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Vinhos e Vivências
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Lambrusco em nova perspectiva

Na Emilia-Romagna, jovens produtores renovam o vinho mais emblemático da região sem perder sua identidade

Cynthia Malacarne

31/07/2026 11h56

created by dji camera

Foto: Divulgação

Conhecido no Brasil por versões adocicadas e simples, o Lambrusco revela, em sua terra natal, uma identidade seca, gastronômica e contemporânea. Em Modena, a jovem Ventiventi ajuda a escrever esse novo capítulo.

Durante muito tempo, falar em Lambrusco no Brasil significou pensar em um vinho doce, barato e pouco complexo. Essa imagem foi construída principalmente pelas versões comerciais que dominaram as exportações em décadas passadas e acabaram reduzindo uma das bebidas mais tradicionais da Itália a um único estilo. Na Emilia-Romagna, porém, a realidade que chega à mesa é bem diferente.

O Lambrusco consumido cotidianamente na região é, em grande parte, seco, fresco e gastronômico. Sua acidez pronunciada, as borbulhas e os taninos delicados funcionam especialmente bem com a cozinha emiliana, marcada por embutidos, queijos curados, massas recheadas e pratos de sabores intensos. É o companheiro tradicional do prosciutto, da mortadela, do salame, do Parmigiano Reggiano, do gnocco fritto e dos tortellini.

Essa vocação não precisa ficar restrita à Itália. A combinação de frescor, fruta, espuma e leveza também dialoga bem com a mesa brasileira. Em um dia quente, um Lambrusco seco teria estrutura e acidez suficientes para acompanhar carnes grelhadas, linguiças e outros pratos presentes em um churrasco, criando um contraponto refrescante à gordura e à intensidade dos alimentos.

O Lambrusco, na verdade, não é apenas o nome de um vinho, mas de uma família de variedades autóctones cultivadas principalmente na Emilia-Romagna, sobretudo nas províncias de Modena e Reggio Emilia. Entre as mais conhecidas estão o Lambrusco di Sorbara, o Lambrusco Salamino di Santa Croce e o Lambrusco Grasparossa di Castelvetro, cada uma oferecendo uma expressão diferente.

A Sorbara costuma originar vinhos de cor mais clara, elevada acidez e aromas florais e de frutas vermelhas. A Salamino, cujo cacho compacto lembra o formato de um pequeno salame, produz exemplares de coloração mais intensa, frutados e equilibrados. Já a Grasparossa tende a apresentar maior corpo, taninos mais evidentes e tons profundos.

Os vinhos podem ser tintos ou rosados, frizzantes ou espumantes, elaborados em diferentes níveis de doçura, do secco ao dolce. Dizer simplesmente que Lambrusco é doce, portanto, significa ignorar a diversidade de um território inteiro. As denominações de origem incluem Lambrusco di Sorbara DOC, Lambrusco Salamino di Santa Croce DOC, Lambrusco Grasparossa di Castelvetro DOC, Modena DOC e Reggiano DOC, além do Lambrusco Mantovano DOC, produzido na vizinha Lombardia.

Depois de um período em que grandes volumes e estilos adocicados determinaram sua reputação internacional, o Lambrusco passa hoje por um processo de valorização. Uma nova geração de produtores tem reduzido rendimentos, recuperado variedades locais, investido em agricultura sustentável e explorado métodos de elaboração mais precisos. O objetivo não é negar a simplicidade alegre que sempre fez parte de sua identidade, mas mostrar que um vinho fácil de beber também pode ter origem, qualidade e personalidade.

É nesse movimento que se insere a Ventiventi, propriedade familiar localizada em Medolla, na província de Modena. O projeto começou em 2014, com a aquisição das terras, e os primeiros vinhedos foram plantados em 2016. A estreia comercial aconteceu em 2020, ano que inspirou o nome da vinícola e marcou o início de uma nova etapa para a família Razzaboni.

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Time jovem da Vintevinte. – Foto: Divulgação

À frente do trabalho estão os irmãos Andrea, Riccardo e Tommaso, representantes de uma geração jovem que busca interpretar o território com linguagem atual. A propriedade ocupa 70 hectares, dos quais 30 são destinados aos vinhedos, implantados em solos de origem aluvial, ricos em argila e silte.

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Foto: Família Vintevinte/ Divulgação

A sustentabilidade orienta o projeto desde o início. Os vinhedos seguem os princípios da agricultura orgânica, sem o emprego de produtos químicos sintéticos, e a vinícola utiliza ferramentas de viticultura de precisão para acompanhar as condições do solo, a saúde das plantas e a necessidade de água. Um sistema de irrigação direcionada permite fornecer a cada parcela somente o necessário, reduzindo desperdícios em um momento no qual a gestão dos recursos hídricos se tornou decisiva para a viticultura.

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Foto: Cantina Vintevinte/ Divulgação

Na adega, os investimentos em energia fotovoltaica avançam desde 2019, com o objetivo de ampliar a autonomia energética e diminuir a dependência de fontes não renováveis. A tecnologia, nesse caso, não aparece como ruptura com a tradição, mas como instrumento para proteger o território e permitir que ele continue produzindo no futuro.

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Foto: Divulgação

Embora elabore espumantes pelo Método Clássico, vinhos pelo método Charmat e também rótulos tranquilos, a Ventiventi encontra no Lambrusco uma de suas expressões mais ligadas à identidade de Modena. O La.Vie, Lambrusco di Modena DOC elaborado com a variedade Sorbara pelo método Charmat, representa justamente essa proposta mais contemporânea.

É um Lambrusco seco, fresco e direto, que privilegia a fruta, a acidez e a leveza sem cair na banalidade. A permanência prolongada em autoclave contribui para integrar as borbulhas e conservar a vivacidade característica da uva. O resultado é um vinho moderno e descomplicado, mas conectado ao lugar onde nasceu, um perfil que poderia encontrar boa receptividade entre os consumidores brasileiros, especialmente aqueles interessados em tintos mais leves e estilos adequados ao clima quente.

A produção da família ultrapassa 66 mil garrafas por ano e inclui variedades locais como Sorbara, Salamino di Santa Croce, Ancellotta e Pignoletto, além de uvas internacionais como Chardonnay, Pinot Bianco, Cabernet Sauvignon e Traminer. Desde 2023, a propriedade integra a FIVI, Federação Italiana dos Vinhateiros Independentes, reforçando seu compromisso com uma produção conduzida diretamente pelo viticultor, do vinhedo à garrafa.

O trabalho da Ventiventi mostra que modernizar o Lambrusco não significa transformá-lo em algo que ele nunca foi, mas recuperar sua verdadeira diversidade, cuidar melhor da vinha e apresentá-lo com precisão a uma nova geração de consumidores.

Talvez o principal desafio do Lambrusco no Brasil ainda seja vencer a memória das versões excessivamente doces que moldaram sua reputação. Para isso, basta permitir que o vinho conte sua história completa, uma história feita de variedades antigas, denominações de origem, famílias de viticultores e uma cultura gastronômica na qual as borbulhas tintas nunca foram vistas como vinho menor.

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