Não é à toa que eles são conhecidos como “encantadores de cães”. Por meio de técnicas variadas, os adestradores caninos são capazes de reeducar o mais indisciplinado dos cachorros em semanas, ensinando-o a respeitar seus donos, urinar no lugar certo, não destruir os móveis ou não pular nas visitas. O serviço não é barato, mas quem já contratou garante que cada centavo investido vale a pena.
Responsável pelo condicionamento de mais de 200 cães desde 2010 – quando deixou o emprego em um ministério para viver exclusivamente do trabalho com os animais –, Ubiratan Júnior é contra o adestramento que ensina a rolar, deitar e fingir de morto e prega a ressocialização por meio do exemplo, como se faz com as crianças. Para isso, insere os cães à matilha, se coloca como o líder do bando e ganha o respeito dos animais.
Sociedade
O educador canino e gestor ambiental, de 36 anos, explica que os cães vivem em sociedade, como nós, condição que deve ser respeitada. “Nós não recebemos um pedaço de carne toda vez que fazemos algo bom, como parar em uma faixa de pedestres, por exemplo. Nossas atitudes são reflexo da nossa criação. Com os cães é a mesma coisa. Eles não devem ser penalizados ou premiados quando fazem o que é certo, precisam apenas entender quem está no comando. No caso, o dono”, diz.
Como não utiliza técnicas de adestramento, o profissional usa cães monitores – com os quais já trabalha – para reeducar animais bagunceiros, agressivos e traumatizados.
Segundo o adestrador, o primeiro passo para a ressocialização canina é ouvir as queixas dos donos, conhecer o ambiente em que o animal vive e saber quais atividades ele desenvolve diariamente. “A partir daí procuro identificar o que está levando o cão a agir daquela forma e trabalho isso”, conta.
SEM PAPO
Para Ubiratan, um dos maiores erros dos donos é querer tratar os animais como humanos. “Desde que o homem adestrou o lobo, há centenas de anos, só se reportava a ele para dar ordens. Por esse motivo, não é aconselhável que conversemos com os cães. Isso faz com que eles fiquem dispersos e bagunceiros, quando na verdade querem apenas nos impressionar”, garante.
O adestrador confirma que os cães necessitam de espaço e liberdade. “Não gosto de coleiras. Eles precisam estar em contato com seus instintos, com a natureza, colocar as patas na terra mesmo”, diz.
Adestramento inteligente – O método é baseado basicamente em reforços positivos, valorizando as atitudes corretas do cão. O método não admite nenhum tipo de violência – como esfregar o focinho do cão no xixi, quando ele se alivia em locais proibidos. Além de serem reprováveis, ações negativas não fazem com que o cão mude de postura. As recompensas, por outro lado, estimulam o aprendizado.
Vantagens para o animal – O bicho de estimação assimila os ensinamentos mais rápido e tem prazer em obedecer. O método pode ser aplicado a partir de cinquenta dias de vida do cão e não há limite de idade para a iniciação.
Vantagens para o dono – Ao colocar o método em prática, o proprietário do bichinho deixa de lado o uso da agressividade e imposição do medo ao se relacionar com seu animal de estimação.
Casa ou apartamento?
Segundo o adestrador Ubiratan Júnior, uma área grande não é garantia de felicidade. “Os cães de apartamento costumam ser mais felizes do que os que vivem em chácaras ou casas. Isso porque o espaço reduzido os aproxima dos donos, o que lhes proporciona a alegria plena. Além disso, quem vive em apartamento precisa levar o animal para passear, o que faz com que dono e cão tenham alguns minutos de intimidade garantidos”, afirma. Mas só atividades físicas não bastam. “Os cachorros têm que ser estimulados por meio de brincadeiras para entender a hora de esperar, de pegar, de correr, assim como o momento certo de comer, brincar e descansar”, conclui.
Donos e “filhos” bem treinados
A servidora pública Aline Machado, de 34 anos, enumera as mudanças de comportamento de sua cadela após o adestramento. “Antes, a Joly bagunçava a casa inteira e era desobediente na hora de sair. Mas bastaram oito aulas com o Ubiratan para tudo mudar. Segui à risca os ensinamentos dele e o comportamento da Joly melhorou consideravelmente”, observa.
Segundo Aline, após o adestramento, os passeios com a cadela têm sido mais frequentes e a proximidade entre elas aumentou. “Só não consigo seguir a recomendação de não conversar”, brinca.
Trauma
Antônio César Barbosa, professor, de 38 anos, também procurou ajuda profissional. “Tive um cachorro muito bagunceiro antes do Zeus. Ele latia e rosnava, apesar de nunca ter mordido ninguém. Até que um dia acordei e quando fui ver ele estava morto. Descobrimos que ele havia comido um bife de carne envenenado, que eu acredito ter sido dado por algum vizinho que se sentia incomodado”, lamenta.
Traumatizado, Antônio ficou um bom tempo sem querer saber de cachorros. Três anos após a morte do animal, no entanto, o professor resolveu adotar um novo cão.
“Assim que Zeus deu os primeiros sinais de rebeldia, contratei um profissional. Tinha medo que acontecesse com ele o que aconteceu com o outro cachorro. E foi a melhor coisa que eu fiz. O educador fez com que Zeus ficasse mais sociável, ele não estranha as pessoas nem precisa mais andar na coleira. Foi fantástico!”, comemora.
Antônio acredita que a ressocialização só deu certo porque ele também foi ‘adestrado’. “Eu também fui reeducado. Após o adestramento percebi que não sabia cuidar de um animal de estimação. Era mole demais e eles faziam o que queriam comigo”, admite.
Pelo prazer de obedecer
O adestrador Lucas von Glehn Duty, 28 anos, especialista em comportamento canino, tem uma visão diferente sobre os métodos de adestramento. “É necessário ensinar alguns comandos como “senta” e “fica”. Para isso, uso a metodologia do reforço positivo, que incentiva o cachorro a adotar uma postura correta, e o melhor, por prazer. Já no método do reforço negativo, o cão obedece com medo, por entender que existe uma relação de submissão entre ele e o dono”, explica.
Durante o trabalho de reeducação dos cães, Duty analisa o comportamento dos animais junto às famílias e determina o que precisa ser mudado. “Muitos adestradores fazem o condicionamento e devolvem os cães a seus donos. Mas eu os educo junto a seus donos, porque eles também fazem parte da matilha. Minha aula não dura mais de dois dias. Depois os proprietários desempenham os ensinamentos sozinhos e me ligam se precisarem”, afirma.
Segundo o adestrador, muitas pessoas procuram ajuda profissional por não querer trabalho extra. “Muita gente busca o serviço para que o adestrador resolva os problemas disciplinares, mas não é bem assim que funciona. Os donos precisam participar do processo, uma vez que eles é que estarão sempre em contato com o animal”, reforça Lucas von Glehn Duty.
Manias podem ser superadas
A bióloga Paula Moreira Felix, 41 anos, contratou os serviços de adestramento. “A Lola destruía móveis, estava tendo problemas de relacionamento com o gato e urinando e defecando fora do local correto. Agora, ela é outra. Parou de destruir as coisas, e como já sabemos que se ficar muito tempo sozinha revira a casa, oferecemos alternativas para ela gastar energia”, conta.
Paula diz que o adestrador foi até a casa e reuniu toda a família para o trabalho. “Ele observou nossos erros para ensinar como proceder. Lucas deixa tudo muito claro, então quando não dá certo é porque estamos fazendo algo errado”, conclui.
BPCÃES
O BPCães, grupamento da PM especializado em operações com cachorros, é a prova de que com o treinamento adequado os cães podem ser os maiores aliados do homem. Cerca de 60 pastores alemães, belgas e rottweilers são utilizados para fins como faro de drogas e explosivos e captura de foragidos.
De acordo com o major Escobar, antes de nascer os cães já recebem estímulos. “A estimulação temprana aguça os instintos ainda no útero da cadela”, explica. Depois, os cães são direcionados, conforme suas aptidões, para diferentes setores. “Priorizamos o bem-estar deles. Todos os dias eles têm atividades físicas e estímulos compatíveis com as atividades que exercem”, diz.
SERVIÇO
Ubiratan Júnior trabalha com socialização, reabilitação e caminhadas para cães por meio de um pacote fechado, com 20 aulas diárias. Quem quiser contratar os serviços pode ligar para (61) 8177-8792 ou enviar um e-mail para biradogwalker@gmail.com. No blog biradogwalker.blogspot.com, o adestrador também dá dicas de condicionamento e liderança.
Lucas Duty trabalha com adestramento e é especialista em comportamento canino. O valor do serviço é passado após solicitação via e-mail. Mais informações no site www.meuamigolucas.com.br ou pelo telefone (61) 8482-1922.
Ao contratar o serviço de adestramento de cães em Brasília, é bom preparar o bolso. O valor do trabalho na capital varia entre R$ 800 e R$ 1,5 mil.