plano Piloto.”Muitos jornalistas negros sentiram que não tinham a cultura negra representada por nenhum bloco e decidiram formar o Asé Dudu, que, na língua ioruba, significa poder negro”, explicou Alvez.
Mais tarde, como forma de afirmar a cultura negra como base do bloco, os integrantes decidiram levar a agremiação para Taguatinga, que acabou ficando vinculada ao Terreiro de Candomblé São Francisco de Assis. “A gente percebeu que a cultura negra que tanto queríamos afirmar estava preservada dentro dos terreiros. Se hoje se come acarajé, é porque seus segredos foram preservados pelas comunidades tradicionais dos terreiros. Se hoje se come abará, da mesma forma”, disse o fundador do bloco.
Com a vinculação à comunidade, o bloco passou a desenvolver outros projetos que vão além do carnaval. Entre os projetos desenvolvidos, está o de atender pedidos de escolas por palestras do grupo sobre a questão racial e religiosa. “O carnaval virou um detalhe. Desenvolvemos o projeto Zumbi nas Escolas, muito solicitado tanto pela rede pública, quanto por escolas privadas. Com informação, a gente percebe que o preconceito vai morrendo”, explicou a presidenta do bloco, Elizabete Cintra, que é maestrina da banda.