Vinícius Borba
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Uma ação de interação comunitária da Força Nacional (FN) de Segurança em Luziânia (GO) trouxe à tona o debate sobre a exposição de armas a crianças. Durante o evento de encerramento de uma colônia de férias, que reuniu mais de mil crianças e adolescentes ao longo do dia de ontem, um dos estandes de exposição da FN permitia o manuseio por parte de crianças e adolescentes de fuzis e até lançadores de granadas.
O Jornal de Brasília flagrou o interesse dos menores e, inclusive, a disposição de militares em permitir que os jovens manuseassem as armas, mostrando os tipos de munição e como fazer a pontaria. “Pode pegar”, chegavam a incentivar alguns militares. O estande foi o mais procurado da exposição.
Para especialistas em desenvolvimento infantil, como a doutora em Psicologia e Desenvolvimento Familiar pela Universidade de Brasília (UnB), Lídia Weber, incentivo negativo para os pequenos pode representar risco ainda maior para a memória e constituição da personalidade de crianças de áreas marcada pela violência, como é o caso de Luziânia. O município, na Região Metropolitana do DF, detém um dos maiores índices de homicídios do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
A ação ocorre no momento em que o Governo Federal encabeça inúmeras campanhas pelo desarmamento e que há uma mobilização para que crianças e adolescentes não tenham acesso a brinquedos que remetam à violência, como é o caso das armas.
Responsáveis pela iniciativa admitem a possibilidade de cortar ações dessa natureza das atividades comunitárias realizadas pela Força Nacional na região. Para o responsável pela realização do projeto, capitão bombeiro Paulo José Anselmo, o estande teve apenas a intenção de mostrar os equipamentos utilizados pela Força aos jovens participantes.
“Nossa intenção não foi negativa em momento algum, nem pensamos que poderia tomar essa conotação. Foi apenas de expôr o que a FN faz e seus equipamentos”, disse. Apesar disso, o capitão assume que pode repensar se voltará a levar exposições desta natureza ao público.
Atividades
O evento público de encerramento da colônia de férias pelo Projeto Força na Comunidade teve ainda várias atividades realizadas por agentes, bombeiros, PMs e policiais civis da Força Nacional. Foram realizadas atividades esportivas, de lazer e palestras sobre drogas e cidadania, consideradas bem mais adequadas para a ocasião por especialistas.
Para a doutora em Psicologia e Desenvolvimento Familiar pela Universidade de Brasília (UnB), Lídia Weber, a realização de uma exposição de armamento pesado durante um dia inteiro para inúmeras crianças pode ter um impacto negativo em seu desenvolvimento de personalidade.
Segundo ela, duas das principais formas de aprendizagem de uma criança são por imitação e modelo. “Crianças aprendem muito imitando os adultos. Outra é o modelo, ilustrado pela famosa frase ‘faça o que digo, não faça o que faço’”, disse.
“Numa realidade como a que estas crianças vivem, isso fica delicado, pois a arma é trazida como o objeto que resolve os problemas, contra as ameaças. Mais positivo seria se apresentassem iniciativas boas”, afirmou a doutora.
A Força Nacional foi requisitada para atuação na Região Metropolitana do DF pela terceira vez e retomou as atividades em novembro de 2011. Segundo o Ministério da Justiça, no último período de ação dos policiais, entre abril e outubro do ano passado, houve redução de 49% no número de homicídios na área. Nesta nova etapa o número de agentes na região será triplicado, segundo o comandante Alexandre Aragon. Incluindo novos projetos de integração comunitária.