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Brasília

Acidente com transporte pirata não serviu de alerta

Arquivo Geral

05/11/2014 7h40

A possibilidade de ser   flagrado   e, consequentemente, pagar  multa de   R$ 85 e ter  o   veículo retido não assusta os motoristas de transporte pirata. Em todo o ano passado foram registrados 1,5 mil autos de infração desta natureza. Neste ano, já foram emitidos outros 588. Mas a vulnerabilidade deste tipo de serviço coloca os passageiros em risco. O  caso da van que tombou no Eixo Monumental há dois dias é um exemplo.

Cerca de 20 pessoas se feriram no acidente. De acordo com passageiros, o veículo – com capacidade para 15 pessoas – estava superlotado. Assim como alguns passageiros, o motorista   foi encaminhado em estado grave para o Hospital de Base. A Polícia Civil informou que ainda não possui, no entanto, informações sobre o processo que ele deve responder pela ocorrência de transporte pirata.

Flagrantes

A qualquer hora do dia é possível encontrar vans e carros populares fazendo transporte pirata na Rodoviária do Plano Piloto. Motoristas e cobradores se concentram, sobretudo, na plataforma superior e gritam, sem nenhum pudor, destinos e valores das corridas. Na parte inferior, próximo ao Conjunto Nacional, também não é difícil achá-los. Muitos deles também gritam a palavra “enche”, uma indicação de que ainda há vagas no veículo. 

“Pegar ônibus da Rodoviária é complicado. Ou eles estão superlotados, ou atrasados. Diante disso, os piratas acabam se tornando uma opção. Eu já peguei carro pirata indo para uma entrevista. Não podia perder uma oportunidade de emprego em função de problemas com o transporte público”, comenta Juliana Santana, secretária, de 24 anos.  

Horários

No Setor de Indústrias Gráficas (SIG) e no Setor de Indústrias e Abastecimento (SIA), os piratas atuam, principalmente, nos horários de entrada e saída dos trabalhadores, entre 7h e 8h30 e entre 17h e 19h. E no Guará I e II, no horário de almoço e fim da tarde, das 17h às 19h. 

Usuários relatam experiências
 
Um passageiro que preferiu não se identificar  diz já ter visto até ônibus piratas adesivados como os legalizados. “Achei que fosse um ônibus comum, mas quando entrei não tinha leitora de cartão, só aceitava dinheiro e também não tinha cordinha para indicar a parada em que eu queria descer. Foi então que me toquei que estava em um ônibus irregular”, lembra. 
 
Para a autônoma Sh eila Cunha, 46, a ineficiência do transporte público obriga os usuários a usarem  o   irregular. “Eu nunca tive coragem”, diz. O garçom Paulo César Silva,   48, também tem medo de utilizar transporte pirata. “Meu medo não é de assalto, porque a isso estamos sujeitos em qualquer lugar. Mas a gente não sabe quem está dirigindo, como dirige, é muito arriscado”, afirma.
 
Versão oficial
 
Procurado, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) esclareceu que a Diretoria de Policiamento e Fiscalização do órgão não faz operações específicas para fiscalização de transporte irregular, uma vez que esta função é do DFTrans. “No entanto, quando os condutores são flagrados  efetuando transporte remunerado de pessoas ou bens, sem autorização do DFTrans, são autuados conforme dispõe o artigo 231, VIII, CTB”. O DFTrans, por sua vez, não se manifestou sobre o assunto até o fechamento desta edição. Questionada sobre os motivos que teriam levado a uma diminuição no número de autuações por transporte pirata, a Secretaria de Transportes também não se manifestou.
 
Ponto de vista
 
Na avaliação do professor de Epidemiologia de Acidentes do Trânsito da Universidade de Brasília (UnB)  David Duarte Lima, o transporte pirata continua frequente no Distrito Federal devido à precariedade do atual transporte público. “Ele é péssimo, sem conforto para os passageiros, qualidade, segurança, pontualidade ou frequência. O sonho de todos é poder fugir dos ônibus que rodam aqui, seja comprando um carro ou usando o transporte pirata. Enquanto ele continuar do jeito que está, dará oportunidade para os piratas atuarem”, pontuou Lima. O professor também destaca a fiscalização reduzida. “A fiscalização é no mínimo precária, e isso possibilita um negócio extra para os piratas. Não tem fiscalização para tantos e continuamos no caos de hoje”, alertou.

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