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Dia do orgulho LGBTQIA+: “data é para protesto e visibilidade”, diz Ariadne Ribeiro, da Unaids

Junho foi escolhido historicamente por fazer referência a Revolta de Stonewall, uma série de manifestações de pessoas da comunidade LGBTQIA+ contra a invasão policial no bar Stonewall Inn, em 28 de Junho de 1969

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Evellyn Luchetta e Geovanna Bispo 
Jornal de Brasília/Agência UniCEUB

“É muito importante datas como essas (o 28 de junho) que fazem com que a gente se lembre, historicamente, qual é a função de se ter um dia, um mês do orgulho. Existe uma necessidade de dizer para o mundo: eu tenho orgulho de ser quem eu sou porque o mundo fez eu acreditar que eu fosse uma vergonha”.  O pensamento é da pesquisadora Ariadne Ribeiro, ativista trans e, há um ano, assessora de apoio comunitário da UNAIDS, programa conjunto das Nações Unidas contra HIV/Aids.

Junho é o mês em que se comemora internacionalmente o Orgulho LGBTQIA+, com paradas por todo mundo. O mês escolhido historicamente faz referência a Revolta de Stonewall, uma série de manifestações de pessoas da comunidade LGBTQIA+ contra a invasão policial no bar Stonewall Inn, em 28 de Junho de 1969. Hoje, os protestos que duraram seis dias, são considerados uma das lutas mais importantes para a conquista de direitos igualitários.

Para Ariadne Ribeiro, as datas foram criadas como um protesto para que a visibilidade traga direitos. “Direitos como o de existir. A gente sabe que a população trans, da qual eu faço parte, é mais assassinada do que em países que criminalizam a identidade”, afirma.

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Confira abaixo trecho da entrevista com Ariadne Ribeiro sobre o tema

Para Ariadne Ribeiro, o preconceito é fruto do não amadurecimento da sociedade para entender e ver o outro como igual, e não superior ou inferior. “A gente ainda não amadureceu psicologicamente o suficiente para entender que a humildade é o ato de se ver igual ao outro, então a gente ainda vive uma tortura psicológica de necessidade de inferiorizar grupos minoritários para se sentir melhor ou maior”.  

Segundo dados do Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS – Brasil, mais de 90% da população trans já sofreu discriminação na vida por conta da sua identidade de gênero, entre as discriminações mais comuns, constam os comentários discriminatórios, 80,6% afirmam já terem ouvido, em grande parte vindo de familiares. Assédio verbal (74,2%), exclusão de atividades familiares (69,4%) e agressão física (56,5%).

A pesquisadora é mestre em psicologia e psiquiatria (estudou o HIV em pacientes usuários de crack) e, como doutoranda, pesquisa Pacientes testados para HIV, sífilis e hepatites virais em centro de referência em álcool, tabaco e outras drogas. 

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Para Ariadne Ribeiro, existe uma cicatriz na sociedade brasileira não resolvida, uma ferida aberta desde o período de colônia.

Confira trecho da entrevista com Ariadne Ribeiro sobre racismo e transfobia

Representatividade no trabalho

A assessora da Unaids testemunha que somente na ONU encontrou maior representatividade. “A ONU foi o primeiro lugar da minha vida que eu trabalhei e que já tinha trabalhado uma pessoa trans antes de mim. Foi graças a ela que as portas estavam abertas para outra pessoa trans”. Ela explica, inclusive, que também no período de curso universitário não conviveu com pessoas negras ou trans.

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“É muito importante que a gente saiba que mais do que a responsabilidade social das empresas de nos incluírem, a gente também precisa ter a responsabilidade de deixar portas abertas quando a gente sai do lugar.”

Confira trecho da entrevista em que Ariadne fala sobre representatividade no espaço de trabalho:

Na pele

Ariadne Ribeiro sofreu na pele todas as consequências de se assumir mulher trans no Brasil. Ela afirma sentir muito orgulho de quem é. “Eu sinto muito orgulho de ser essa pessoa e ter passado por todas essas dificuldades e hoje estar num lugar onde eu tenho clareza, por vivência empírica, por viver na pele o sofrimento das minhas iguais. Eu tenho certeza que nenhum sofrimento, de nenhuma pessoa, que hoje é invisibilizada ou marginalizada é para mim invisível, eu vejo tudo”.

Segundo dados do Associação nacional de travestis e transexuais (Antra), em 2019, 124 pessoas trans foram assassinadas no Brasil. O país lidera ranking de assassinatos nos últimos 10 anos. Outro dado do levantamento é de que 80% dos assassinatos apresentaram requintes de crueldade,  apenas 8% dos casos tiveram suspeitos identificados.

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“A sociedade não convive com pessoas trans. Quantas pessoas trans almoçam ou jantam com você na faculdade? Quantas pessoas trans trabalham com você? Quem é a pessoa trans que convive com você todos os dias? Você sabe o que ela sente? Ou ela continua no seu imaginário preconceituoso?” 

Segundo o ANTRA, no Brasil, 90% das travestis e mulheres transexuais ainda vivem da prostituição. “Quando você pensa “Quero falar com uma pessoa trans. Para onde que eu vou?” Você já imagina uma rua de prostituição, porque no imaginário de grande parte da população ainda continuam associando pessoas trans a prostituição. Esquecendo, muitas vezes, que a condição de trabalhadora sexual, às vezes não foi uma escolha, foi uma alternativa para se sustentar dentro de um mundo que te marginaliza simplesmente por você ser quem você é”, afirma Ariadne Ribeiro.

Covid-19 e HIV

Para Ariadne Ribeiro, a pandemia da Covid-19 tem como principais vítimas os mais vulneráveis, como ocorreu com a Aids, principalmente a partir da décade de 1980. “Nesses 40 anos de epidemia de HIV, quem morre de Aids hoje em dia é quem tem uma vulnerabilidade social muito grande. Então, a gente sabe que a COVID-19 também vai ser assim”.   

“É preciso fortalecer os mais vulneráveis com solidariedade”, diz  a pesquisadora

Ariadne Ribeiro explica que a Unaids também colabora com ações voltadas para ajudar os mais vulneráveis na comunidade LGBT. “A marginalização da população trans e da população preta continua sendo o fator que deve nos preocupar com relação ao Covid-19 e HIV. A gente vai ver ainda consequências da Covid-19. Precisamos fortalecer a comunidade com solidariedade”. A pesquisadora relembra que três amigas, ativistas trans, morreram nos últimos meses de isolamento social. “Perdemos Agatha Lima, Bruna Valim e Amanda Marfree.  “Há três dias eu perdi uma grande amiga, a Amanda. Ela continuou levando cestas básicas para meninas trans em vulnerabilidade social e pegou covid-19, levando toda solidariedade do mundo para tentar amenizar o sofrimento das nossas irmãs trans. Que o sacrifício dela não seja esquecido.”

Confira trecho de entrevista com Ariadne Ribeiro sobre a pandemia e vulnerabilidade

 

 


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