Menu
Brasília

Álcool antes dos 18: ricos e com baixa percepção de punição

Arquivo Geral

14/05/2013 8h00

Prática proibida, o consumo de álcool está cada vez mais presente entre os menores de 18 anos. Estudos apontam que 82% dos adolescentes já consumiram bebida alcoólica pelo menos uma vez, e cerca de 11% experimentaram antes dos 12 anos. A pesquisa feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) alerta que o consumo está mais difundido entre as classes sociais mais altas. O Jornal de Brasília foi às ruas para ouvir os adolescentes do DF e encontrou muitos relatos de consumo precoce. Os pais, por outro lado, apontam que existe diálogo para evitar vícios.

 

O estudo  constatou que um simples gole ou experimentação  feita por menores de 12 anos aumenta em 60% as chances deles, quando adolescentes, consumirem álcool abusivamente. 

 

“O contato da criança   com bebidas  pode não gerar apenas um adolescente que ocasionalmente fica de porre. Ela pode acabar adquirindo o padrão abusivo de consumo de álcool”, afirma Zila Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp. A pesquisa entrevistou 11 mil estudantes, de 789 escolas de todo o País.

 

 

Os pesquisadores conseguiram identificar o perfil de jovem mais propício ao consumo: “Ele é um menino rico, que estuda em escola privada e tem baixa percepção de punição; ou seja, os pais geralmente não fazem nada com o jovem quando ele bebe”, diz Zila.

 

Entre os estudantes de Ensino Médio, é comum ouvir respostas positivas em relação consumo de álcool. Muitos deles afirmam que são corriqueiras  as festas regadas à bebida alcoólica.

 

“A gente bebe nas festas. Teoricamente, é errado, mas não vamos passar a adolescência sem fazer nada. É uma fase para experimentar as coisas e quase todo mundo faz isso”, disse Fabrícia (nome fictício), 16 anos, aluna do 2º ano. Para ela, beber ainda é um tabu entre os pais, mas nem toda a família desconhece o fato. “Meu irmão sabe. Com ele é mais fácil lidar, porque tenho diálogo. Meus pais são ‘quadrados’ em relação isso”, diz.

 

A discriminação contra quem não bebe acontece com pouca frequência, segundo Fernando (nome fictício), 16 anos. “Tem uns idiotas que ficam zoando, mas muita gente respeita caso um amigo não beba”, explicou. Muitas vezes, segundo os jovens, é necessário encontrar uma maneira para comprar a bebida, sem ser pego. “Tem lugar que não vende, então a gente precisa pedir para um amigo com barba ir lá e comprar”, brincou Augusto, amigo de Fernando.

 

De acordo com eles, as mães costumam ser mais conservadoras em relação ao tema, enquanto os pais dão mais liberdade. “Meu pai é de boa, mas minha mãe nem sempre. Uma vez apareci com a nota fiscal de uma cerveja  e levei uma bronca dela”, disse Fernando. 

 

Segundo o psicólogo Vanderlei Codo, da Universidade de Brasília, o consumo de álcool na adolescência está entre muitas outras experiências que os jovens têm contato cada vez mais cedo. “Isso é parte de um fenômeno universal.

 

 

O mesmo ocorre  com a vida sexual, iniciada cada vez mais cedo”, explicou. O especialista  defende que o diálogo entre pais e filhos deve ser aberto, para que não ocorra a vontade de experimentar qualquer tipo de droga. “Reprimir não adianta. Os pais devem conscientizar, explicar que o álcool é  droga. A ciência já provou que as condutas repressivas têm efeito contrário”.

 

 

Por causa da malhação, os amigos João, Roberto e Felipe (nomes fictícios), ambos de 17 anos, pararam de beber. No entanto, eles afirmam categoricamente: “Todo mundo que a gente conhece bebe”. Para João, a influência dos amigos pesa bastante. “O cara que não bebe acaba começando. Tem amigos nossos que bebem todo dia”, disse.

 

Apesar de terem casos de alcoolismo na família,   adolescentes ouvidos pela reportagem afirmam que não se sentem influenciados. “Tem um tio meu que passa vergonha por ser alcoólatra. Então, acho que não existe nenhum tipo de influência para que eu beba”, argumenta Fernando.

 

Diálogo

 

Para alguns pais, o diálogo é a atitude adequada a se tomar para que os filhos não   passem dos limites quando se trata de álcool.  Segundo o vigilante Armando Alves, pai de adolescentes de 15 e 17 anos, nunca houve um dia em que fosse necessária repreensão em relação ao consumo de bebida alcoólica, mas caso precisasse, lidaria com o problema conversando. 

 

“Eu aconselharia para não fazer mais. Já conversei várias vezes, para não se envolverem com álcool e drogas. Quem tem filho adolescente corre esses riscos hoje em dia”, afirmou.

 

 O bancário Salacial Martins acredita que a influência negativa vinda de casa pode ser determinante para que o adolescente se aproxime do álcool. “Eu bebo, mas é eventualmente. Acho que se eu ficasse bebendo todos os dias poderia ter mais problemas, mas sempre fui conversado e nenhuma das minhas filhas se envolveu cedo com isso”, contou o pai de três filhas.

 
 
Mesmo com o controle dos pais, há outros fatores que podem influenciar a entrada precoce do álcool na vida dos menores. “A propaganda de cerveja na televisão, mesmo não sendo direcionada à criança, influencia o consumo. Ela acaba se associando com atividades esportivas, coisas que o adolescente gosta”, afirma Edgard Rebouças, coordenador do Observatório da Mídia, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e conselheiro do Instituto Alana.
 
 
Segundo a Ambev, uma das maiores empresas de bebidas do mundo, o consumo  por menores é algo que a marca quer evitar. “Esse lucro não nos interessa. Fazemos de tudo para que essa relação do menor com a bebida não aconteça”, diz Ricardo Rolim, diretor de relações socioambientais da Ambev. Ele cita programas da empresa, como o Jovem Responsa, que, em parceria com 21 ONGs, já levou orientações  a mais de 57 mil jovens.
 
Outro problema é controlar a venda no comércio. Embora a venda a menores seja proibida, e o autor possa responder criminalmente, a comercialização ainda acontece. O Ministério Público do DF identificou estabelecimentos que descumpriam a lei, e assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com 55 deles. Os comerciantes se comprometeram a cumprir as normas.
 
 
 
Para Betânia Gomes, que pesquisou o tema na Universidade de São Paulo (USP), faltam políticas públicas mais efetivas sobre a questão. “Precisamos de mais iniciativas oficiais de promoção e campanhas educativas para que esses meninos e meninas não comecem a beber tão cedo”, diz a pesquisadora.
 
 
Prejuízos
 
 
 
Para a nutricionista Camila Leonel, o consumo precoce tem um impacto claro na saúde. “O álcool causa modificações neuroquímicas, com prejuízos na memória, aprendizado e controle dos impulsos. O sistema nervoso dos menores ainda está em desenvolvimento”. 
 
 
 
E para evitar o contato inicial com a bebida não basta apenas que os pais proíbam o acesso ao álcool, segundo Ilana Pinsky, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudo de Álcool e Drogas (Abead). “Se os pais têm o hábito de beber todos os dias para relaxar, por exemplo, não adianta conversar sobre como beber de forma responsável”.
 

 

 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado