Jéssica Antunes e Bianca Moura
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Com a prisão dos responsáveis pelo assassinato do servidor Eli Roberto Chagas, a investigação sobre o único latrocínio registrado no Guará desde 2014 está encerrado. Ele faz parte de uma estatística obscura de conclusão administrativa de inquéritos no DF. A Secretaria de Segurança Pública diz não ter dados oficiais de 2015, mas, no ano anterior, quase metade das mortes não havia sido esclarecida até outubro. De acordo com entidades policiais, 22% das investigações de óbitos em 11 anos não foram concluídas.
O número de inquéritos policiais instaurados em 2015 foi 2,9% menor que no ano anterior, passando de 34 mil para 33 mil. Em janeiro deste ano, outros 2,8 mil foram abertos. Apesar dessas informações estarem disponíveis nos balanços de criminalidade divulgados mensalmente pela SSP, não há um índice oficial de conclusões.
Até outubro do ano passado, a informação era de que 45,5% dos casos de homicídio registrados em 2014 não tinham solução. Das 691 mortes, 315 crimes não foram concluídos. Em 2007, os não esclarecidos somavam 20%. A Associação dos Delegados de Polícia do DF (Adepol) afirma que, entre 2003 e 2014, foram elucidados 5.315 homicídios, o que corresponde a 68% do total de 7.816.
A Adepol considera que um dos principais entraves para esclarecimento de crimes é o quadro reduzido de profissionais. A falta de uma proteção efetiva à testemunha também poderia atrapalhar as investigações, já que, muitas vezes, pessoas próximas ao suspeito são as peças-chave. “O que nos ajuda são os nossos profissionais, que estão com uma qualificação acima da média”, sustenta o presidente do sindicato, Benito Tiezzi.
“NÚMEROS SÃO RELATIVOS”
“O número dos inquéritos efetivamente concluídos é muito relativo”, alerta Nelson Gonçalves, especialista em segurança pública. Ele explica que a duração não é padrão por depender da Justiça. “Administrativamente, o inquérito se finaliza quando a Polícia Civil investiga, relata e encaminha ao Ministério Público. Mas só será elucidado, de fato, quando o MP aceitar a denúncia”, descreve.
Gonçalves acredita que a PCDF pode até ter os dados de inquéritos concluídos administrativamente, mas afirma que não há problemas em centralizar os dados “porque cada delegacia é responsável pelas próprias investigações”. Apesar disso, pensa que essas informações deveriam integrar as estatísticas.
Mesmo que haja prazos legais, ele acredita que uma investigação dura mais do que se espera pela falta de recursos humanos. A questão é lembrada constantemente pelo presidente do Sindicato dos Policiais Civis, Rodrigo Franco, que aponta dificuldades desde o deslocamento para a ocorrência.
Prisão não conforta por completo
Helinton Chagas, irmão do servidor morto no Guará, disse ao JBr. que é cedo para comemorar: “Ainda estamos na primeira etapa. Tem que ver a conclusão do inquérito e condenação. Possivelmente, vamos esperar a representação do Ministério Público e ver o que será feito. Nossa legislação é complicada, mas não depende de nós”. Para ele, o único alento é que os suspeitos não farão outras vítimas.
Apesar de importante, a solução do latrocínio não conforta a família. “A angústia vai permanecer porque ele não vai voltar mais. Será uma tristeza pelo resto das nossas vidas. Estamos em uma situação perpétua”, lamentou. Mas a maior preocupação, diz, são as crianças: “Eles estão em formação. Se para nós, adultos, é complicado, imagina para eles?”.
Os dois filhos, de 15 e 11 anos, mudaram de escola e vão começar tratamento psicológico. “A ficha vai caindo na medida que o tempo passa. De repente, o pai, que sempre foi participativo, não chega mais em casa, não almoça mais junto, não compartilha momentos”, lembrou o irmão. Por enquanto, a viúva está de licença do trabalho, para onde deve voltar em um mês.
Casos ainda sem conclusão
Thalitha Cacau Rocha, 25 anos: desapareceu em 27 de junho de 2015, quando pediu para sair meia hora mais cedo do trabalho, em um shopping, para resolver problemas pessoais. Dois dias depois, o corpo da jovem foi encontrado atrás de um campo de futebol, próximo à DF-451, em Ceilândia. A mãe, Cícera Maria Cacau, 46 anos, acompanha a investigação e aguarda ainda um desfecho satisfatório para o caso, com a prisão dos algozes de sua filha. “A polícia não fala nada para a gente para não atrapalhar as investigações, mas tenho fé em Deus que vão conseguir prender a pessoa que fez isso”, acredita.
Nilvo Wigeneski, 55 anos: o empresário estava em sua chácara, no Núcleo Rural Saquarema, próximo à DF-440, em Sobradinho, quando viu sua propriedade ser invadida por quatro homens armados, em 24 de janeiro. Quando avistou a mulher se aproximar, Nilvo tentou avisá-la para se afastar e levou o tiro fatal. Bandidos, conhecidos na região e pelos policiais pela extensa ficha criminal, fugiram pelo matagal.
Wesley Sandrikis Gonçalves da Silva, 29 anos: o estudante de educação física morreu ao ser baleado no bloco de rua Encosta que Cresce, em 30 de janeiro. Outra vítima foi ferida. A investigação ainda não foi concluída.
Edevaldo da Silva Gomes, 20 anos: jovem abandonou o trabalho, em uma festa, e, dois dias depois, em 2 de fevereiro, seu corpo foi encontrado no Lago Paraná. A família não se conforma e busca explicação. A linha de investigação trabalha com afogamento, sem envolvimento de terceiros, mas não dispensa a hipótese de homicídio.
Alívio para a população
No dia do crime, a professora aposentada Sônia Cardoso, 52 anos, chegou mais tarde que o normal e viu a aglomeração de pessoas: “Passei a tarde toda me tremendo. Poderia ter acontecido com qualquer um”. Quando soube da prisão dos autores do crime, a reação foi um sonoro “graças a Deus”.
“Se fica solto, vai fazer de novo. Quando prende, independe de quem seja, diminui um pouco a criminalidade, mas precisamos de segurança. Está um caos, a gente não tem mais sossego. Antigamente, viajávamos, deixávamos a casa vazia um mês inteiro. Agora não dá mais, temos que pagar alguém para ficar em casa”, justificou.
A filha, Bárbara, de 13 anos, contou que policiais aparecem em dias alternados somente no horário de saída e que a recomendação para todos os alunos é que não fiquem na área do crime, onde havia um banco que reunia os estudantes.
“A gente fica assustada e apreensiva. Não tem nada a ver com a escola. Em qualquer lugar, estamos à mercê da criminalidade. Eu mesma já fiquei na mira da arma. Espero que eles (os autores do latrocínio contra Eli) fiquem presos realmente”, afirmou a mãe de uma aluna, que preferiu não se identificar.
Diretor do colégio Rogacionista, Ademar Tramontin comentou que a prisão representa um alívio porque retira pessoas nocivas da sociedade. Após o crime, ele diz que foi feito um trabalho de conscientização, solidariedade à família e de atenção ao que se passa próximo à escola. E ainda criticou o esquema de segurança: “Infelizmente. teve que acontecer esse fato para haver mais policiamento”.
O autônomo Marcos Antônio, 40 anos, mora próximo à cena do crime. “Eu nunca havia visto algo parecido aqui. É complicado chegar e ver que um cara morreu na frente de casa”, contou. Ele reclama da criminalidade no Guará, onde o número de homicídios aumentou 166% de 2014 para 2015 – as ocorrências passaram de seis para 16. “O que mais tem é bandido. Tem muito assalto, especialmente na área comercial. Como há escolas por perto, deveria ter mais policiamento”, observa.
Moradora e empresário comemoram
Moradora do Guará há cinco anos, a professora aposentada Lúcia Alves, 67 anos, diz que, mesmo com a prisão dos autores do latrocínio (roubo seguido de morte), é impossível se sentir seguro, mas comemora a punição.
“Acho que quem comete um crime precisa pagar pelo que fez. Há muitos casos que passam anos e não há solução. Quando prendem, no dia seguinte, estão soltos. Tem que manter lá. Eles pegaram o carro de volta, mas a vida do pai de família não vai voltar”, lembra.
O empresário Sebastião Fabiano, 61 anos, já teve seu estabelecimento na QE 40 do Guará assaltado duas vezes. “Eu tenho uma preocupação porque o comércio é sempre vulnerável. Ainda mais que minha filha fica aqui todos os dias. A prisão dos assassinos do pai de família é um alento porque a impunidade é o que mais chateia. Quando se vê a Justiça sendo feita, com certeza, é um alívio para a população, à mercê da criminalidade”, afirma.
Saiba mais
Ontem, na frente do colégio no Guará II, dois policiais do Batalhão Escolar acompanhavam a saída dos alunos.
Um dos militares, que preferiu não se identificar, disse que, após o crime, passaram a estar fixos ali. Antes, chegavam às 12h e logo iam para outra unidade de ensino. Agora, ficam das 11h30 às 19h.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que os dados competem à Polícia Civil. O Jornal de Brasília pediu estatísticas e tentou conversar com um representante da PCDF, que não respondeu até o fechamento desta edição.