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Nova era do direito: especialista explica como plataformas jurídicas integradas ganham espaço no mercado global

Redação Jornal de Brasília

06/05/2026 12h50

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Na cartografia silenciosa que sustenta a economia global, uma mudança estrutural vem alterando, de forma profunda, o papel dos escritórios de advocacia. Já não basta fincar bandeiras em novos territórios ou replicar modelos domésticos em outras jurisdições. O que se observa é um salto de complexidade: a emergência de plataformas jurídicas integradas, desenhadas para operar de maneira coordenada em múltiplos países, combinando conhecimento local altamente especializado com uma arquitetura estratégica global.

Nesse novo arranjo, a advocacia deixa de ser apenas reativa para assumir uma função mais próxima à de infraestrutura crítica dos negócios internacionais. Escritórios passam a atuar como hubs de inteligência regulatória, antecipando riscos, harmonizando interpretações legais e oferecendo respostas quase em tempo real a operações que já nascem transnacionais.

O impulso por trás dessa transformação é clara.

À medida que empresas expandem cadeias produtivas, investidores diversificam portfólios além-fronteiras e profissionais qualificados constroem carreiras cada vez mais móveis, o direito acompanha esse movimento. O campo jurídico passa a operar em uma lógica fluida, na qual jurisdições dialogam entre si e soluções precisam ser pensadas desde a origem com vocação global.

Mais do que uma tendência, trata-se de uma reconfiguração estrutural que redefine competitividade no setor jurídico. A capacidade de integrar diferentes sistemas legais em uma atuação coesa deixa de ser diferencial e passa a ser requisito.

Redes integradas e uma nova geração de especialistas

Escritórios no Brasil, unidades nos Estados Unidos e parceiros operacionais espalhados pela América Latina formam hoje redes complexas que funcionam quase como organismos vivos, onde informação, estratégia e execução circulam de maneira contínua.

Os números ajudam a visualizar essa mudança. Segundo o Banco Mundial, o fluxo global de investimento estrangeiro direto superou US$ 1,5 trilhão recentemente, refletindo a intensificação das relações econômicas entre países. Já a OCDE aponta crescimento consistente na mobilidade internacional de profissionais qualificados, especialmente em direção aos Estados Unidos, um fator que impulsiona diretamente a demanda por serviços jurídicos especializados em imigração e direito internacional.

Em paralelo, estudos da Deloitte indicam que mais de 70% das empresas globais já adotam estruturas jurídicas descentralizadas, operando por meio de hubs regionais integrados.

É nesse cenário que profissionais com experiência multidisciplinar e visão internacional passam a ocupar um papel estratégico. Entre eles está Israel Agria Sayão, advogado e gestor de negócios, especialista convidado a colaborar com a produção desta reportagem.

Com uma trajetória que combina direito, desenvolvimento de negócios e gestão de operações globais, Sayão integra uma nova geração de especialistas que transitam com fluidez entre diferentes mercados e culturas jurídicas.

Formado em Direito, Sayão iniciou sua carreira em um dos programas de trainee mais disputados do país, na Andrade Gutierrez, no qual foram 23 vagas para mais de 37 mil candidatos. A experiência incluiu rotações internacionais por países como Peru, Portugal e Guiné Equatorial, proporcionando uma imersão precoce em ambientes multiculturais e projetos de grande escala.

“Foi ali que comecei a entender como decisões estratégicas precisam considerar variáveis muito além do aspecto jurídico. Cultura, economia e política estão sempre interligadas”, relembra o profissional.

Na sequência, atuou no desenvolvimento de negócios em projetos de infraestrutura com um pipeline superior a US$ 10 bilhões, envolvendo parcerias internacionais com empresas da Coreia do Sul e da Holanda. Mais tarde, como General Manager da Byblos Viagens, liderou a expansão internacional da empresa por quatro continentes, coordenando operações complexas e acumulando mais de R$ 100 milhões em receitas ao longo de sua gestão.

A experiência, embora fora do eixo jurídico tradicional, foi decisiva para consolidar sua capacidade de gestão em ambientes globais.

O equilíbrio

Tecnologia, cultura jurídica e capital humano

Segundo ele, um dos principais desafios está na padronização sem perda de identidade local. “Cada jurisdição tem suas particularidades. Integrar operações significa criar processos comuns, mas respeitando essas diferenças. É um equilíbrio delicado e essencial.”

A tecnologia surge como elemento-chave nesse processo. Ferramentas digitais permitem que equipes em diferentes fusos horários trabalhem de forma sincronizada, enquanto sistemas de gestão garantem rastreabilidade e controle de qualidade. Um relatório da McKinsey aponta que empresas que investem na digitalização de operações globais podem aumentar sua produtividade em até 25%, reforçando o papel da inovação como alavanca estratégica.

Ainda assim, Sayão faz uma ressalva: “A tecnologia é meio, não fim. O que sustenta uma operação internacional são as pessoas, os profissionais capazes de pensar globalmente e agir localmente.”

A consolidação desse modelo aponta para uma mudança estrutural no setor jurídico. Escritórios que antes operavam de forma independente passam a integrar redes globais, enquanto clientes demandam soluções cada vez mais completas, que transcendam fronteiras. No Brasil, esse movimento ainda está em desenvolvimento, mas já encontra terreno fértil, impulsionado pela crescente internacionalização de empresas e pela busca por mobilidade global.

Ao final, o que se desenha é um novo paradigma: o do direito sem fronteiras operacionais, onde a capacidade de integrar, coordenar e executar em múltiplas jurisdições se torna não apenas um diferencial, mas uma exigência do mercado.

Mais do que uma tendência, a integração internacional dos serviços jurídicos já é uma realidade em curso e, ao que tudo indica, irreversível. Em um mundo cada vez mais interconectado, o direito segue o mesmo caminho: menos limitado por fronteiras, mais orientado por redes. E profundamente transformado por elas.

Jornalista: Daiane de Souza | 0007147/SC

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