A produção de vinhos de qualidade no Brasil já não se limita às regiões tradicionalmente associadas à vitivinicultura nacional. No interior de São Paulo, novos projetos vêm demonstrando como a combinação entre pesquisa, conhecimento técnico e adaptação do ciclo da videira pode revelar territórios promissores. Entre esses produtores está a Casa Soncini, vinícola boutique localizada em Itaí, nos Altos da Represa de Jurumirim.
Fundada por Alfredo Soncini, a vinícola iniciou sua trajetória em 2017, com o plantio das primeiras videiras após estudos indicarem o potencial vitícola da propriedade. Atualmente, mantém dez hectares de vinhedos e trabalha com variedades como Syrah, Sauvignon Blanc, Tannat, Tempranillo, Viognier, Chardonnay e Vermentino, entre outras castas também utilizadas na elaboração de cortes.

A proximidade com a Represa de Jurumirim é uma das características que ajudam a definir o microclima da propriedade. Segundo a vinícola, a grande extensão de água contribui para regular as temperaturas e favorecer uma maturação mais lenta e equilibrada das uvas. A região também apresenta estações bem definidas, inverno seco e solos com boa drenagem, condições importantes para a sanidade dos frutos e a preservação da acidez.
A Casa Soncini adota a técnica da dupla poda, também conhecida como poda invertida, que modifica o ciclo natural da videira para transferir a colheita do verão chuvoso para o inverno, período mais seco e de maior amplitude térmica. Na prática, a poda de frutificação é realizada no verão, e as uvas amadurecem durante os meses mais frios, sendo colhidas geralmente entre julho e agosto.

Esse sistema permite trabalhar com frutos mais saudáveis e alcançar melhor equilíbrio entre açúcar, acidez e compostos fenólicos. Os vinhos produzidos dessa maneira são frequentemente chamados de “vinhos de inverno” e ajudaram a ampliar as fronteiras da vitivinicultura brasileira, especialmente em áreas do Sudeste.
Agora, a Casa Soncini chama a atenção internacional justamente por seus vinhos brancos. A produtora conquistou uma Medalha Duplo Ouro e duas Medalhas de Ouro no Vinus, Concurso Internacional de Vinos y Licores de Mendoza 2026, uma das tradicionais competições do setor realizadas na Argentina.
De acordo com a vinícola, esta foi a primeira vez que um produtor do interior paulista teve três rótulos brancos premiados em uma mesma edição do concurso. O resultado coloca em evidência não apenas o trabalho desenvolvido em Itaí, mas também o potencial de São Paulo para elaborar brancos de diferentes estilos, dos mais frescos e aromáticos aos fermentados ou amadurecidos em madeira.

Fumée Blanc alcança 96 pontos
O principal destaque foi o Fumée Blanc, que recebeu Medalha Duplo Ouro e 96 pontos. Elaborado exclusivamente com Sauvignon Blanc, o vinho amadurece durante oito meses em barricas novas de carvalho francês.
A passagem pela madeira confere ao rótulo um perfil mais estruturado e complexo do que aquele normalmente associado à Sauvignon Blanc. Nos aromas, aparecem frutas brancas, como pêssego e damasco, acompanhadas por notas de maracujá, goiaba e especiarias. Em boca, apresenta corpo de médio a encorpado, textura untuosa, acidez equilibrada e final longo.
O estilo remete aos chamados “Fumé Blanc”, expressão associada a vinhos de Sauvignon Blanc que passam por fermentação ou amadurecimento em madeira. O contato com o carvalho acrescenta volume, textura e novas camadas aromáticas, sem necessariamente eliminar o frescor característico da variedade.
Sauvignon Blanc traduz o território de Itaí
O Sauvignon Blanc 2024 recebeu Medalha de Ouro e 91 pontos. Um dos primeiros rótulos que deram origem ao projeto da Casa Soncini, o vinho procura expressar de forma mais direta as características dos Altos da Represa de Jurumirim.
De coloração amarelo-palha com reflexos esverdeados, apresenta aromas de maracujá, grapefruit e lichia, além de notas vegetais que lembram grama cortada. Na boca, destacam-se a acidez vibrante, a mineralidade e o final marcante.
A comparação entre o Sauvignon Blanc e o Fumée Blanc permite ao consumidor perceber como uma mesma variedade pode originar vinhos bastante diferentes. Enquanto o primeiro privilegia o frescor, a intensidade aromática e a expressão varietal, o segundo ganha estrutura, cremosidade e complexidade com o amadurecimento em barricas.
Um corte elaborado com dez variedades
O terceiro vinho premiado foi o recém-lançado Jurumirim 2024, que também recebeu Medalha de Ouro e 91 pontos. O rótulo presta homenagem à represa que circunda os vinhedos e exerce influência sobre o microclima da propriedade.
O Jurumirim é um corte particularmente original, elaborado com dez variedades: Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir, Vermentino, Viognier, Pinot Grigio, Pinotage, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tempranillo.
Embora reúna uvas brancas e tintas, o resultado é apresentado como um vinho branco de perfil leve, fresco e elegante. A combinação de tantas variedades exige precisão para que cada componente contribua com aromas, acidez, corpo ou textura sem comprometer o equilíbrio do conjunto.
“O Jurumirim é um ótimo exemplo de técnica e ousadia: um vinho que celebra a represa que nos cerca, é leve, democrático e, ao mesmo tempo, complexo, resultado de um corte de dez variedades cultivadas no mesmo terroir”, explica Claudio Manfredini, diretor comercial da Casa Soncini.
O rótulo integra a Família Represa, linha inspirada nos quatro elementos da natureza e na relação da vinícola com a paisagem local. A Casa Soncini organiza seus vinhos em diferentes famílias, cada uma relacionada a um aspecto da história da propriedade. O Fumée Blanc pertence à Família Ruínas, inspirada em uma antiga construção existente na fazenda, enquanto o Sauvignon Blanc faz parte da Família Figueira, símbolo que representa força, memória e resiliência para o projeto.
As três medalhas obtidas no Vinus 2026 oferecem ao consumidor brasileiro uma oportunidade de olhar com mais atenção para os vinhos brancos produzidos no interior paulista.