O uso do cinto de segurança é negligenciado pelo condutor e passageiro brasiliense. Até maio deste ano, o Departamento de Trânsito (Detran-DF) informa ter feito mais de 65 mil autuações referentes à ausência do acessório, uma média de 430 por dia. O número é 60% maior em relação ao mesmo período de 2014, quando foram registradas 40 mil notificações.
A morte do cantor Cristiano Araújo, de 29 anos, e da namorada dele, Allana Moraes, 19, em capotagem na BR-153, entre Goiatuba (GO) e Morrinhos (GO), levanta a questão sobre a importância do cinto para os passageiros de trás. A polícia acredita que os dois estavam soltos.
Especialistas e autoridades asseguram que o acessório reduz a chance de fatalidade. A população, porém, ainda parece pouco sensibilizada quanto ao assunto. Suposições infundadas como a de que “estando atrás está mais protegido” iludem e alimentam maus hábitos.
“Cri cri”
Copeira de 42 anos, Maria Santana diz ser “cri cri” quando dirige um carro e tem acompanhantes. “Meu marido reclama que até para manobrar na garagem eu coloco o cinto. Não saio do lugar se quem estiver comigo não usar”, afirma. Ela admite, porém, esquecer disso quando não está ao volante.
“Olha, confesso que não uso muito não. Me sinto mais segura, mas não é bom, né?”, pondera. Ela admite ser mais adepta da teoria de que o “banco da frente protege de impactos”, mas reconhece a necessidade de mudar o costume.
O assessor técnico da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) Ricardo Dilser afirma que, mais de um século após a criação do automóvel, o cinto de segurança ainda é o acessório de segurança mais importante. “Tudo do veículo ligado à segurança para funcionar plenamente depende do uso dele, inclusive o airbag”, diz.
Ele garante que quem está nos bancos traseiros deveria ter ainda mais preocupação. “Sem cinto, a pessoa pode esmagar quem está à frente contra o painel. Sem o acessório, também é possível que o indivíduo vá de encontro ao airbag abrindo e não murchando, como é o certo”, explica.
Uso é mais por evitar multa do que por proteção
O motorista Newton Carvalho, 34 anos, revela que a maioria dos clientes negligencia a segurança no assento de trás. “Só põem o cinto se veem fiscalização”. Ele alega sempre solicitar o uso do acessório, mas, em caso de recusa, diz que, “se for multado, não se responsabiliza”.
Em janeiro, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) revelou que 53% dos passageiros na parte traseira dos veículos em circulação nas rodovias do estado não usam cinto. Número considerado preocupante, pois outro levantamento, sobre as mortes em acidentes entre 2012 e 2014, mostrou que, dos falecidos no banco de trás, quase dois terços estavam soltos no momento do impacto.
No DF, segundo o diretor de Fiscalização do Detran, Silvain Fonseca, das mais de 65 mil autuações emitidas este ano por não cumprimento à obrigatoriedade do acessório, pelo menos 16 mil foram para passageiros. Ele não soube, porém, discriminar se os infratores estavam no banco da frente ou de trás.
Mais ocorrências e mais agentes
O diretor-geral do Detran, Jayme Amorim, garante ter coordenado a intensificação de fiscalização nos últimos seis meses e atribui a quantidade de ocorrências ao maior efetivo colocado nas ruas, hoje estimado em 630 agentes. “Essa multa deveria ser vista como algo educativo pelos condutores”, afirma.
Ele explica que, nacionalmente, a obrigatoriedade de estar afivelado nos assentos dianteiros e traseiros foi formalizada com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em 1997. No DF, porém, o diretor diz haver uma lei distrital de 1994 cujo teor já abarcava a questão.
Táxis
Taxista experiente, Roberto Luiz Maia da Silva, 61 anos, afirma sempre instruir os passageiros a andar de cinto. “Muitas vezes, ele não coloca, mas, se a gente fala, ele atende”, relata. Com a família, o profissional diz ter levado uma multa quando viajava, pois um parente estava sem cinto.
Apesar disso, ele afirma não ver tanta fiscalização a respeito nas ruas do DF e tenta conscientizar os outros quanto à importância de seguir as normas de trânsito. “O problema não é levar multa. O duro é ter de carregar a morte de alguém na consciência”, acredita.
Seu companheiro de profissão e de ponto Marco Antônio Barros, 44 anos, admite só cobrar dos passageiros quanto ao uso do cinto no caso de crianças. “Às vezes, elas ficam pulando no banco e deixa a gente nervoso”, diz. Ele também relata não perceber fiscalização quanto ao uso do acessório na parte traseira e confessa que “a maioria dos clientes não quer andar afivelado”.
A presidente do Sindicato dos Permissionários de Táxi e Motoristas Auxiliares do DF (Sinpetaxi), Maria do Bonfim Pereira de Santana, afirma haver a instrução para os motoristas sempre alertarem quanto às medidas de segurança. “Pedimos que expliquem a cada passageiro que, no DF, o uso de cinto é obrigatório”, conclui.