Durante muito tempo, falar em Amarone della Valpolicella significou pensar em vinhos densos, alcoólicos e concentrados, marcados por frutas muito maduras, pelo prolongado appassimento e pela presença evidente da madeira. Esse perfil conquistou consumidores em diferentes países e transformou o Amarone em um dos tintos italianos mais conhecidos internacionalmente. Agora, porém, uma nova interpretação começa a ganhar espaço entre os produtores da região.
Não se trata de negar a força nem a complexidade que caracterizam o Amarone, mas de buscar maior equilíbrio. Os vinhos passam a mostrar fruta mais nítida, acidez preservada, taninos menos pesados e uma sensação de frescor capaz de tornar a experiência mais dinâmica à mesa. Até mesmo o Valpolicella Ripasso, tradicionalmente mais encorpado, começa a aparecer em versões menos extraídas e mais ágeis.
É uma mudança estimulada tanto pela evolução do gosto dos consumidores quanto pela necessidade de devolver protagonismo ao território. Em determinados momentos, a técnica do appassimento, processo de desidratação parcial e controlada das uvas, tornou-se mais perceptível do que o próprio lugar de origem. Ao acentuar demasiadamente a concentração, o açúcar e o álcool, os produtores corriam o risco de elaborar vinhos impressionantes, mas pouco capazes de revelar as diferenças entre vales, altitudes, exposições e solos.
A tendência atual aponta para uma espécie de identidade neoclássica. Não se trata exatamente de uma volta aos vinhos do passado, pois hoje existem mais conhecimento, precisão e controle tecnológico. É, antes, a recuperação de uma ideia antiga: a de que o vinho deve nascer primeiro do território, e não de uma receita de potência.
Essa transformação pode ser observada de maneira especialmente interessante na Valpolicella Classica, área histórica da denominação, formada pelos vales próximos a Verona, no norte da Itália. Entre eles está Marano di Valpolicella, marcado por colinas, vinhedos em altitude e pela presença de solos de origem vulcânica. É nesse cenário que se encontra a Terre di Leone, pequena propriedade familiar conduzida por Chiara Turati e Federico Pellizzari.

A história começou com um hectare pertencente a Leone, avô de Federico. Ligado desde sempre a Marano, Federico encontrou em Chiara, que chegou à Valpolicella no final dos anos 1990, a parceira para transformar aquela herança em um projeto de vida. A decisão de permanecer no território foi tomada em 1996, a vinícola nasceu em 2005 e o primeiro Amarone, da safra 2009, marcou o início efetivo da produção.

Hoje, a Terre di Leone cultiva sete hectares de vinhedos, situados entre Marano e Fumane, na zona Classica. As parcelas chegam a aproximadamente 420 metros de altitude, apresentam exposições sudoeste e sudeste e estão assentadas principalmente sobre terrenos de tufo basáltico de origem vulcânica. São condições que favorecem a preservação da acidez e ajudam a explicar a combinação entre maturação, profundidade e frescor encontrada nos vinhos.
Os vinhedos são conduzidos em guyot e plantados em alta densidade, com cerca de sete mil plantas por hectare. Corvina, Corvinone, Rondinella, Molinara e Oseleta dividem espaço com antigas variedades locais autorizadas na denominação. A vindima ocorre em outubro, exclusivamente à mão, com uma seleção cuidadosa dos cachos.
Para o Amarone, as uvas são colocadas em caixas e levadas ao fruttaio, instalado na parte mais alta da cantina. Nesse ambiente destinado ao appassimento, elas permanecem por até 120 dias, do final de outubro ao início de março, seguindo o calendário praticado por nonno Leone. A tecnologia é utilizada apenas quando necessário para reproduzir as condições de ventilação, temperatura e umidade típicas dos antigos invernos da Valpolicella.

Esse detalhe mostra que o novo perfil da região não depende de uma única fórmula. Alguns produtores buscam maior leveza reduzindo o período de appassimento e, consequentemente, os níveis de concentração, açúcar, álcool e extrato. Na Terre di Leone, entretanto, a desidratação continua prolongada. A elegância é construída pelo conjunto: altitude, qualidade da fruta, preservação da acidez, vinificação por gravidade, pouca movimentação do mosto e tempo suficiente para que o vinho encontre equilíbrio.
Projetada em diferentes níveis, a cantina permite que uvas, mostos e vinhos sejam transferidos pela força da gravidade, sem bombeamentos excessivos. Depois da decantação natural, os vinhos amadurecem em grandes recipientes de carvalho francês de 10 e 25 hectolitros e em tonneaux de 500 litros. Dependendo do rótulo, o período em madeira varia de oito meses a sete anos. Após o engarrafamento, há ainda um descanso de quatro meses a três anos antes da comercialização.
A produção anual gira em torno de 45 mil garrafas, divididas entre as linhas Terre di Leone e Il Re Pazzo. A primeira reúne vinhos de maior profundidade e longos amadurecimentos, enquanto a segunda privilegia uma expressão mais imediata, prazerosa e cotidiana. Em ambas, porém, existe a preocupação de preservar fineza e identidade.
O portfólio percorre as principais denominações locais: Valpolicella Classico, Valpolicella Classico Superiore, Valpolicella Ripasso e Amarone della Valpolicella DOCG Classico. Há também o Dedicatum, um Veneto IGT Rosso que, dependendo da safra, pode reunir cerca de 14 variedades autorizadas ou recomendadas na região, recuperando a diversidade que historicamente fazia parte dos vinhedos da Valpolicella.
A experiência da Terre di Leone ajuda a compreender o momento vivido pela região. O futuro do Amarone talvez não esteja em abandonar sua riqueza, mas em evitar que ela se transforme em peso. Frescor não significa falta de estrutura, leveza não significa simplicidade. Nos melhores exemplos, significa permitir que acidez, fruta, taninos e álcool permaneçam em diálogo.
Depois de anos em que a concentração parecia ser a principal medida de grandeza, a Valpolicella começa a redescobrir que um grande vinho também precisa de movimento. Ao colocar novamente a paisagem, as uvas e as diferenças entre os vales no centro da taça, produtores como Chiara e Federico mostram que tradição e modernidade não precisam caminhar em direções opostas. Às vezes, avançar significa apenas reencontrar o ponto de equilíbrio.