JOÃO PAULO MARIANO
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É carro em cima de calçada, em local proibido e até parado em ciclovia. O que não falta na capital são veículos estacionados onde não se deve. Prova disso é o número de infrações por estacionamento irregular, que aumentou cerca de 47% na comparação dos primeiros 11 meses de 2017 com o mesmo período do ano passado. A intensificação da fiscalização fez com que 218.166 autuações fossem feitas de janeiro a novembro último, contra 148.313 em 2016. A média é de 655 multas por dia.
Em Ceilândia, nem a ciclovia fica livre da ocupação irregular, mesmo que haja um estacionamento grande, e muitas vezes vazio, bem ao lado. A denúncia vem de moradores que reclamam da fila de carros que se forma na calçada em frente ao estacionamento do terminal de ônibus vizinho à Praça da Bíblia, na QNP 19, que impede a livre circulação de bicicletas.
O autônomo Jefferson Ferreira, 29, passa todos os dias pelo local e já se cansou de precisar desviar dos carros no espaço reservado para ele, que utiliza a bike para circular pela cidade. Jefferson mora no P Norte e não entende porque os motoristas não utilizam o estacionamento vazio ao lado do terminal. “Acho ruim a invasão do espaço. Não tem tanta ciclovia em Ceilândia e os poucos espaços que existem são invadidos”, reclama.
O agricultor Roberto Machado, 52, se cansou do problema na ciclovia e resolveu denunciar ao Detran. “Eles insistem no erro porque é cômodo, porque tem sombra. Mas isso não justifica a falta de educação”, insiste. O homem já chegou a contar 20 carros parados em local irregular. Ontem, na hora em que ia para o trabalho, no Setor Habitacional Sol Nascente, viu uma senhora transitar de carro por cerca de 30 metros de ciclovia para só depois ir para pista. O fato é tão recorrente que ele não acredita que vá mudar tão cedo.
População cobra fiscalização
O problema nos estacionamentos está cada vez mais comum, em especial em uma cidade onde o número de veículos cresce a cada dia e já ultrapassa 1,7 milhão. Não há lugar para todos pararem seus carros. E se engana quem pensa que essas situações ficaram mais recorrentes apenas em regiões mais populosas, como Plano Piloto, Taguatinga e Águas Claras. De acordo com o Detran, a demanda para fiscalização desse tipo de irregularidade cresceu bastante em Planaltina e no Paranoá, por exemplo.
Para o diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca, o crescimento das multas ocorreu porque a fiscalização da autarquia foi intensificada em 2017. Contudo, isso só foi possível após pedido da população, por meio da ouvidoria, por mais atenção aos motoristas infratores. O diretor entende que é complicado estacionar em Brasília pois “o número de vagas é finito e o de carros, infinito”, mas vê que é imprescindível a conscientização quanto aos lugares que os carros estacionam.
Além disso, o valor da infração pode pesar no bolso dos motoristas. Elas variam de R$ 88,38 para a leve, mais três pontos na CNH, e de R$ 293,47 para a grave, além dos sete pontos. Para a situação de Ceilândia, onde os carros estacionam e transitam pela ciclovia, o valor cresce e pode chegar a R$ 880,41. Segundo a assessoria de comunicação do Detran, 11% das ações da autarquia em Ceilândia foram de combate ao estacionamento irregular – 144 em um total de 1.299.
Para o ano que vem, a promessa é que as ações vão continuar, até como uma resposta às demandas da população que chegam pela ouvidoria. “O estacionamento irregular pode atrapalhar a fluidez do trânsito e até o atendimento do Corpo de Bombeiros. Isso já foi constatado em treinamentos das forças de segurança do DF”, explica o diretor Silvain Fonseca.
Ponto de vista
Com uma média de 655 multas aplicadas por dia, o especialista em trânsito Márcio de Andrade avalia que a situação do Distrito Federal não é nada boa. “O crescimento das notificações indica uma maior presença do Estado, não que não estivesse presente antes, mas como aumenta o número de agentes, é possível intensificar as ações. Mas mostra que os motoristas continuam cometendo infrações que deveriam ser diminuídas com a intensificação de ações de educação no trânsito”, afirma.
Para ele, a educação é a base da mudança de comportamento nas estradas. Se o cidadão estiver educado, não vai estacionar na calçada e nem na ciclovia, apesar de toda a falta de vaga. Em relação ao caso específico de Ceilândia, ele entende que é uma falta de respeito com os ciclistas, pois há espaços bem próximos reservados para os carros. “Seria necessário punir mais já que certas pessoas só aprendem ao atingir o bolso”.