Maria Rosa e Sebastião Moura têm algumas coisas em comum. Ambos passaram dos 70 anos de vida, moram no Guará e, hoje, dependem de cuidados especiais constantes. Eles são acamados e assistidos pelo Programa de Atenção Domiciliar do Governo do Distrito Federal, um dos 30 mantidos pela Secretaria de Saúde. Os familiares classificam as equipes que os atendem como “anjos da guarda”, mas os problemas enfrentados pelo início da gestão afetam o funcionamento. Ontem, o JBr.mostrou o impacto da crise em outros projetos coordenados pela pasta.

Aos 78 anos, Maria Rosa é diferente da juventude. Não apenas pelos cabelos brancos e pele enrugada, mas pela falta de atividade. Foram estas características, de desânimo e suspeita de depressão, que a levaram mais tarde ao diagnóstico de demência degenerativa cerebral, sem tratamento ou cura.
“Ela ainda tinha uma leve lucidez e, ao ouvir que não tinha o que fazer, se entregou. Pedia para morrer, quando conseguia falar. Eu disse que daria todo o conforto, toda a qualidade de vida, e assim faço, mas ela se entregou. Parou de falar e de se mover”, lembra a filha, Jaqueline Araújo, bancária de 48 anos.
Maria passou a viver na cama, começaram a surgir feridas e a ida ao Posto de Saúde para tratamento ficou complicada. “Chegou uma determinada hora em que a enfermeira disse que não daríamos conta de cuidar das feridas. O processo de ir e voltar a machucava e, como precisava de atendimento periódico, entrou o Núcleo Regional de Atenção Domiciliar (Nurad)”, diz.
Hoje, o estado da idosa está estabilizado. “Elas (da equipe) são meus anjos guardadores. Não sei quanto recebem de salário, mas acho que não paga a dedicação. Sei que têm pessoas que estão em situação financeira pior que a nossa, mas nós pagamos impostos e também merecemos”, entende.
Gratidão
Esposa de Sebastião, de 73 anos, Tereza Moura lembra que em setembro do ano passado, ele teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e, de lá para cá, não andou mais, desenvolveu úlceras e precisa de sonda para se alimentar. “Fui à luta para atendimento. Cheguei ao Nurad chorando, desesperada, pedindo ajuda. Me deram a mão, abraçaram a causa e estão comigo”, conta.
Tereza foi capacitada pela equipe do programa para fazer exercícios fisioterapêuticos e lidar com a alimentação do marido. “O cuidador é parte integrante do programa. É, inclusive, condição para atendimento. Ele passa por aulas para saber o que o paciente precisa”, explica Andréia Brasil, enfermeira e chefe do núcleo do Guará.
Melhor para todos
A coordenadora do Programa de Internação Domiciliar do DF ressalta que a iniciativa atende pessoas acamadas que dependem necessariamente de um cuidador para a realização de atividades diárias. “São incapazes de se alimentar, se vestir, fazer higiene”, explica Leopoldina Castro. De acordo com dados da Secretaria de Saúde, 36% dos pacientes atendidos no programa têm doenças no sistema nervoso e 27% têm doenças no aparelho circulatório.
Andréia Brasil, chefe do núcleo do Guará, destaca que “o programa tira o paciente do hospital para ser atendido em casa. A economia para o Estado é maior, porque não gasta com hotelaria, alimentação e pessoal, por exemplo”. Além disso, há o conforto do paciente, que estará em casa, com a família, se alimentando e medicando.
“Fornecemos tudo o que o paciente precisa. Curativos, respirador, cama hospitalar, aspirador de secreção. Com a crise enfrentada pelo GDF, tivemos algumas faltas de insumos, que tentamos correr atrás”, revela Andréia. Toda semana, eles entregam materiais às famílias que necessitam. Em caso de feridas, por exemplo, são gazes, soro, algodão, tudo o que é necessário pra que o tratamento seja feito.
“Eu tive que comprar, mas pouca coisa faltou. Uma vez ou outra um esparadrapo, uma gaze”, afirma Jaqueline, filha da Maria Rosa. O problema, diz, é maior em relação à alimentação: “O fornecimento parou. Liguei lá, mas a previsão é que chegue na semana que vem (nesta semana)”.
Reabastecimento
Segundo a nutricionista da Nurad do Guará, Daniela Bernarede, foi um mês sem abastecimento, mas agora começa a normalizar. “A gente orienta a família a fazer em casa, mas não tem a qualidade da especializada e nutrientes se perdem. Uma vez que falta alimentação, muda o quadro do paciente”, ressalta.
A Secretaria de Saúde informou que “devido a problemas contratuais com a gestão passada, a Gerência de Nutrição sofreu baixa no estoque de alimentos especiais dos pacientes em regime de internação domiciliar”. Após negociação com a empresa fornecedora dos alimentos, destacou a pasta, a distribuição foi restabelecida, mas “não houve suspensão no fornecimento de todos os produtos”.
Hoje há mais de 700 pacientes de oxigenoterapia familiar na rede do DF – 14 pessoas estão na fila de espera para instalação do oxigênio. São pacientes que têm doença crônica pulmonar agravada e o equipamento proporciona a troca de gás necessária para manter suas funções vitais. “Sem isso, a pessoa respira insuficientemente”, esclarece Leopoldina Castro, coordenadora do programa.
“Os que já estão com equipamento em casa não sofreram mudança e estão com manutenção garantida, mas novas admissões estão suspensas até a regularização dos contratos”, afirma. “A secretaria está trabalhando para normalizar isso. A oxigenoterapia está enquadrada nos contratos especiais. Acreditamos que isso não deve demorar”, conclui.