Segundo dados inéditos do Censo Demográfico 2022, divulgados no dia 11 de julho, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1.102.590 pessoas vivem atualmente em Áreas de Proteção Ambiental (APAs) no DF — o equivalente a 39,2% da população. Essa é a maior taxa entre todas as unidades da federação.
As três APAs mais populosas da capital são: APA do Planalto Central – 564.867 pessoas. APA da Bacia do Rio São Bartolomeu – 360.760 pessoas. APA do Lago Paranoá – 118.601 pessoas. No total, o Distrito Federal abriga 36 Unidades de Conservação (UC) que incluem ainda zonas de relevante interesse ecológico (com 13.702 moradores) e reservas biológicas (com 368). O levantamento aponta que 91,2% das pessoas residentes em UCs vivem em áreas urbanas, e 8,8% em áreas rurais.
Em relação ao perfil populacional, 52,1% se declararam pardos, seguidos por brancos (35,4%) e pretos (11,8%). A alfabetização atinge 96,2% da população residente em UCs, pouco abaixo da média geral do DF (97,2%). A maioria das pessoas tem mais de 30 anos, com ligeira predominância de mulheres (50,8%) sobre os homens (49,2%).
Nas moradias, os dados também revelam contrastes. Embora 97,7% dos domicílios em UCs tenham acesso à água canalizada e 99,8% possuam banheiro exclusivo, a taxa de esgotamento inadequado chega a 13,4%, mais que o dobro da média geral do DF (5,9%).
Em 2022, o Brasil registrou 11,8 milhões de habitantes vivendo em domicílios situados em áreas de unidades de conservação, o que corresponde a 5,8% da população total do país. Essas áreas são legalmente protegidas e se dividem em categorias de proteção integral e uso sustentável.
“O acesso ao saneamento básico adequado é um elemento fundamental da qualidade de vida e da qualidade ambiental. Constatamos percentuais mais elevados de inadequação do saneamento em domicílios dentro de UCs, o que pode implicar em maiores riscos de contaminação e degradação ambiental, justamente em áreas criadas com objetivo de garantia do direito ao meio ambiente equilibrado”, explica Fernando Damasco, gerente de Territórios Tradicionais e Áreas Protegidas do IBGE.
Entre a mata e o asfalto
A realidade por trás dos números se revela nos caminhos de terra e nascentes do Park Way, uma das regiões administrativas inseridas dentro da APA Gama-Cabeça de Veado — área crucial para a recarga do Lago Paranoá, um dos principais reservatórios hídricos da capital.
A moradora Gilma Ferreira, de 55 anos, vive no bairro há quase duas décadas e conhece de perto o desafio de morar em uma área ambientalmente sensível. “Morar numa APA é um privilégio, mas também uma grande responsabilidade. Estamos cercados por Cerrado nativo e nascentes, mas também por ocupações irregulares que ameaçam tudo isso”, afirma.
Gilma relata o crescimento desordenado de invasões nas quadras 14 a 26 do Park Way. Segundo ela, áreas que deveriam estar intocadas por lei estão sendo loteadas de forma clandestina, muitas vezes à beira de córregos e áreas de recarga hídrica. “Essas invasões antigas, algumas com mais de 30 anos, se consolidaram à margem da legalidade, sem infraestrutura, lançando esgoto direto no solo”, denuncia.
“Ocupações em áreas protegidas fragilizam a todos”, alerta especialista
Para o professor Reuber Brandão, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), e membro da Rede Biota Cerrado, o crescimento populacional dentro das APAs revela uma crise mais profunda de gestão territorial.“Atribuir às APAs a função de ordenar o crescimento urbano é uma distorção. Essas áreas foram criadas para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, como o abastecimento de água. Quando o poder público é omisso, o território vira alvo de especulação”, explica.
Segundo ele, a ocupação sem planejamento pressiona o meio ambiente e cria riscos sociais. “É o pior dos mundos. As pessoas vivem em áreas ambientalmente frágeis, sem infraestrutura digna, enquanto a natureza sofre impactos irreversíveis. Isso não é justiça territorial. É fragilidade institucional”, aponta o professor.
Comércio improvisado e ausência do Estado

Outra preocupação crescente no Park Way é o surgimento de comércio informal em beiras de estrada e acessos às quadras. Barracas de pamonha, marmitas, frutas e até roupas surgem onde antes havia apenas vegetação. “É comércio sem licença, sem fiscalização, e que atrai lixo, fumaça e aglomeração. Isso acontece porque o bairro não tem um comércio planejado e sustentável”, explica Gilma. A moradora defende que a solução não está apenas na repressão, mas no planejamento com base na realidade local. “O Park Way precisa sair da omissão. É preciso implantar comércio de pequeno porte, com regras ambientais claras, integrado à paisagem e com estrutura ecológica. E mais: é necessário escutar quem cuida dessa terra — e não quem a explora”, afirma.
O que pode ser feito?

Brandão lembra que, dentro do arcabouço legal, é possível pensar em formas sustentáveis de convivência nas APAs. “A Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) permite usos compatíveis dentro das APAs, desde que respeitado o zoneamento. Mas, para isso funcionar, é essencial fortalecer os órgãos ambientais, garantir planos de manejo atualizados e impedir interferências políticas na gestão”, aponta.
Ele reforça que aumentar o número de moradores nessas áreas vai na contramão da sustentabilidade. “Quanto mais pessoas ocupando uma UC, mais difícil é protegê-la. A sustentabilidade depende do controle de uso e da tecnologia de exploração. Se o modelo for adensar e deixar a natureza pagar a conta, perderemos tudo.”
Para Gilma, o Park Way ainda pode ser um exemplo: “O que falta é coragem para planejar com responsabilidade. Se o poder público ouvir quem realmente cuida das APAs, ainda há esperança. Mas, se continuar como está, vamos perder o pouco Cerrado que ainda temos”.