Por Vinícius Alonso
Está no interruptor de luz que responde exatamente como você espera, na luminária que ilumina sem causar ofuscamento, na embalagem que abre sem esforço e no objeto que permanece útil por anos sem que você sequer precise pensar nele novamente.
Embora os consumidores frequentemente associem design ao luxo, à estética sofisticada ou a produtos exclusivos, a verdadeira excelência em design pode ser encontrada nos objetos mais comuns — aqueles que acabam nas casas de milhões de pessoas e se tornam parte da vida cotidiana sem exigir atenção. É disso que trata o bom design.
Mas o que acontece quando um designer é encarregado justamente de criar esse tipo de produto?
Essa é a realidade de Eduardo Mautner, designer industrial brasileiro cuja carreira foi construída em torno do desenvolvimento de produtos comercializados por grandes varejistas americanos, como Walmart, Target e The Home Depot. Depois de acompanhar centenas de projetos evoluírem de esboços para as prateleiras das lojas, ele chegou a uma conclusão simples: qualidade nunca deveria ser um privilégio.
“Os consumidores não deveriam ter que pagar mais para desfrutar de uma experiência cuidadosamente projetada. Quando um produto resolve um problema de forma intuitiva, respeita seus usuários e oferece valor real, isso é bom design. E esse deveria ser o padrão — não a exceção”, afirma o designer.
O que realmente significa um bom design

Antes de chegar a uma prateleira de varejo, um produto passa por uma longa cadeia de decisões que envolve engenharia, gestão de custos, logística, fabricação, sustentabilidade, fornecedores, embalagem e comportamento do consumidor. Cada decisão influencia o resultado final.
Foi trabalhando dentro dessa realidade que Eduardo construiu sua carreira profissional.
Ele descobriu o design ainda jovem e, durante um estágio em um pequeno estúdio de móveis, aprendeu que projetar um objeto exigia uma compreensão aprofundada dos materiais, dos processos de fabricação e, acima de tudo, das pessoas que finalmente utilizariam aquele produto.
Essa paixão o levou à Rhode Island School of Design (RISD), uma das principais instituições de ensino de design do mundo, onde se formou com honras em Design Industrial e recebeu o Marc Harrison Design Excellence Award, concedido anualmente a um dos alunos de maior destaque do programa.
Segundo Eduardo, a experiência lhe ensinou muito mais do que estética.
“Na RISD, aprendemos que toda decisão de design tem consequências reais. Não existem escolhas neutras. Um pequeno detalhe pode reduzir desperdícios, simplificar a fabricação, aumentar a durabilidade ou transformar completamente a experiência do usuário.”
Quando milhões de pessoas usam aquilo que você criou
Projetar produtos para grandes varejistas muda fundamentalmente a perspectiva de um designer. Diferentemente de peças de edição limitada ou criações independentes, os produtos de consumo precisam funcionar para um público extremamente diverso.
Ao longo de sua carreira, Eduardo contribuiu para o desenvolvimento de produtos em categorias que incluem eletrônicos de consumo, artigos para casa, presentes, acessórios de moda e produtos domésticos — muitos dos quais foram comercializados em centenas de milhares de unidades.
Atualmente, ele atua como Designer Industrial na Merkury Innovations, em Nova York, liderando o desenvolvimento de produtos que vão de soluções de iluminação e pequenos eletrônicos a acessórios para escritório.
Reconhecimento além das fronteiras
Além de seu trabalho na indústria americana de produtos de consumo, Eduardo também conquistou reconhecimento internacional por seus projetos originais.
Uma de suas criações, Kiko Catnip Bubbles, desenvolvida para a Kikkerland Design Inc., recebeu a distinção Highly Commended no UK Gift of the Year Awards 2026, uma das competições mais respeitadas do setor. O produto foi reconhecido entre os destaques da categoria de presentes para animais de estimação.
O prêmio reflete uma característica que tem marcado a carreira de Eduardo: a capacidade de combinar criatividade e viabilidade comercial, desenvolvendo produtos que equilibram com sucesso inovação, funcionalidade e fabricação em larga escala.
Para Eduardo, um bom design não precisa ser extravagante ou exclusivo. Ele simplesmente precisa respeitar as pessoas que o utilizam.
“No fim das contas, design é uma forma de comunicação entre pessoas. Cada decisão reflete o quanto uma empresa valoriza o tempo, a atenção e a experiência das pessoas. Quando isso acontece, um produto deixa de ser apenas mais um objeto e passa a fazer parte da vida de alguém.”
Talvez essa seja a definição mais precisa de um bom design: aquele que melhora silenciosamente a vida cotidiana de milhões de pessoas, mesmo quando elas talvez nunca percebam que alguém pensou cuidadosamente em cada aspecto daquele projeto.