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Brasília

Abalada após ataque nos EUA, comunidade gay do DF relata discriminação

Arquivo Geral

14/06/2016 6h00

Atualizada 15/06/2016 16h17

Kleber Lima

Altieres Losan
Especial para o Jornal de Brasília

“A homofobia existe em todos os lugares e momentos”. A frase de uma militante LGBT do Distrito Federal retrata a insegurança que a comunidade enfrenta. No domingo, mais de 50 pessoas foram brutalmente assassinadas em uma boate gay em Orlando, na Flórida. Por aqui, pelo menos seis mortes registradas no ano passado acendem o alerta para a intolerância.

A dona da frase é Joana Darc Melo, presidente do Grupo LGBT Integração do Recanto das Emas. Para ela, o DF não está no topo dos lugares com mais preconceito, mas também possui outras formas de fobia. “Há casos mais velados, onde a pessoa deixa de ocupar vagas de emprego, por exemplo, e tem violência mesmo. Já tivemos casos no Parque da Cidade, em shoppings, gays expulsos de restaurantes. Acontece”, diz.

Para a militante, o caso ocorrido em Orlando foi uma “brutalidade impensável” e que acaba batendo de frente com todos os direitos conquistados: “Apesar dos avanços, como as questões de adoção, casamento, a gente ainda se depara com casos extremos. É um paradoxo”.

Opressão

“Eu tento viver normalmente, porque é até uma forma de ativismo. Você não se sentir oprimido, não ficar escondido, é uma forma de ativismo”, afirma Kellvyn Fonseca. Para o estudante de 24 anos, a homofobia geralmente começa na própria família. “Eu não sofri tanto com isso em casa, mas tenho muitos amigos que apanharam e foram até expulsos”, revela.

Quando está na rua, ele diz não se intimidar. Faz demonstrações de afeto com o parceiro, com quem namora há dois anos. Ele afirma que não tem as atitudes tolhidas porque “viver sem medo é revolucionário”, porém, com as circunstâncias, ele não se sente mais tão seguro. “A gente sabe que está sujeito a qualquer coisa. Não só em Brasília, mas o gay só é bem tratado quando vive em um padrão hétero normativo”, lamenta.

Já Ana Kamilla de Oliveira, estagiária de 23 anos, não se sente tão confiante. Ela tem uma parceira há dez meses e conta que os seguidos ataques e manifestações homofóbicas fizeram com que ela diminuísse o afeto público com a namorada. “Antigamente, a gente se sentia mais à vontade, mas hoje nem andamos mais de mãos dadas. Na rua, somos só amigas”, conta.

Ana mora em Brasília há três anos e diz que no Plano Piloto as pessoas são mais acolhedoras: “Elas não te olham torto”. Nas demais cidades “o negócio é mais feio, principalmente em shoppings e locais do tipo”. Há pouco tempo, ela passou por discriminação no trabalho por conta da orientação sexual: “Descobriram que eu era lésbica e espalharam. Era meu último dia e, quando fui despedir, as mulheres me trataram com total frieza, como se eu tivesse alguma doença contagiosa. Foi horrível”.

Relatório aponta seis mortes no DF

A Secretaria de Segurança não tem dados sobre crimes contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Esses delitos são enquadrados a depender da situação, como difamação ou agressão, sem que a sexualidade da vítima seja apontada. Apesar disso, o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil de 2015, realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), indica que o DF tem uma média superior à nacional: são registrados 2,1 assassinatos para cada um milhão de habitantes, enquanto a taxa do Brasil é de 1,5.

O levantamento mostra que a LGBTfobia matou pelo menos seis pessoas na capital no ano passado: um gay, duas lésbicas e três transexuais – a maioria por arma de fogo. O último Relatório Sobre Violência Homofóbica no Brasil da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República é de 2012 e coloca Brasília como a capital com mais denúncias de agressões. Na época, houve 239 queixas de violência homofóbica no DF.

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Ponto de vista

“Demonstração de afeto é normal, mas deve-se ter bom senso. Não dá para as pessoas abusarem. Mesmo um casal hétero deve ter respeito em público. É respeitar para ser respeitado”, assegura Mari Serra, vice-presidente da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas. Para ela, a melhor forma de vencer o ódio é com amor. “Todo mundo tem família e deve ser respeitado. É importante também se informar antes de formar opiniões”, recomenda. A militante acredita que a visibilidade LGBT é importante, “mas a exposição nem sempre é prudente, porque essas pessoas podem estar sujeitas à violência”.

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“A transfobia é constante”, revela a travesti Aria Rita, 19. “Tenho sido perseguida por uma pastora que mora perto da minha casa. Por conta de coisas assim, estou bem apreensiva de andar na rua”, confessa.

“Isso mexe com a gente de forma muito íntima”, diz, em relação ao atentado de Orlando. “Meus amigos e eu frequentamos muitas festas. É difícil não imaginar que poderia ter sido com a gente”, continua. Para ela, o atentado chocou, “mas, no Brasil, quase todo dia tem notícia de travestis assassinadas”.

Saiba mais

No ano passado, foi arquivado o Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que tinha por objetivo criminalizar a homofobia, equiparando-a a outros preconceitos que já são considerados crimes em lei específica, como raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A chamada “lei anti-homofobia” foi engavetada após oito anos no Senado, sem aprovação.

Denúncias podem ser feitas pelo Whatsapp. O projeto Plurais, feito pela ONG brasiliense Palco e financiado pelo Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, dispõe o número 99371-4879 para este fim.

Com 400 membros LGBT, a Abrafh foi criada pela necessidade de troca de experiências de pessoas que têm filhos ou que pretendem tê-los e pela busca por direitos e proteção dessas crianças. O site é www.abrafh.org.br.

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