Quando se fala em espumantes italianos, muitos brasileiros pensam imediatamente em Prosecco ou Franciacorta. Poucos, no entanto, conhecem o Oltrepò Pavese, uma região que guarda uma das histórias mais antigas e importantes dos espumantes italianos e que tem no Pinot Noir sua grande assinatura.
O próprio nome oferece uma pista geográfica: Oltrepò significa “além do Pó”. Trata-se da porção da província de Pavia situada ao sul do maior rio da Itália, na Lombardia, a menos de 50 quilômetros de Milão. No mapa, o território tem curiosamente o formato de um cacho de uvas e ocupa uma posição de encontro entre Lombardia, Piemonte, Emilia-Romagna e Ligúria.
É uma Itália ainda pouco explorada pelo turismo internacional, formada por colinas cobertas de vinhedos, pequenos vilarejos, castelos, bosques e estradas sinuosas. O Oltrepò se estende da planície do Pó até as encostas dos Apeninos, em uma paisagem atravessada por quatro vales principais: Versa, Scuropasso, Coppa e Staffora. Os vinhedos estão plantados, em sua maioria, entre 120 e 550 metros de altitude, embora algumas parcelas alcancem cotas ainda mais elevadas e inclinações próximas a 30%.
Outra curiosidade é que a região se encontra sobre o 45º paralelo, conhecido no mundo do vinho por atravessar importantes áreas vitivinícolas do hemisfério norte. Mas a latitude, por si só, não explica tudo: a altitude, a exposição do vinhedo e os microclimas, somados à ventilação constante, contribuem para preservar a acidez das uvas, característica essencial na elaboração de espumantes pelo método clássico.
Um antigo mar sob os vinhedos
Milhões de anos antes de as videiras ocuparem essas colinas, parte do Oltrepò Pavese encontrava-se sob as águas. O antigo fundo marinho deixou como herança solos ricos em calcário, argilas, arenitos e margas, nos quais ainda podem ser encontrados fósseis.
As margas calcárias, em especial, oferecem boa drenagem e reservas minerais equilibradas. A diversidade geológica, aliada ao clima continental, com invernos frios, verões quentes e boas amplitudes térmicas, ajuda a compreender por que o Pinot Noir encontrou ali condições tão favoráveis.
A região possui mais de 13 mil hectares de vinhedos e responde por mais da metade da superfície vitícola da Lombardia. Aproximadamente 2.800 hectares são ocupados pelo Pinot Noir, uma extensão que coloca o Oltrepò entre os territórios de maior importância para a variedade na Europa.
Por aqui, a uva assume duas personalidades. Pode originar tintos elegantes e longevos, sob a denominação Pinot Nero dell’Oltrepò Pavese DOC, ou tornar-se a base dos espumantes Oltrepò Pavese Metodo Classico DOCG, elaborados por meio da segunda fermentação na própria garrafa.

Mais de 160 anos de método clássico
A história das borbulhas do Oltrepò Pavese remonta ao século XIX. Depois de estudarem a vitivinicultura de Champagne e da Borgonha, as famílias Gancia e Vistarino introduziram mudas de Pinot Noir em Rocca de’ Giorgi, na Valle Scuropasso.
Em 1850, Carlo Gancia elaborou o primeiro método clássico italiano utilizando uvas cultivadas no Oltrepò. Pouco depois, em 1865, Augusto Giorgi di Vistarino criou o primeiro blanc de noirs da região, isto é, um espumante branco produzido com uma uva tinta, mediante uma prensagem cuidadosa que evita a extração da cor presente nas cascas.
A cronologia reserva episódios curiosos. Em 1886, um espumante da vinícola Montelio foi utilizado no batismo da embarcação Vesuvio. Em 1912, os vinhos da Società Vinicola Italiana Casteggio ganharam um grande anúncio publicitário próximo à Estátua da Liberdade, em Nova York. A DOC Oltrepò Pavese seria reconhecida em 1970 e, em 2007, o método clássico alcançaria o nível de DOCG, a categoria mais alta da legislação vitivinícola italiana.
Atualmente, o território recupera também um nome histórico: Classese, palavra que une “classico” e “pavese”. Mais do que uma denominação, o termo identifica o projeto de valorização dos espumantes locais e recorda a vocação do Oltrepò como terra do blanc de noirs de Pinot Noir.

O que esperar na taça
Os espumantes do Oltrepò Pavese costumam reunir frescor, estrutura e elegância. Dependendo do tempo de permanência sobre as leveduras, podem apresentar aromas de frutas cítricas, maçã, pera e flores, acompanhados por notas de pão, brioche, frutos secos e especiarias. O Pinot Noir acrescenta profundidade, textura e uma agradável tensão gustativa.
Há também a versão rosé, tradicionalmente associada à marca coletiva Cruasé, nome formado pela união de cru e rosé. Sua coloração pode variar do rosa delicado aos tons de casca de cebola ou cereja clara. Na taça, aparecem frutas vermelhas, como morango, framboesa e groselha, sem que o vinho perca a acidez e a vocação gastronômica.

São espumantes capazes de acompanhar uma refeição inteira. À mesa brasileira, podem harmonizar com ostras, camarões, peixes, sushi, salmão, massas com frutos do mar e carnes brancas. Os rosés também encontram afinidade com embutidos, pizzas, risotos e pratos à base de tomate. A acidez e a estrutura permitem ainda combinações interessantes com frituras, como pastel, bolinho de bacalhau e coxinha.
Pequenos produtores, grandes espumantes
Durante minha passagem pela região, um aspecto me chamou especialmente a atenção: a presença de muitos pequenos produtores e vinícolas familiares. São propriedades nas quais o trabalho atravessa gerações e onde quem recebe o visitante, muitas vezes, é a mesma pessoa que acompanha o vinhedo, participa da elaboração dos vinhos e conhece cada parcela de terra.

Essa dimensão humana ajuda a compreender a identidade do Oltrepò Pavese. Apesar da longa história e da expressiva superfície vitícola, o território ainda conserva uma atmosfera artesanal, muito distante de uma produção padronizada. Cada vale, encosta e altitude pode revelar uma interpretação diferente do Pinot Noir.
Em uma degustação às cegas realizada durante o evento OltreGusto Oltrepò Terra di Pinot Nero, pude confirmar a consistência dessa produção. Tudo o que tive a oportunidade de provar apresentou altíssima qualidade. Eram espumantes precisos, com perlage fino, acidez vibrante, boa complexidade e, sobretudo, identidade.
Uma região à espera de ser descoberta
Por muito tempo, parte das uvas do Oltrepò Pavese foi utilizada na elaboração de vinhos de outras áreas ou comercializada sem que o consumidor conhecesse sua verdadeira origem. Agora, produtores e instituições trabalham para devolver protagonismo ao nome da região e comunicar com mais clareza sua relação histórica com o Pinot Noir.
Esse talvez seja o principal desafio: fazer com que o Oltrepò Pavese seja reconhecido não apenas como uma grande área produtora de uvas, mas como origem de espumantes de personalidade própria.
Para o apreciador brasileiro, descobrir esses vinhos significa ampliar o olhar sobre as borbulhas italianas. O Oltrepò Pavese reúne história, diversidade de solos, paisagens preservadas, tradição familiar e um patrimônio extraordinário de Pinot Noir. Falta-lhe ainda a fama internacional de outras regiões, mas não lhe faltam qualidade, autenticidade e capacidade de surpreender.
Em um mercado frequentemente dominado por nomes já consagrados, talvez o verdadeiro luxo esteja justamente em encontrar uma região como essa: histórica, pouco conhecida e capaz de entregar grandes espumantes em cada taça.