Era o ano de 1960. Em meio à poeira avermelhada e à mata do cerrado, nascia a nova e concreta capital. A construção de Brasília atraiu pessoas de diversos estados brasileiros e, com os indígenas, não foi diferente. O que no princípio era apenas a curiosidade do desconhecido e novo, aos poucos, tornou-se um segundo lar. De acordo com o último censo do IBGE, mais de 7 mil indígenas vivem hoje no Distrito Federal.
Teresinha Xerente, com seus 77 anos recém completados, foi uma das desbravadoras do árido planalto central. A indígena da aldeia Funil, em Palmas, já estava em Brasília na comemoração do primeiro aniversário da cidade. “A festa foi de baixo do Congresso. Tinha muita gente e muita carne de gado. O presidente JK serviu churrasco para todo mundo”, lembra ela com um brilho nos olhos.
Filha do cacique Caetano Ribeiro, a Xerente, ainda moça, queria ganhar o mundo. Brasília estava sendo construída e a curiosidade para conhecer a nova capital foi grande. Em 1951, aos 18 anos, Teresinha resolveu que pegaria carona com os caminhões e iria rumo à nova capital. Na época, namorava com Armando. O rapaz era gerente do Banco do Brasil e não deixou a amada se aventurar na estrada: pagou sua passagem de avião até Anápolis, em Goiás. De lá, Teresinha pegou um ônibus e desembarcou no Núcleo Bandeirante, local onde se deu a primeira ocupação dos candangos.
Em 1967, foi criada, com sede na nova capital, a Fundação Nacional do Índio (Funai) em substituição ao antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Durante muitos anos, Teresinha trabalhou no órgão servindo café nas salas.
Sobre sua relação com a cidade, ela afirma adorar Brasília. “Já fui casada com índio e, quando morava na aldeia, a luz era só com querosene. Agora, aqui, tenho luz elétrica”. Sempre que pode, a indígena volta para visitar seu povo e seu cachorro Sequá, que em sua língua significa pajé. “Quando volto pra minha terra, fica um bando de mulher sentada para escutar as minhas histórias de convivência com os brancos. Eu digo para elas que, para viver na cidade, tem que saber acompanhar o ritmo”.
Assim como Teresinha, os irmãos Marcos e Carlos Terena vieram para ficar. O primeiro a chegar a Brasília foi Marcos. Em 1976, veio pela primeira vez para tirar seu brevet de piloto comercial de avião. Dois anos depois, chegou Carlos. Os dois moravam em um alojamento para estudantes indígenas mantido pela Funai na Casa do Ceará.
Quando os irmãos se estabeleceram na capital, a ditadura no Brasil estava a pleno vapor. “Quando cheguei, não sabia o que era ditadura. Mas sempre me falavam que militar não prestava. Eu acreditei”, diz Carlos. Como forma de reação ao regime, os irmãos encabeçaram a criação da União das Nações Indígenas (UNI). O movimento político não escapou da dura repressão e o alojamento na Casa do Ceará foi fechado. “Mas nós resistimos e continuamos aqui. Não éramos um grupo de ‘índios bobos’. Estávamos nos preparando na língua do branco para lutarmos por nossos direitos”, afirma Marcos.