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Brasília

Desde o ano passado, 914 moradores do DF são procurados pelas famílias

Arquivo Geral

04/07/2016 6h30

Raphael Ribeiro

Manuela Rolim e Jurana Lopes
redacao@jornaldebrasilia.com.br

“O pior é a falta de notícias, sejam boas ou ruins. Essa angústia é massacrante. É algo mal resolvido que envolve a pessoa mais importante da minha vida: minha mãe”. O desabafo é do designer gráfico Glauco Ribeiro Oliveira, 28 anos. Na mesma situação, centenas de famílias estão à procura de algum parente no DF. Atualmente, 914 pessoas são consideradas desaparecidas na capital, segundo a Secretaria de Segurança.

O número é alto, e a dor dos que esperam por qualquer pista também. Desesperado, Glauco distribuiu cartazes em quase todas as regiões administrativas com a foto da mãe, a dona de casa Ruth Figueiredo Ribeiro, 58 anos, além de registrar ocorrência na 14ª DP. Ela sumiu na tarde de 22 de maio último, no Setor Leste do Gama.

“Colei cartazes nas rodoviárias, nos ônibus, em todo lugar. Essa semana, vou fazer de novo. É uma batalha sem fim”, afirmou o designer gráfico, que é filho único. Agora, a preocupação dele é com o tempo. “Há uma semana não temos notícias. O último relato foi de que tinha uma senhora desorientada em algum lugar do DF. É sempre tudo muito vago. Enquanto isso, fico pensando no frio que ela pode estar passando nas ruas”, completou. De acordo com Glauco, a dona de casa tinha crises de depressão.

Promessa de sumir

Com a ameaça de sumir por dez dias, após discutir com a mãe, a adolescente Yanara Lima Gomes, 15 anos, saiu de casa, em São Sebastião, em 20 de fevereiro deste ano, por volta das 6h30. Desde então, a família segue desesperada.

“Ela saiu bem cedo e disse apenas que ia para o Plano Piloto. Ninguém desconfiou porque ela saiu com a roupa do corpo e costumava se encontrar com os amigos no Parque da Cidade”, afirmou Yasmin Lima, 17, irmã mais velha de Yanara.

Segundo ela, a irmã tinha um relacionamento com outra garota e, desde que terminou o namoro, estava abatida. “Eu procurei essa ex-namorada e ela negou ter tido qualquer envolvimento com minha irmã. Depois, me respondeu com deboche que não sabia onde Yanara estava”, explicou.

De acordo com a mãe, Genice Lima, 46 anos, a filha estava estranha desde que perdeu o celular: “Primeiro, ela contou que foi assaltada. Depois, que tinha esquecido na casa de uma amiga. Desde que isso aconteceu, ela andava muito calada. Um dia, chegou cheia de marcas, mas não deu explicações”.

Segundo Genice, um dia antes de sumir, Yanara pediu um celular novo. Como a mãe disse que estava sem condições, a garota ficou nervosa e gritou que iria sumir.

Ponto de vista 

Segundo o psiquiatra e professor da Universidade de Brasília  Raphael Boechat, existem grupos de pessoas mais propensos a desaparecer – e, portanto,  exigem maior atenção das famílias. Ele completa que, apesar de ser um problema imprevisível, é importante ficar em alerta em relação aos sinais que antecedem o desaparecimento. “Dependentes químicos e pessoas com retardo mental e esquizofrenia costumam desaparecer com maior frequência. É necessário confirmar se o tratamento está correto nestes casos. Quanto aos jovens, o sumiço é mais raro, mas eles também podem dar sinais de mudança de comportamento. É fundamental acompanhar”, aconselhou.

Entre as razões, uso de drogas e conflitos

A Secretaria de Segurança Pública informou que entre as principais motivações para o desaparecimento de crianças e adolescentes está a fuga por conflitos familiares ou violência doméstica, além da perda por descuido ou desorientação.

“Já o desaparecimento de adultos é comum em casos de uso de drogas ou porque não avisam a família que vão passar alguns dias fora. Dos adultos que desapareceram involuntariamente, foi constatado que 66 registros em 2015, ou seja, 2%, foram vítimas de acidentes, de crimes com restrição de liberdade ou tiveram crise psiquiátrica”, concluiu a secretaria.

Com base nos dados da Polícia Civil, 3.250 pessoas estavam desaparecidas no DF entre janeiro e dezembro de 2015. Destas, 1.632 eram mulheres e 1.618 homens.

“Até 29 de janeiro deste ano, quando o setor de estatística atualizou o estudo, permaneciam desaparecidas 914 pessoas e foram localizadas 2.336. Em 2014, 3.706 estavam na mesma situação. Destas, foram localizadas 2.998, restando 708 desaparecidas”, detalhou.

Ainda segundo a secretaria, do total de 3.250 procurados em 2015, as mulheres são maioria na faixa entre 13 e 17 anos (77%). Elas também registraram mais desaparecimentos na faixa etária até 12 anos (60%). Os homens são maioria com mais de 50 anos (78%); entre 18 e 29 (75%); e de 30 a 49 (66%).

Saiba mais

Entre as regiões administrativas que mais registraram ocorrências de desaparecimentos entre janeiro e dezembro de 2015 estão Ceilândia, com 517, seguida por Samambaia, com 283, e Planaltina, com 238.
A Secretaria de Segurança Pública ressalta que tem trabalhado com a Polícia Civil e o Ministério da Justiça para unificar os bancos de dados de pessoas desaparecidas. Isso porque há uma subnotificação com relação à retirada do registro da ocorrência quando as pessoas são encontradas.
A pasta informa também que ainda não dispõe do levantamento dos dados de 2016.

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