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A casa caiu. Milícia armada extorquia ocupantes de assentamento no DF

Por Arquivo Geral 08/05/2018 3h20
Foto: Matheus Venzi/Jornal de Brasília

Matheus Venzi
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Quem não pagava sofria na mão dos criminosos. Era assim que agia uma associação criminosa no Assentamento Zilda Xavier, em Planaltina (DF). O grupo se articulava como uma espécie de milícia armada e cobrava pedágio em troca da paz dos moradores.

Leia também: Moradores relatam achaque e polícia vai investigar ‘aluguel’ em ocupações

A Operação Terra Prometida, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), prendeu 13 membros da quadrilha no início da manhã desta terça-feira (8). Quatro pessoas estavam foragidas até a publicação desta reportagem.

Foto: Matheus Venzi/Jornal de Brasília

Durante o seis meses de investigação, a polícia reuniu 121 provas documentais contra a quadrilha. De acordo com o delegado-chefe da 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina), Edson Medina, foram identificadas ao menos 20 ocorrências criminais relacionadas ao grupo.

“Foram pelo menos 80 vítimas. Eles cometiam crimes como latrocínio (roubo seguido de morte), homicídio, roubo, extorsão, corrupção de menores, incêndio doloso, furto, ameaça, apropriação indébita e grilagem de terra dentro do acampamento”, comenta.

Benedito Gonçalves de Melo Filho, de 42 anos, é apontado como o líder da associação criminosa. Neli Rodrigues da Trindade, 42, seria a “número 2”.

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Todas as 220 pessoas que moravam na área do assentamento, de 100 mil m², eram obrigadas a pagar uma taxa de aproximadamente R$ 500 para Benedito. Esse valor era uma espécie de pedágio para morar no local. As condições são precárias, e existia um “gato” de energia elétrica.

“Quem não pagava tinha os barracos queimados, veículos baleados e até sofria ameaças e tentativas de homicídio. Essas pessoas eram retiradas da invasão, e outras pessoas ocupavam o lugar delas. Sempre pagando a taxa”, explica Medina.

Benedito era responsável pelo recrutamento de novos membros. Alguns, inclusive, menores de idade. Já Neli cuidava da parte organizacional da associação criminosa. Era ela quem arrecadava as taxas pagas pelos ocupantes do Assentamento Zilda Xavier. Nenhum dos dois morava na invasão. Ambos tinham residências em Sobradinho e compareciam somente aos fins de semana.

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Já o resto dos integrantes servia como operários. “Eles ficavam no assentamento porque acreditavam que seriam beneficiados, que ganhariam um lote por estarem ali”, esclarece o delegado.

Além de Benedito e Neli, foram presos Wallace do Nascimento Rodrigues, 22; Lucielton Aguiar Brito, 22; Welder Ribeiro dos Santos, 19; Lucas Aguiar Brito, 18; Ray Ribeiro dos Santos, 20; Julio Cesar Florencio da Silva, 21; Yuri Ramos dos Santos, 23; Dealison Gonçalves do Nascimento, 28; Carlos Daniel Araújo Rodrigues, 19; João Victor Moura da Silva, 18; e José Leandro Matias da Silva, 29.

A maioria dos presos já tinha passagens quando maiores e atos infracionais quando adolescentes.

Foto: Matheus Venzi/Jornal de Brasília

Todos vão responder por associação criminosa com o agravante do uso de armas de fogo e de adolescentes, ou pelo crime de milícia armada. A pena para associação vai de 1 a 3 anos e pode ser agravada em até 1/6 por causa das circunstâncias. Já para milícia armada, a pena varia de 4 a 8 anos.

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Ao todo, a Justiça autorizou 17 mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão no Acampamento Zilda Xavier, no Condomínio Nova Petrópolis, na Vila Rabelo e na Fercal. Porém, quatro pessoas ainda estão foragidas.

Durante a operação, foram deslocados aproximadamente 70 agentes da 1ª, 2ª e 5ª Delegacias de Polícia, além das Divisões de Operações Especiais e Aéreas (DOE e DOA). Foram recolhidos telefones celulares, computadores, pendrives e documentos.

Agora, as investigações vão se concentrar em identificar outros envolvidos na associação criminosa, além de apurar mais aprofundadamente os crimes cometidos por eles. “O nosso objetivo inicial era restabelecer a ordem no local. Os demais crimes, como as ameaças, tráfico de drogas e as tentativas de homicídio, serão apurados, e os culpados serão responsabilizados em investigações específicas”, antecipa Medina.

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Área será usada por programa de habitação

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De acordo com o delegado, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) vai construir prédios no terreno do assentamento, em conformidade com o programa habitacional do governo. A terra pertence ao Distrito Federal. Todos os beneficiados já foram definidos e nenhum deles fazia parte da invasão.

Já os invasores podem ser responsabilizados pela ocupação irregular.

Origem da associação criminosa

Benedito fazia parte do grupo dos primeiros invasores do local, uma associação que reivindicava moradia. Depois de um tempo, ele se desentendeu com os outros líderes e decidiu formar seu próprio grupo. Benedito, então, passou a recrutar novos membros dentro do acampamento e expulsar os desafetos que ali moravam.

De acordo com o delegado, as atividades da quadrilha caracterizam um “embrião de milícia privada”. O grupo se organizou e criou uma espécie de “estado paralelo” dentro do acampamento. “Eles obrigavam as pessoas a praticar condutas que não queriam. Quem não aceitava as determinações acabava expulso pelos comparsas de Benedito”, aponta Medina.








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