Menu
Brasília

Alto custo de vida expulsa moradores

Arquivo Geral

21/10/2012 9h43

Fábio Magalhães

fabio.magalhaes@jornaldebrasilia.com.br

 

Famoso por ser o berço dos cargos públicos, o Distrito Federal atraiu, durante anos, pessoas que vinham de outras unidades da Federação em busca de melhores condições de vida. Porém, ao longo de décadas, o fluxo de migração dos brasileiros mudou e a capital, que antes acolhia moradores, passou a ser apenas o local de trabalho dos que escolheram viver em cidades próximas, na Região Metropolitana, de preferência na divisa com a capital. Entre as pessoas que migraram para cidades goianas entre 2000 e 2010, 23% residiam no DF, conforme levantamento do último Censo Demográfico, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Para os especialistas, vários são os fatores que contribuem para esta reordenação social. Contudo, um dos principais responsáveis por esta quantidade de imigrantes é o alto custo de vida da capital federal que, para muitos, é um vilão e desestimula a permanência no DF. Por isso, a opção de morar em cidades próximas. 

300 prestações

Este é o caso da recepcionista Sônia Aguiar, 46 anos, que morou de aluguel, por 11 anos, no Paranoá, e há dois anos comprou uma casa de cinco cômodos em Valparaíso II, financiada em 300 prestações (25 anos) de R$ 233,33. 

“Costumo brincar que a minha casa é a minha vida. Vou passar o resto da vida pagando. Infelizmente, quem quer sair do aluguel se vê obrigado a sair do DF e ir para estas cidades próximas. Com R$ 70 mil eu não compraria nada aqui em Brasília”, compara.

Morando com o marido, de 46 anos, Sônia conta que sua rotina começa às 3h35, quando acorda para se preparar para o trabalho. Após se arrumar e deixar a casa em ordem, ela caminha dois quilômetros até a garagem da empresa de ônibus que faz linha para Brasília e consegue iniciar sua viagem, de aproximadamente 1h15, às 5h.

“No começo, quando mudei, me deu um arrependimento, mas não tem como voltar atrás. Acho que o governo está querendo tirar os mais pobres do Distrito Federal. Em Brasília não dá para pagar um imóvel, pois não tem subsídios”, reclama.

Tendência das grandes capitais

João Alves de Lima, analista do IBGE, esclarece que o Censo Demográfico de 2010 não pesquisou o motivo da migração da população. Porém, ele acredita que a busca por melhores condições de vida e a grande oferta de moradia a Região Metropolitana têm atraído muitos brasilienses. “Não posso afirmar de forma categórica que isso foi o principal motivo, mas sabemos que essa migração é uma tendência de todas as grandes capitais”, reconhece. 
 
Conforme analisa os índices, Lima aponta que 417.332 pessoas naturais do DF saíram do local de nascimento e residem em outra unidade da Federação. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que chegou à capital do País atingiu a marca de 190.422 pessoas e colaborou para a consolidação do índice de 2.570.160 habitantes no DF, em 2010.
 
Segundo o geógrafo e especialista em planejamento urbano  Aldo Paviani, a Região Metropolitana  é composta, em sua maioria, por pessoas com pouco poder aquisitivo que, pelo alto custo de vida da capital, não conseguem se manter em um padrão razoável de vida e acabam, momentaneamente, residindo em regiões periféricas do DF. Em sua visão, houve um crescimento desordenado. “A cidade se alargou sem respeitar limites geopolíticos. Numa metrópole, como neste caso, tem um gigantismo que faz com que as pessoas morem cada vez mais longe dos locais de emprego. Aqui, por exemplo, o Plano Piloto detém 48% dos postos de trabalho e só 9% da população”, aponta.
 
Para Paviani, é preciso mais investimentos e planejamentos de forma comum entre os governos das duas unidades da Federação. “Às vezes, perde-se três horas em trajetos de deslocamentos de lá para cá, falta saúde, educação e outros aparelhos públicos. Tem-se que pensar nestas pessoas e integrar serviços. Assim, ganha o Goiás e ganha o DF”, acredita.
 
Novos horizontes

Na opinião da professora do Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB) Claudete Ruas, embora não se tenha a comprovação oficial dos motivos da migração, ao longo de anos de estudo observa-se que as pessoas têm a tendência de mudar de estado em busca de novas oportunidades que, às vezes, formam uma rede de imigração. “De início migra o casal para onde tem melhores condições de vida. Em seguida, surgem outras pessoas apoiadas nestes que foram primeiro. Esse processo migratório vem aumentando e, para se manterem, as pessoas começam a buscar oportunidades no Entorno”, explica. 
 
De acordo com a especialista, o processo migratório deve ser enfrentado como um ponto sensível nas políticas das duas unidades da Federação envolvidas, principalmente quando a questão são os limites geográficos.
 Conforme explica, o DF e Goiás possuem questões de ordem política e de desenvolvimento que precisam ser resolvidas para melhorar a qualidade de vida dos migrantes. “Não é que o Entorno seria um problema ou solução. Se criar fronteiras em torno dessa realidade, não se resolvem as questões”, analisa. 
 
De olho nas oportunidades oferecidas em outras localidades, os brasilienses estão seguindo a tendência nacional em que 14,5% da população reside em unidade da Federação diferente daquela em que nasceu e estão migrando, cada vez mais, para as cidades que formam a Região Metropolitana do DF.
 
Livres do aluguel
 
Ex-moradora de São Sebastião, Maria José Souza, 36 anos, resolveu mudar para Santo Antônio do Descoberto (Go) há dois anos. Para se livrar do aluguel, ela comprou um lote naquela cidade, por R$ 95 mil, e se diz realizada morando onde está. No entanto, mesmo assim, ela afirma que quando tiver  oportunidade pretende voltar a residir no DF. “Não me arrependo de ter saído de Brasília. Aqui é tudo muito caro e para quem ganha um salário as contas pesam. No DF, é melhor para estudar e para trabalhar, mas nada como ter uma casinha no seu nome”, diz. 
 
O funcionário da Câmara dos Deputados Cícero Pádua, 43 anos,  compartilha da mesma ideia de que o custo de vida no DF é alto. Por isso, deixou a capital, onde morou por mais de dez anos, e mudou para a Cidade Ocidental (GO), onde mantém um lote de 300m² comprado por apenas R$ 8 mil. “O grande problema de morar no Entorno, agora, é o trânsito. Antigamente não tínhamos essa quantidade de gente morando lá. Com os preços daqui, estão todos se mudando para Goiás. O dinheiro que gastei, não dava nem para comprar minha casa lá”, finaliza.
 
 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado