Prática proibida, o consumo de álcool está cada vez mais presente entre os menores de 18 anos. Estudos apontam que 82% dos adolescentes já consumiram bebida alcoólica pelo menos uma vez, e cerca de 11% experimentaram antes dos 12 anos. A pesquisa feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) alerta que o consumo está mais difundido entre as classes sociais mais altas. O Jornal de Brasília foi às ruas para ouvir os adolescentes do DF e encontrou muitos relatos de consumo precoce. Os pais, por outro lado, apontam que existe diálogo para evitar vícios.
O estudo constatou que um simples gole ou experimentação feita por menores de 12 anos aumenta em 60% as chances deles, quando adolescentes, consumirem álcool abusivamente.
“O contato da criança com bebidas pode não gerar apenas um adolescente que ocasionalmente fica de porre. Ela pode acabar adquirindo o padrão abusivo de consumo de álcool”, afirma Zila Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp. A pesquisa entrevistou 11 mil estudantes, de 789 escolas de todo o País.
Os pesquisadores conseguiram identificar o perfil de jovem mais propício ao consumo: “Ele é um menino rico, que estuda em escola privada e tem baixa percepção de punição; ou seja, os pais geralmente não fazem nada com o jovem quando ele bebe”, diz Zila.
Entre os estudantes de Ensino Médio, é comum ouvir respostas positivas em relação consumo de álcool. Muitos deles afirmam que são corriqueiras as festas regadas à bebida alcoólica.
“A gente bebe nas festas. Teoricamente, é errado, mas não vamos passar a adolescência sem fazer nada. É uma fase para experimentar as coisas e quase todo mundo faz isso”, disse Fabrícia (nome fictício), 16 anos, aluna do 2º ano. Para ela, beber ainda é um tabu entre os pais, mas nem toda a família desconhece o fato. “Meu irmão sabe. Com ele é mais fácil lidar, porque tenho diálogo. Meus pais são ‘quadrados’ em relação isso”, diz.
A discriminação contra quem não bebe acontece com pouca frequência, segundo Fernando (nome fictício), 16 anos. “Tem uns idiotas que ficam zoando, mas muita gente respeita caso um amigo não beba”, explicou. Muitas vezes, segundo os jovens, é necessário encontrar uma maneira para comprar a bebida, sem ser pego. “Tem lugar que não vende, então a gente precisa pedir para um amigo com barba ir lá e comprar”, brincou Augusto, amigo de Fernando.
De acordo com eles, as mães costumam ser mais conservadoras em relação ao tema, enquanto os pais dão mais liberdade. “Meu pai é de boa, mas minha mãe nem sempre. Uma vez apareci com a nota fiscal de uma cerveja e levei uma bronca dela”, disse Fernando.
Segundo o psicólogo Vanderlei Codo, da Universidade de Brasília, o consumo de álcool na adolescência está entre muitas outras experiências que os jovens têm contato cada vez mais cedo. “Isso é parte de um fenômeno universal.
O mesmo ocorre com a vida sexual, iniciada cada vez mais cedo”, explicou. O especialista defende que o diálogo entre pais e filhos deve ser aberto, para que não ocorra a vontade de experimentar qualquer tipo de droga. “Reprimir não adianta. Os pais devem conscientizar, explicar que o álcool é droga. A ciência já provou que as condutas repressivas têm efeito contrário”.
Por causa da malhação, os amigos João, Roberto e Felipe (nomes fictícios), ambos de 17 anos, pararam de beber. No entanto, eles afirmam categoricamente: “Todo mundo que a gente conhece bebe”. Para João, a influência dos amigos pesa bastante. “O cara que não bebe acaba começando. Tem amigos nossos que bebem todo dia”, disse.
Apesar de terem casos de alcoolismo na família, adolescentes ouvidos pela reportagem afirmam que não se sentem influenciados. “Tem um tio meu que passa vergonha por ser alcoólatra. Então, acho que não existe nenhum tipo de influência para que eu beba”, argumenta Fernando.
Diálogo
Para alguns pais, o diálogo é a atitude adequada a se tomar para que os filhos não passem dos limites quando se trata de álcool. Segundo o vigilante Armando Alves, pai de adolescentes de 15 e 17 anos, nunca houve um dia em que fosse necessária repreensão em relação ao consumo de bebida alcoólica, mas caso precisasse, lidaria com o problema conversando.
“Eu aconselharia para não fazer mais. Já conversei várias vezes, para não se envolverem com álcool e drogas. Quem tem filho adolescente corre esses riscos hoje em dia”, afirmou.
O bancário Salacial Martins acredita que a influência negativa vinda de casa pode ser determinante para que o adolescente se aproxime do álcool. “Eu bebo, mas é eventualmente. Acho que se eu ficasse bebendo todos os dias poderia ter mais problemas, mas sempre fui conversado e nenhuma das minhas filhas se envolveu cedo com isso”, contou o pai de três filhas.