Menu
Verbalize
Verbalize

O dia em que o Supremo elevou o tom, e o mundo ouviu

Uma análise da comunicação por trás da sessão mais tensa do STF: tom de voz, linguagem corporal e as diferentes formas como cada ministro reagiu sob pressão

Luana Tachiki

17/09/2026 15h14

stf

Flávio Dino, André Mendonça, Alexande de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes — Foto: Alejandro Zambrana/STF

Terça-feira, 15 de setembro. Uma data que entrou para a história do Supremo Tribunal Federal não apenas pelo conteúdo jurídico em discussão, mas também pela forma como os ministros se comunicaram.

A sessão não definiu se haverá ou não investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e poderá ter um desfecho em 23 de setembro. Mas, antes mesmo de uma conclusão jurídica, outro aspecto ganhou as manchetes no Brasil e no exterior: o comportamento comunicacional dos ministros.

O que aconteceu no plenário ultrapassou o debate jurídico. Volume de voz, interrupções, escolhas lexicais, ironias, acusações pessoais e tentativas de manutenção do discurso no plano institucional passaram a fazer parte da própria notícia.

O Clarín, da Argentina, destacou a expressão “griterío entre los jueces”, ou “gritaria entre os juízes”, e também falou em “fuertes cruces”, ou “fortes confrontos”.

O El País, da Espanha, utilizou uma descrição ainda mais contundente ao afirmar que a sessão seria lembrada pelos “insultos e invectivas” trocados entre os ministros. O jornal também destacou que o cisma existente dentro do Supremo teria ficado exposto publicamente “com toda crueza”.

A Reuters, agência internacional sediada em Londres, classificou o episódio como parte de “a politically explosive bank corruption case”, um “caso de corrupção bancária politicamente explosivo”, e destacou a troca de acusações entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.

No Brasil, a CNN Brasil falou em “bate-boca”. A Folha registrou que ministros “trocaram acusações pessoais e levantaram a voz”. A ANSA descreveu a sessão como “acalorada”, enquanto a GloboNews destacou uma sessão “marcada por acusações e clima de confronto”.

A repercussão foi tamanha que a transmissão do STF chegou a aproximadamente 190 mil espectadores simultâneos, e o Correio Braziliense relacionou os picos de audiência justamente aos momentos de maior confronto.

Mas, para além do espetáculo midiático, existe uma análise comunicacional interessante a ser feita.

Não se trata apenas de observar quem falou mais alto. É possível analisar tom de voz, interrupções, escolha lexical, linguagem corporal, ironia, construção de autoridade, defesa da própria imagem, capacidade de sustentar o argumento no plano institucional e formas de reagir sob pressão.

Gilmar Mendes: confronto direto e elevada contundência semântica

A comunicação de Gilmar Mendes assumiu um caráter fortemente confrontativo em diversos momentos.

Ao discutir com André Mendonça, utilizou palavras como “leviandade” e “desfaçatez”, afirmou que “pessoas decentes não fazem isso” e, diante do pedido de respeito do colega, respondeu que “quem não se dá respeito não merece respeito”.

Em outro momento veio a provocação: “Pode chorar”.

Aqui existe algo importante do ponto de vista comunicacional: não se trata apenas de aumento de volume vocal. Há também contundência semântica, isto é, força no significado das palavras escolhidas.

Quando a escolha lexical deixa de contestar apenas o argumento e passa a atingir atributos ligados à conduta ou à respeitabilidade do interlocutor, a discussão muda de natureza.

O confronto deixa de ser exclusivamente tese contra tese e passa a carregar elementos de pessoa contra pessoa.

André Mendonça: respostas imediatas e aumento da intensidade vocal

André Mendonça começou vários momentos reagindo às acusações, mas também entrou integralmente no confronto.

Interrompeu Alexandre de Moraes repetindo “mentira” e, no embate com Gilmar Mendes, elevou o tom ao dizer “me respeite” e “aqui não tem choro”.

Também reagiu a um gesto de Gilmar afirmando: “Não aponte o dedo para mim”.

Do ponto de vista paralinguístico, chama atenção o aumento de intensidade vocal, a velocidade das respostas e o curto espaço entre estímulo e reação.

Há poucas pausas.

E a pausa, em situações de conflito, possui enorme importância comunicacional.

Quando o intervalo entre o que ouvimos e o que respondemos praticamente desaparece, aumenta a possibilidade de a comunicação se tornar predominantemente reativa.

Alexandre de Moraes: acusação direta e provocação retórica

Alexandre de Moraes também utilizou uma comunicação fortemente acusatória.

Uma das perguntas retóricas mais marcantes foi:

“Quem tem medo da Polícia Federal?”

Perguntas retóricas possuem uma característica interessante: aparentemente perguntam, mas, muitas vezes, já carregam uma tese embutida.

Moraes também afirmou que Mendonça teria solicitado sua inclusão na investigação e disse que o ministro estaria “a serviço” de um grupo político.

Mendonça o interrompeu diversas vezes.

O resultado foi um confronto verbal direto, com acusações, respostas imediatas e posterior elevação de voz.

Flávio Dino: confronto revestido de formalidade

Flávio Dino protagonizou outro tipo de confronto.

Com Edson Fachin, a tensão apareceu menos pela explosão vocal e mais pela ironia, contestação da autoridade e contundência semântica dentro de uma linguagem institucional.

Fachin pediu que a palavra fosse solicitada formalmente à Presidência. Dino insistiu que seguiria o Regimento e, posteriormente, devolveu ao presidente expressões como “ponderação, temperança e equilíbrio”.

Em outros momentos, utilizou palavras como “autoritarismo”, “despotismo” e “tirania”.

Essa combinação é comunicacionalmente muito interessante.

A forma permanece institucional:

“Vossa Excelência.”

“Com todo respeito.”

Mas o conteúdo pode ser extremamente severo.

É possível ter, portanto, polidez formal e alta contundência semântica ao mesmo tempo.

Mais tarde, Dino mudou seu papel comunicacional ao pedir vista e defender a interrupção do julgamento diante da deterioração do ambiente.

Edson Fachin: o presidente tentando preservar rito e autoridade

Edson Fachin teve momentos de atrito, especialmente com Flávio Dino, mas seu registro predominante foi o de presidente tentando controlar o rito, a palavra e a ordem da sessão.

Em determinado momento, afirmou:

“Vossa Excelência precisa pedir a palavra à Presidência.”

Aqui aparece menos uma explosão emocional e mais uma disputa de autoridade comunicacional.

Quem controla a palavra?

Quem estabelece o rito?

Quem determina quando o outro pode intervir?

Fachin havia iniciado a sessão lembrando que aquele “não era um dia comum”, afirmando que “o Brasil olha esta Corte” e pedindo sensatez, decoro e serenidade.

Horas depois, diante da escalada das discussões, declarou:

“Eu estou tentando acalmar.”

Existe aí uma construção narrativa bastante significativa: a comunicação do presidente começa preventiva e termina reativa.

Relatos feitos de dentro do plenário também registraram Fachin imóvel em determinados momentos, com a mão no queixo, enquanto Dino o questionava, embora apresentasse sinais de discordância.

Essa contenção corporal contrasta com manifestações gestuais mais expansivas vistas durante outros embates.

Cármen Lúcia: emoção explícita sem ataque pessoal

Cármen Lúcia talvez seja um dos casos comunicacionalmente mais interessantes da sessão.

Seu discurso apresentou elevada carga emocional, mas não pela via da agressividade.

Ela falou em “profunda consternação e tristeza”, pediu desculpas ao povo brasileiro e criticou a “espetacularização” da sessão.

A emoção está explícita.

Mas ela não é direcionada contra um colega específico.

Em vez de transformar o desconforto em confronto interpessoal, Cármen Lúcia direciona a emoção para a situação institucional e para a relação do Supremo com a sociedade.

Retoricamente, temos um pathos muito forte, mas com destino diferente.

Não é emoção contra uma pessoa.

É emoção diante da situação.

Também existe um forte componente de ethos institucional. Ao pedir desculpas ao povo brasileiro, ela desloca o discurso do “eu” para uma responsabilidade coletiva da instituição perante quem acompanha o julgamento.

Outra construção lexical particularmente interessante foi afirmar que o Judiciário deveria “tranquilizar o povo”, mas estaria “gerando intranquilidade”.

Tranquilizar × intranquilidade.

Temos aqui uma antítese construída com palavras da mesma família semântica. Em poucas palavras, ela condensa praticamente toda a crítica.

Pode-se também identificar um apelo emocional ligado à responsabilidade institucional perante o país e a população, o que amplia a conexão com quem acompanha a sessão fora do tribunal.

Luiz Fux: linguagem enfática e preservação da independência

Luiz Fux utilizou linguagem bastante enfática.

Falou na existência de uma “PF paralela” e declarou que ninguém iria “sindicar” sua independência.

É uma comunicação dura e semanticamente forte, embora não tenha apresentado a mesma sequência de sobreposição de vozes observada nos confrontos envolvendo Gilmar Mendes, André Mendonça e Alexandre de Moraes.

Cristiano Zanin: a discordância transformada em linguagem processual

Cristiano Zanin oferece um contraponto comunicacional interessante dentro de uma sessão marcada por interrupções e confrontos.

Sua discordância aparece com temperatura emocional mais baixa e forte apoio na argumentação jurídica.

Em vez de ataques pessoais, sua comunicação concentra-se no confronto de teses.

Uma das frases que mais chama atenção é:

“Temos aqui muitas dúvidas e perplexidades.”

A palavra “perplexidades” é forte.

Ela comunica que, na avaliação apresentada, existe algo fora da normalidade ou suficientemente problemático para provocar questionamento.

Mas continua sendo uma palavra institucional.

Zanin poderia recorrer a expressões como “isso é absurdo”, “isso está completamente errado” ou personalizar a responsabilidade. Em vez disso, transforma a discordância em uma questão jurídica.

Mesmo ao discordar diretamente de Edson Fachin, mantém o tratamento formal:

“Vossa Excelência, ao assumir a relatoria desta PET…”

Em seguida, confronta juridicamente uma consequência da própria decisão tomada por Fachin.

Retoricamente, a estratégia é interessante: em vez de simplesmente dizer “Vossa Excelência errou”, ele parte da própria premissa adotada pelo interlocutor e tenta demonstrar uma consequência lógica dela.

Em outro momento, afirma que determinada sequência representaria uma “inversão lógica dos atos processuais”.

Antes de chegar à conclusão, utiliza ainda amortecedores linguísticos, como:

“Se existe essa possibilidade, hipoteticamente…”

“Me parece que…”

Isso é modalização.

A modalização não elimina a discordância. Ela reduz a agressividade interpessoal com que essa discordância é apresentada.

Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques

Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques tiveram participação mais limitada nesse aspecto porque não participaram das votações posteriores da mesma forma que os demais.

Kassio explicou publicamente sua decisão de não participar e deixou o plenário. Toffoli também declarou suspeição.

Por isso, não se tornaram protagonistas dos principais confrontos verbais registrados durante a sessão.

Três conflitos, três formas diferentes de comunicação

Olhando exclusivamente para a comunicação, três confrontos concentraram grande parte da atenção:

Gilmar Mendes × André Mendonça.

Alexandre de Moraes × André Mendonça.

Flávio Dino × Edson Fachin.

Mas são conflitos comunicacionalmente diferentes.

No primeiro, aparecem provocações, palavras dirigidas à respeitabilidade do interlocutor e elevação de voz.

No segundo, predominam acusações diretas, repetição e interrupções.

No terceiro, aparece uma disputa de autoridade, procedimento e interpretação institucional, acompanhada de ironia e elevada contundência semântica.

Cármen Lúcia aparece em outro registro: emoção explícita, porém canalizada para a preocupação institucional e para a relação do Supremo com a sociedade.

E Cristiano Zanin representa outro contraste: discordância forte, porém sustentada predominantemente pela linguagem processual e pela modalização.

André Mendonça × Gilmar Mendes: quando a divergência se aproxima do confronto pessoal

Gilmar afirmou existir “inequívoco viés político-eleitoral” e chegou a declarar que “pessoas decentes não fazem isso”.

Mendonça respondeu:

“Não seja leviano, não aponte o dedo para mim.”

Mais tarde, enquanto Mendonça falava sobre Paulo Gonet, Gilmar voltou a interrompê-lo e utilizou expressões como “sentimento policialesco” e “desfaçatez”.

Mendonça respondeu em voz elevada:

“Me respeite!”

Gilmar então lançou:

“Pode chorar.”

E Mendonça rebateu afirmando que ali “não tem choro”.

Tom de voz

Há uma elevação progressiva da intensidade.

Em determinado momento, o tom deixa de funcionar apenas como recurso de ênfase e passa também a funcionar como instrumento de disputa pelo espaço de fala.

Linguagem corporal

Relatos de dentro do plenário registraram que Mendonça se inclinou na cadeira para enxergar Gilmar, bateu repetidamente na mesa durante momentos de discordância e, em outra ocasião, bateu o pé contra a parede abaixo da bancada.

Esses comportamentos podem ser descritos como marcadores corporais de elevada ativação e discordância, sem necessidade de atribuir com certeza uma emoção interna específica.

Interrupções

A interrupção passa a fazer parte da própria mensagem.

Não importa apenas o que está sendo dito.

A tentativa de ocupar a fala do outro também comunica disputa, urgência, rejeição e autoridade.

Escolha lexical

“Leviano.”

“Desfaçatez.”

“Pessoas decentes.”

“Me respeite.”

“Pode chorar.”

A discussão vai progressivamente ultrapassando a divergência jurídica e entrando no campo da respeitabilidade e da relação entre os interlocutores.

O apelo emocional cresce.

Autorregulação comunicacional

Repetições, sobreposição de vozes e respostas imediatas alimentam o conflito de maneira recíproca.

Não é possível saber, apenas observando externamente, o estado emocional interno de cada ministro.

Mas é possível afirmar que, do ponto de vista conversacional, diminuiu o espaço para a sequência:

ouvir → processar → responder.

E aumentou:

ouvir → reagir imediatamente.

Ethos, pathos e logos

O pathos cresce significativamente.

O ethos também entra no conflito: cada interlocutor passa a defender sua própria credibilidade, autoridade e respeitabilidade.

O logos continua existindo no conteúdo jurídico, mas perde espaço perceptivo porque, para quem assiste, o conflito passa a competir diretamente com o argumento.

Moraes × Mendonça: “mentira, mentira, mentira”

Outro momento de altíssima tensão aconteceu quando Alexandre de Moraes afirmou possuir testemunhas de que André Mendonça teria solicitado a inclusão de seu nome em determinada investigação.

Mendonça interrompeu repetidamente:

“Mentira, mentira, mentira.”

Depois afirmou:

“Você mente.”

Moraes, por sua vez, declarou que Mendonça estaria “a serviço de um grupo político que quis dar um golpe nesse país”.

Tom de voz e interrupção

A repetição de “mentira” possui grande impacto comunicacional.

Em vez de aguardar a conclusão do argumento para posteriormente refutá-lo, ocorre uma contestação instantânea e reiterada.

Isso eleva imediatamente a temperatura do ambiente.

Escolha lexical

“Mentira” é uma palavra especialmente forte.

Ela não contesta apenas uma interpretação.

Ela coloca em discussão a veracidade da afirmação do interlocutor.

Do outro lado, associar uma determinada conduta a um grupo político amplia o argumento para uma acusação política e institucional de grande gravidade.

Linguagem corporal

Relatos do plenário registraram Mendonça balançando a cabeça em sinal de discordância enquanto Moraes apresentava seu voto.

Também houve registro de seguranças se levantando durante um dos primeiros bate-bocas, um elemento ambiental que demonstra a intensidade percebida naquele momento.

Autorregulação comunicacional

Novamente aparece a sobreposição.

A dinâmica deixa de ser predominantemente:

escutar → formular → responder

e se aproxima de:

contestar durante a própria fala do outro.

Isso interfere diretamente na maneira como o público percebe o conteúdo.

Ethos, pathos e logos

Aqui ocorre praticamente um confronto de credibilidade contra credibilidade.

Moraes afirma possuir testemunhas:

“Eu tenho testemunhas.”

Mendonça responde questionando antecipadamente a credibilidade dessas pessoas:

“Eles vão mentir.”

O pathos aumenta porque a divergência deixa de ser abstrata e passa a envolver diretamente a credibilidade individual dos interlocutores.

Flávio Dino × Edson Fachin: formalidade na forma, contundência no conteúdo

O confronto entre Flávio Dino e Edson Fachin apresenta outra dinâmica.

Dino utiliza repetidamente expressões formais como “Vossa Excelência” e “com todo respeito”, mas o conteúdo de suas intervenções é severo.

Em determinado momento, afirmou que o poder de polícia da sessão competia ao presidente e declarou:

“Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou.”

Fachin respondeu:

“Eu estou tentando acalmar.”

Aqui encontramos uma combinação comunicacional sofisticada:

forma institucional mais conteúdo confrontacional.

É possível manter o tratamento cerimonioso e, simultaneamente, apresentar uma mensagem de elevada contundência.

No ethos, Dino constrói parte de sua intervenção a partir do papel institucional, chegando a mencionar sua condição de funcionário público e sua responsabilidade com o país.

No pathos, aparecem expressões fortes relacionadas à degradação da imagem do tribunal e à sociedade que acompanha a sessão.

No logos, existe uma tese processual: diante daquelas condições, seria necessário interromper o julgamento.

Depois da suspensão, Dino e Fachin chegaram a conversar e houve um abraço entre os dois, segundo relatos de bastidores.

Não é possível afirmar o que cada um sentia.

Mas, do ponto de vista comunicacional, um gesto dessa natureza pode funcionar publicamente como sinal de recomposição da relação institucional depois de uma divergência dura.

Cármen Lúcia: quando o pathos não precisa virar ataque

Cármen Lúcia oferece talvez uma das melhores demonstrações de como emoção e agressividade não são sinônimos.

Ela verbalizou emoção de maneira explícita:

“Profunda consternação e tristeza.”

Falou que o Judiciário existe para “tranquilizar o povo”, mas que naquele momento estaria “gerando intranquilidade”.

E pediu “desculpas ao povo brasileiro”.

O pathos é elevado.

Mas a emoção não é canalizada diretamente contra outro ministro.

Em vez disso, ela é direcionada para a situação institucional e para a relação entre o Supremo e a sociedade.

Esse tipo de construção tende a gerar identificação com o público justamente porque desloca a narrativa do conflito individual para uma preocupação coletiva.

Há também forte ethos institucional.

Ao pedir desculpas ao povo brasileiro, Cármen Lúcia não fala apenas de si. Ela coloca a instituição diante de quem a observa.

O desafio da autorregulação em cenários de crise

Há desafios evidentes para a comunicação em situações de forte discordância, pressão pública, exposição da imagem, risco reputacional e disputa institucional.

Quanto maior a ameaça percebida à própria imagem, à reputação ou à autoridade, maior pode ser a tendência humana de produzir respostas rápidas de autopreservação.

Isso não é exclusividade de ministros, executivos, políticos ou autoridades.

É humano.

Em contextos de elevada tensão, torna-se muito mais difícil separar completamente razão e emoção.

A questão talvez não seja eliminar a emoção, até porque isso seria pouco realista.

A questão é o que fazemos com ela antes de responder.

Podemos verbalizar o estado emocional?

Podemos criar alguns segundos de pausa?

Podemos respirar antes de responder?

Podemos reconhecer o contexto e, ainda assim, escolher palavras contundentes sem transformar o argumento em ataque pessoal?

Esse talvez seja um dos maiores desafios da comunicação em situações de crise.

Independentemente de hierarquia, escolaridade, posição social ou poder, todos nós enfrentamos, em algum momento, a escolha entre dar vazão imediata à reação emocional ou tentar canalizá-la para uma resposta mais assertiva, consciente e proporcional ao contexto.

E talvez seja justamente aí que uma sessão jurídica deixe de ser apenas uma sessão jurídica e se transforme também em uma grande aula, positiva e negativa, sobre comunicação humana sob pressão.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado