Para quem quer alcançar os sonhos não existem limites, nem mesmo o tempo. Com 78 anos de idade, viúva há 26 anos, e sete filhos criados, Orozina Marques é testemunha disso. Ela é a mais velha da turma na escola pública do Núcleo Rural Boa Esperança, área incluída nos limites do Parque Nacional de Brasília, que abriga alunos de todas as idades e diferentes histórias de vida, para serem alfabetizados.
Orozina sempre mostrou interesse em aprender, mas com as dificuldades da vida na fazenda, só pode abraçar a oportunidade de estar em sala de aula na terceira idade. “Quero ser uma pessoa bem informada e nunca é tarde”, confessa a senhora de baixo porte, mas com esperança e coragem de sobra. “As pessoas têm que ter coragem para aprender a qualquer hora, e aprender cada vez mais”, disse.
Obstáculos que apareceram desde cedo não impediram a sertaneja de realizar o sonho de ser alguém. Moradora em uma fazenda distante quando menina, Ozorina fez o que pode para receber os estudos tão desejados, mas não conseguiu concluí-los. “Quando novinha, eu andava mais de seis quilômetros para chegar ao colégio. Quando eu tinha 11 anos, meu pai faleceu e tive que parar os estudos. Depois de tanto suplicar para a minha mãe, ela deixou eu ir aprender com a minha madrinha. Tinha que ir a cavalo até a casa dela. Mas isso durou só uns seis meses”, recordou.
Histórias do fusca branco
Sem a alfabetização completa, Orozina trabalhou 30 anos vendendo produtos de produção própria em feiras na Região Metropolitana do DF. As verduras e as frutas viajavam ao lado dela no mesmo fusca branco que ela usa até hoje. “Na verdade, eu troquei quatro vezes por versões mais novas, mas sempre usei o fusca branco. Sou conhecida até hoje pelo carro. Venho todos os dias à aula dirigindo o meu carro, e ainda dou carona a alguns colegas da turma”, contou.
Casada com Idelson José de Alcântara, também trabalhador do campo, Orozina virou dona de casa e incentivava os sete filhos a estudar, apesar da falta de estímulo do companheiro. “Meu marido não fazia questão, achava que se a gente não estudou filho nosso não precisava. Mas coloquei filhos meus até em internato de freira e seminário para estudarem”, recordou.
Falar com o filho pela WEB
Os sete filhos, 14 netos e dois bisnetos são para Orozina prova de que a terceira idade é a melhor, pois agora ela está colhendo os frutos de toda sua luta. “Eu acordava quatro horas da manhã para fazer café para a criançada, e levá-los ao ponto de ônibus para que fossem ao colégio, que ficava a uma hora distância. Tudo isso para que eles ficassem encaminhados como estão hoje, graças a Deus”, agradece Orozina, que abre um sorriso ao dizer com orgulho que têm filhos professores, na área de saúde e advogado.
Ao lembrar do filho mais velho, o único que não mora no DF, Orozina confessa o motivo para mudar de vida: “Tenho dificuldade para escrever, ainda mais na minha idade. Eu tremo muito. Mas no computador, não vou ter esse problema, vou poder falar de graça com o meu filho que mora em Rondônia”.