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Brasília

A greve da Saúde e o sofrimento nas UPAs

Arquivo Geral

18/01/2015 9h00

Com os médicos de braços cruzados desde sexta-feira, mais uma vez, quem sofre é a população. Nas seis Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) do Distrito Federal, os enfermeiros é que estavam fazendo o diagnóstico dos pacientes. Somente os chamados “casos gravíssimos” têm atendimento médico. Em alguns locais, já na entrada, os seguranças avisam que é melhor desistir, pois os clínicos não estão atendendo. 

 “Já fomos a três UPAs. No Núcleo Bandeirante, por exemplo, não tem nem enfermeiro. Minha mulher acordou com dor no estômago, vômito e chegou até a desmaiar. A enfermeira daqui de Samambaia me passou o telefone de outras unidades, mas ela mesma avisou que provavelmente a gente não consegue atendimento hoje. Ou seja, o jeito é contar com um milagre”, desabafou o motorista Cival Melo,   32 anos. Ele estava carregando a esposa, Maria Ourinete, que mal conseguia andar de dor. 

O agente de bagagem Felipe Bras, de 25 anos, não ficou na UPA nem por cinco minutos. Assim que foi informado sobre a situação,   desistiu. “A secretária está avisando que casos como o meu não serão atendidos porque não são graves. O que eu vou ficar fazendo aqui? Vou embora”, disse. O rapaz estava com o pescoço imobilizado, pois havia se acidentado no trabalho. “Não posso me medicar sozinho”, reclamou. 

CONVULSÕES

 Maria Cândida dos Santos, 57 anos, chegou sexta-feira à casa da filha, no Recanto das Emas, com a esperança de conseguir no DF atendimento para o filho, José Júnior de Almeida, 33 anos, que vinha  tendo convulsões. Ela mora no interior de Minas Gerais.

 “A gente acredita que as coisas deviam ser melhores na capital do País, né? Já fomos ao HUB e à UPA do Núcleo Bandeirante. Aqui, no Recanto, ele só foi atendido agora porque desmaiou”, criticou a auxiliar de serviços domésticos. 

 A irmã do rapaz, Euslane de Almeida,   destacou que apesar de José   ter sido atendido por volta das 11h, foi somente às 13h30 que o médico chegou ao local. “A verdade é que o governo faz o que quer das nossas vidas. Se essa situação não for resolvida logo, muita gente vai morrer”, afirmou.

Versão Oficial

Em resposta, a Secretaria de Saúde do DF afirmou que “em uma avaliação inicial, podemos informar que apenas os serviços de urgência e emergência deveriam funcionar, como orientou o próprio sindicato”. Quanto à escala dos profissionais, a pasta afirmou ainda que “houve abandono da realização de horas extras por diversas categorias, provocando, assim, a redução de número de usuários em cada plantão”. A secretaria disse ainda que reconhece que é legitimo o direito de greve dos servidores. No entanto, “entende também que os serviços prestados pela pasta são essenciais e devem ser ininterruptos”. Desta forma, “enquanto negocia com os sindicatos, a secretaria espera que os servidores voltem ao trabalho de forma a não prejudicar os cidadãos brasilienses”.

Governador apela ao “bom senso”

A equipe de reportagem do Jornal de Brasília foi ainda à UPA de Ceilândia, onde a própria segurança do local avisou: “Estamos praticamente parados”. Apenas três pessoas, acompanhantes de pacientes, estavam na unidade. Ontem, durante agenda externa, o governador Rodrigo Rollemberg pediu “bom senso” aos médicos, diante da crise financeira. 

 De acordo com o presidente do SindMédico, Gutemberg Fialho, a ausência de médicos nas UPAs é resultado não só da greve, mas, principalmente, do déficit de profissionais na rede pública do DF. “As UPAs não têm médico hoje e não tinham médicos nas semanas passada e retrasada por conta da insuficiência de médicos. Não é por causa da greve. E, obviamente, a situação se agravou agora, durante a greve. Aliás, um dos motivos de estarmos em greve são as péssimas condições de trabalho”, argumenta.

“A população está desassistida. Os pacientes morrem por falta de remédio. A gente vem denunciando isso há mais de um ano”, salientou”. 

 Ele disse ainda que a orientação  durante o período de greve é bem clara: “Os colegas que atuam em centros  e postos de saúde devem se dirigir para as emergências nas Regionais de Saúde ou para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima”. Depois do anúncio de greve, na sexta-feira, agora, complementou, “a categoria está aguardando contato com a Secretaria de Saúde”. 

 O presidente do sindicato salientou ainda: “É importante ficar claro para a população que, independentemente da greve, caso o governo recue da proposta indecente que fez, vão faltar profissionais na rede pública. É um absurdo acontecer isso na capital do País”. 

“Não tem nem água”
 Na UPA de Samambaia, a aposentada Maria do Carmo Jesus (foto),   62 anos, estava aguardando atendimento, mas sem esperanças de conseguir. “Só vim mesmo porque, da última vez que tive sintomas de pés e mãos dormentes,   tive um AVC. Mas  acredito que não vai adiantar nada. As pessoas estão morrendo à míngua”, reclamou.  Ela contou também que tentou, no meio da semana, atendimento   outros locais como o Hospital de Base, porém, não conseguiu um diagnóstico. “No Hospital de Base eu não fiz nem ficha. Não tinha água lá, sabe o que é isso?”.

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