Raphaella Sconetto
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Proibido há dez anos, ele ainda é o queridinho de muitas mulheres na hora de alisar os cabelos. É fácil encontrar o formol sendo anunciado por salões que insistem em burlar as regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em pesquisa da agência, 35% dos fiscais relataram ter encontrado o uso irregular de formol em alisantes, enquanto 61,6% suspeitam que os produtos usados nos tratamentos capilares tenham o teor acima do permitido.
A insistência pode trazer danos à saúde de quem usa e de quem passa. A fiscalização constante poderia barrar o uso irregular, porém, o número de fiscais não consegue atender a demanda.
Em um pequeno salão no Gama, as placas indicam quais são os serviços prestados. Nenhum deles usa formol. A mudança veio recentemente, depois que a dona do espaço e cabeleireira Edna Lúcia Neves, 58 anos, passou mal com o produto. Há 23 anos na profissão, a mulher conta que usava a química já com as quantidades permitidas pela Anvisa. Mesmo assim, o formol lhe incomodava.
“Nunca comprei para fazer a mistura, sempre foi tudo pronto. As embalagens mostravam que tinha a quantidade permitida”, afirma. “Quando tinha que fazer progressiva, usava máscara. Mas não adiantava nada. O cheiro é muito forte, ficava entranhado nas máscaras e nas toalhas”, acrescenta.
Os sintomas surgiram com o tempo: alergia, irritação no nariz, coceira na garganta e muita dor de cabeça. No fim do ano passado, foi quando, definitivamente, ela deixou de usá-lo. “A própria cliente trouxe o produto de casa. Acho que colocou formol demais. Assim que comecei a passar, meu nariz sangrou. Fiquei com medo. Percebi que estava me fazendo muito mal mesmo”, detalha a cabeleireira.
Naquele momento, Edna refletiu sobre os perigos. “Na minha cabeça eu pensava que poderia estar com mil doenças, até câncer”, desabafa. Apesar de estar passando mal, ela continuou e concluiu o serviço. “Depois disso, nunca mais fiz”, pontua. A cabeleireira, porém, sabe que perdeu clientela. “Mulheres ainda procuram bastante. Quando falo que não trabalho com formol, elas vão procurar um salão que tenha, mesmo sabendo que o produto estraga o cabelo”.

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.
Reparação pode levar anos
A cabeleireira e visagista Ana Paula Sakanishi Pereira, 42 anos, é enfática: nunca usou o formol em seus 23 anos de profissão. Pelo contrário. Nesses anos trabalhou para reparar os danos causados pelo produto. Ela lembra que, em meados do anos 2000, quando o formol começou a ser usado, os salões estavam no auge das ‘escovas japonesas’ – que também era um tipo de alisamento definitivo. “Os treinamentos eram caros e os produtos, também. Lembro que custavam de R$ 600 a R$ 1.200”, recorda.
O formol, depois, veio com tudo. “A aplicação do formol é uma cópia do procedimento das escovas japonesas, mas com custo baixo e uma manipulação caseira, ou posso dizer clandestina. Ainda coloca a saúde do cabelo, da cliente e do profissional em risco”, alerta.
Custo-benefício esconde uma armadilha
Conforme a cabeleireira Ana Paula Sakanishi, o produto que contém formol na composição alisa e dá brilho, mas deixa “uma parte morta, impedindo que o cabelo volte a forma natural”. Para a profissional, a única justificativa de quem procura esse tipo de produto é o valor.
“Alegam custo-benefício. Para isso, colocam toalhas molhadas no rosto, ardem os olhos, descamam o couro cabeludo, arriscam a queda de cabelo, mas devido ao valor, procuram os serviços”, desabafa Ana Paula.
Em seu salão, no Guará, ela diz que o pior caso que recebeu foi uma mulher que misturou o formol com outras químicas, como a pintura do loiro. “O pH do cabelo foi à loucura, transformando o cabelo em uma lama, desestruturando totalmente o cabelo”, afirma.
Em outros tratamentos, ela chegou a ficar um ano com a mesma cliente para reparar o erro. “Na maior parte dos casos, os tratamentos precisam de avaliação médica e é necessário algum medicamento para recuperação dos fios perdidos. A parte danificada só será recuperada com cortes”, explica.
Para o cabelo crescer e ficar firme, Paula estima que pode demorar até cinco anos. “O cabelo cresce, em média, 12 centímetros por ano. Para se recuperar um cabelo pode levar até cinco anos. Por isso, falo incansavelmente para minhas clientes: produtos de alisamento foram testados e necessitam de profissionais capacitados para aplicação”, finaliza.
A Anvisa fez um levantamento em todo o País sobre o uso do produto como alisante capilar. Na pesquisa, divulgada no início deste ano, fiscais responderam questões a respeito da experiência deles com cosméticos. Dos fiscais que participaram, 35% relataram ter encontrado o uso irregular de formol em alisantes, enquanto 61,6% suspeitam que os produtos usados nos tratamentos capilares tenham o teor acima do permitido.
Segundo Ethel Cardoso Freitas, especialista em regulação e vigilância sanitária da Anvisa, a atual legislação permite o uso máximo de 0,2% para cosméticos cabelos e 5% em produtos endurecedores de unhas. “O produto é como uma fórmula química. Vão ter várias substâncias, como condicionantes, regulação de pH, e, ao todo, isso vai representar 100%. O formol não pode ter mais de 0,2% do todo”, explica. Nessa quantidade, o formol possui uma função de conservante, e não de alisante.
Adição
Apesar das regras, o que se vê na prática é o uso e até a adição de mais substância nos produtos – o que representa 22,4% dos relatos dos fiscais na pesquisa. “Salões de beleza são serviços de interesse da saúde e precisam ser regulamentados e fiscalizados pelas Vigilâncias Sanitárias locais. Mesmo com a fiscalização, a gente continua recebendo denúncias do uso de formol”, aponta Ethell.
“Além do problema de formol, são comuns denúncias de falta de esterilização. Nos reunimos e pensamos o que poderia ser feito. O problema de higienização e esterilização vamos editar uma RDC (Resolução da Diretoria Colegiada). E quanto ao formol? Tem uma RDC de 2009, mas ainda é usado. A pesquisa teve como objetivo verificar se as denúncias recebidas eram vistas pelos profissionais e depois vamos fazer ações de conscientização, principalmente, para os cabeleireiros”, acrescenta a especialista da Anvisa.
Fiscais não dão conta da demanda
Em uma média diária, pelo menos um salão de beleza foi fiscalizado pela Vigilância Sanitária do Distrito Federal em 2018. Ao todo, foram apenas 411 estabelecimentos vistoriados. O número diminuiu 62% quando comparado com 2017, quando mais de mil receberam a fiscalização.
Manoel Silva Neto, diretor da Vigilância Sanitária, reconhece que a quantidade de vistorias é baixa, tendo em vista que o DF possui cerca de 18 mil salões – apenas os regularizados, sem contar os que vivem na informalidade.
Segundo ele, existem aproximadamente 100 fiscais responsáveis por todas as fiscalizações: bares, restaurantes, consultórios, salões. “Nosso efetivo é pequeno e não faz o monitoramento necessário. O ideal seria se trabalhássemos com a prevenção, mas muita das vezes dependemos de denúncias para saber o que acontece em cada salão. Só que o formol não é o único objetivo. É sempre todo o conjunto da obra”, comenta.
Após a denúncia, fiscais da Vigilância se deslocam até o estabelecimento. No local, aproveitam para fazer uma vistoria completa, olham todo o processo de trabalho, se o dono possui treinamento, checam os equipamentos que precisam de esterilização. “Falamos sobre tudo isso para que eles possam entender qual é a atividade que exercem e quais são riscos de saúde que podem levar para a população e para eles mesmos”, esclarece o diretor.
Autuação
Caso seja constatada alguma irregularidade, a vigilância autua o salão. O proprietário recebe um auto de infração e entra com um processo para a ampla defesa. Ao final, se for a primeira infração, o auto se converte em advertência; se for reincidente, pode receber multa – mínima de R$ 2 mil e R$ 1,5 milhão – ou ser interditado. Esse último caso somente se aplica quando são identificados “grandes problemas”, segundo o órgão.
Ponto de Vista
O dermatologista Eduardo Henrique Kouzak explica que os danos provocados pelo formol podem se restringir ou não à pele. “Pode manifestar irritação no couro cabeludo, vermelhidão, dor, ardor, coceira, feridas. Assim como há também outros danos que não envolvem o contato com a pele: ardência nos olhos, dor de cabeça, coriza. Como o formol é muito usado com aquecimento, pela chapinha, ele fica volátil e é prejudicial para as vias aéreas. Em alguns casos mais graves pode causar até câncer nas vias aéreas”, esclarece o profissional do Hospital Santa Helena.
As reações mais comuns são as menos graves. Kouzak informa ainda que não se tratam de reações alérgicas, mas é chamado de “dermatite de contato por um irritante primário”. “Ou seja, a pessoa não precisa ser alérgica ao formol para manifestar os sintomas”, aponta.
Para quem perceber os sintomas, a recomendação é de interromper o uso imediatamente e procurar um dermatologista. “Se não tiver a disponibilidade para conseguir um especialista tão rápido, tem que se dirigir ao pronto-socorro para ser orientado”, acrescenta.
Ele recomenda um teste prévio para detectar uma possível alergia.
Como Denunciar
Na Vigilância Sanitária, a denúncia pode ser feita na ouvidoria pelos telefones 160 ou 162, ou pela site www.ouv.df.gov.br. O atendimento é feito de segunda a sexta, de 7h às 21h, e aos fins de semana das 8h às 18h.
Na Anvisa, o denunciante pode ligar no telefone 0800 642 9782 ou registrar a denúncia pelo portal da Anvisa: www.portal.anvisa.gov.br/ouvidoria.