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Brasília

Até o fim do ano, devem cair 10 mil raios no DF

Arquivo Geral

11/03/2015 7h00

Admirado pelos cidadãos, o céu de Brasília também representa perigo. Dele, dezenas de milhares de raios caem no DF anualmente e, este ano, já foram responsáveis por ao menos uma morte, em janeiro, e por deixar centenas de feridos. O caso mais recente envolveu 31 militares do Batalhão da Guarda Presidencial, todos atingidos durante um treinamento no pátio da unidade, no Setor Militar Urbano (SMU), na tarde da última segunda-feira.

De acordo com o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre as 12h e 16h de segunda foram registrados 99 raios na capital. Além da responsável pela hospitalização dos militares, outras descargas elétricas causaram falta de energia na zona residencial do SMU, quedas de árvores na Asa Norte e Setor de Indústrias Gráficas (SIG) e alagamentos e enxurradas em Águas Claras, Estrutural e Ceilândia.

Até ontem, o Inpe havia contabilizado mais de 2,8 mil desses fenômenos no DF em 2015. Caso a incidência siga os resultados apresentados nos dois anos anteriores, pode haver mais dez mil até o fim do ano. Apesar disso, o DF é uma das unidades da Federação com menor número de ocorrências desse tipo no País, só à frente   de Sergipe.

Preocupação

Para   Iolanda Caetano de Souza, trabalhadora doméstica de 70 anos, essa estatística não é reconfortante. Nascida e criada em Paracatu (MG), ela conta ter se acostumado a “relâmpagos daqueles grandes” e diz temê-los. “Eu me preocupo demais. Se vejo que está chovendo forte, fico onde estou”, revela.

Moradora da capital há cerca de 40 anos, ela  não sabe como agir em caso de tempestade de raios e apenas procura o abrigo mais próximo. “Meu pai  dizia para não ficar perto de árvore nem dos arames da cerca, então a gente sempre corria para casa”, relembra-se. 

O medo das descargas se intensificou após um incidente 20 anos atrás. Um conhecido da família, que teria se casado  20 dias antes, morreu ao ser atingido por um raio em um campo de futebol. “Se  já não gostava antes, passei a ter muito medo depois”, diz. Ela se recorda da convivência com o rapaz e ainda se sente desconfortável ao falar sobre o caso.

 Locais  vulneráveis a incidentes

Segundo a cartilha de proteção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), terrenos abertos  oferecem risco, assim como topos de morros e de prédios, cercas de arame, torres e árvores isoladas. Caso a pessoa esteja em uma situação parecida durante uma tempestade, portanto, é recomendável não segurar objetos metálicos longos (varas de pesca, tripés, tacos de golfe etc.), não empinar pipas e aeromodelos com fio, não andar a cavalo, nadar ou ficar em grupos.

Ainda de acordo com o Inpe, o Brasil registra a maior incidência de raios do mundo, com quase 58 milhões por ano. Sobreviver a uma descarga dessas, cujo potencial elétrico pode ser até de 100 milhões de volts, um milhão de vezes mais forte que a tomada de casa, é algo raro. Os 31 militares do Batalhão da Guarda Presidencial, portanto, não foram diretamente atingidos pela descarga, conforme esclarece o coordenador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu),  Rodrigo Caselli Belém.

“O raio caiu em um ponto próximo e eles levaram o choque. Para fazer o atendimento, utilizamos os cuidados gerais para vítimas de choques”, informou. Todos  receberam alta em, no máximo, 12 horas.

Ele diz, no entanto, que danos graves podem ser causados em uma ocorrência como esta. “O primeiro risco são as queimaduras externas e internas, além de arritmia. A pessoa pode sentir dor no peito, palpitação e até ter uma parada cardíaca, então mesmo que esteja consciente, deve ser encaminhada ao hospital”, orienta.

Como proceder em caso de urgência

Caso o socorro não esteja por perto, quem estiver próximo de uma vítima atingida por descarga elétrica deve ligar para o  telefone 192 e ouvir as instruções do atendente, diz o coordenador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu),  Rodrigo Caselli Belém. “Ele deve dar orientação quanto à movimentação do corpo da pessoa atingida e abertura das vias aéreas. Se ela não estiver consciente, deve ser feita a massagem cardíaca”, esclarece. 

De acordo com o médico, é mais recomendável para o leigo que evite a respiração boca a boca, pois a massagem é tão efetiva quanto, além de ser   mais simples de ser executada.

Dúvida

O vendedor Cládio Bello, de 50 anos, fazia andanças pela cidade no dia em que os militares foram eletrocutados e acredita que o incidente poderia ter sido evitado. “Por que eles estavam em um local exposto no meio de uma tempestade? Não deveria ter acontecido algo assim, porque eles são justamente os que deveriam estar mais informados”, critica.

Acostumado a caminhar bastante, devido a sua profissão, ele afirma ver algumas pessoas buscando refúgio embaixo de árvores quando a chuva aperta. “A gente vê muita coisa pela televisão e sabe dos riscos. Mas entendo que a tendências das pessoas seja buscar proteção”, pondera.

 Despreocupação

A chuva forte, a ameaça de raios e o céu enegrecido não foram suficientes para atrapalhar a corridinha vespertina no Parque da Cidade da professora de Ensino Fundamental Beatriz Dias, de 31 anos. “Se tiver que cair em mim, vai cair, então não importa onde eu esteja. A natureza é assim”, acredita a docente, que, apesar do posicionamento, ainda assim se protege quando a situação piora.

“Se vejo que tem muito raio, aí vou para baixo de alguma marquise. Aqui no parque eu me escondo nessas paradas onde tem banheiro, ou então vou embora”, diz. Enquanto professora, afirma que a orientação para os alunos é, de maneira geral, evitar o tempo ruim para evitar qualquer risco.

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