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Comunicação estratégica: verdade explícita ou nas entrelinhas?

O caso Flávio Bolsonaro reacende o debate sobre os limites entre prudência, estratégia e transparência na fala de autoridades públicas

Luana Tachiki

30/10/2026 14h20

us president donald trump speaks during a campaign rally for us senator darline graham

Foto: SAUL LOEB / AFP

Questionado sobre a possível fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, o presidente Donald Trump recorreu a uma declaração vaga e demonstrou aparente desconhecimento sobre o paradeiro do senador. A resposta evasiva deixou uma questão em aberto: tratava-se de uma simples falta de informação ou de uma estratégia comunicacional para evitar revelar detalhes sobre os bastidores da operação?

Nem sempre revelar tudo é sinônimo de transparência responsável. Em determinadas circunstâncias, saber o que dizer, quando dizer e o que preservar pode ser uma demonstração de inteligência estratégica, e a comunicação estratégica se dará, na verdade, por detrás do que não é dito.

Na comunicação política, nem sempre o que deixa de ser dito representa uma tentativa de manipulação. Em determinadas circunstâncias, a ausência de uma resposta objetiva pode ser tão estratégica quanto uma declaração cuidadosamente elaborada.

Autoridades públicas lidam com decisões que envolvem segurança nacional, relações diplomáticas, estabilidade institucional e interesses coletivos. Nesses cenários, a comunicação exige algo que vai além da capacidade de transmitir informações: exige discernimento sobre o momento adequado de revelá-las.

O episódio envolvendo Donald Trump e Flávio Bolsonaro reacende uma discussão histórica sobre os limites da comunicação estratégica, entre o conhecimento de uma autoridade e aquilo que ela escolhe comunicar publicamente. Em 27 de outubro de 2026, Trump afirmou desconhecer o paradeiro do senador brasileiro, embora tenha dito ter ouvido que ele estaria na Argentina. Ao mesmo tempo, informações obtidas pela CNN indicavam que o presidente americano havia autorizado sua entrada nos Estados Unidos e que integrantes de seu governo conheciam a situação judicial do parlamentar. Esse paradoxo não comprova, isoladamente, uma mentira presidencial, mas provoca uma pergunta legítima: até que ponto uma autoridade pode administrar publicamente seu conhecimento dos fatos sem comprometer a transparência?

Quando uma autoridade responde de maneira evasiva, está protegendo informações de interesse público ou seus próprios interesses?

A proximidade entre as duas informações desperta uma reflexão sobre a intencionalidade por detrás das declarações de autoridades públicas. Seria prudência diante de uma situação sensível? Ou uma tentativa de preservar informações estratégicas?

O pesquisador Eric Eisenberg, em seu estudo Ambiguity as Strategy in Organizational Communication, publicado em 1984, demonstra que a clareza absoluta nem sempre é o caminho mais eficaz para alcançar objetivos comunicacionais. A ambiguidade estratégica permite preservar diferentes possibilidades de interpretação e administrar interesses que nem sempre podem ser explicitados imediatamente.

Ao longo de sua trajetória política, Trump demonstra seguir um padrão de postura evasiva como prática de estratégia comunicacional.

Em junho de 2025, diante de jornalistas que o questionaram sobre a possibilidade de os Estados Unidos atacarem instalações nucleares iranianas, em meio à escalada militar entre Israel e Irã, Trump afirmou: “Posso fazer isso. Posso não fazer. Ninguém sabe o que vou fazer.” Ele se recusou a antecipar a decisão e, em vez de responder afirmativa ou negativamente, deixou ambas as possibilidades abertas. Três dias depois, em 21 de junho, os Estados Unidos realizaram ataques contra instalações nucleares em Fordow, Natanz e Isfahan, na operação denominada Midnight Hammer.

Esse é um caso muito claro de ambiguidade estratégica. Trump preservou o fator surpresa, evitou anunciar antecipadamente uma decisão militar e manteve seus interlocutores diante de diferentes cenários possíveis. A fala não era necessariamente falsa: no momento da declaração, havia planos de ataque preparados, mas a decisão final ainda não estava confirmada publicamente.

Em setembro de 2024, quando questionado sobre a guerra na Ucrânia, Trump disse: “Quero que a guerra acabe. Quero salvar vidas.”

Durante o debate presidencial contra Kamala Harris, o jornalista David Muir perguntou a Trump se ele queria que a Ucrânia vencesse a guerra contra a Rússia. Trump não respondeu sim ou não. Em vez disso, afirmou que queria o fim da guerra e a interrupção das mortes. O jornalista insistiu, perguntando se uma vitória ucraniana seria do interesse dos Estados Unidos. Novamente, Trump deslocou a discussão para a necessidade de encerrar o conflito por meio de negociações.

Trump utilizou o reframing, ou reenquadramento da mensagem. A pergunta pretendia identificar seu posicionamento diante dos dois lados do conflito. Entretanto, ele conduziu a resposta para uma ideia com potencial de maior aceitação pública: a preservação de vidas humanas.

A vantagem estratégica possível foi evitar uma declaração que pudesse limitar suas alternativas diplomáticas ou desagradar determinados grupos de eleitores, enquanto reforçava sua imagem de negociador. Essa estratégia não prova que sua proposta conseguiria encerrar a guerra. Seu mérito comunicacional está na capacidade de substituir o eixo da discussão, e não na comprovação da eficácia de sua política externa.

Em abril de 2017, Donald Trump já demonstrava preferência por não antecipar publicamente decisões militares. Ao ser questionado sobre possíveis ações na Síria, o presidente americano evitou revelar quais medidas pretendia adotar. A estratégia comunicacional consistia em não oferecer aos adversários informações capazes de comprometer o fator surpresa.

Na comunicação estratégica, o tempo, a escolha das palavras, a capacidade de antecipar consequências e até mesmo a decisão de não responder podem representar elementos decisivos para alcançar determinado objetivo.

Uma resposta evasiva pode preservar alternativas, impedir interpretações precipitadas, evitar o comprometimento de uma operação ou simplesmente impedir que uma autoridade se antecipe aos acontecimentos.

Isso não significa que toda omissão seja justificável, tampouco que uma informação deliberadamente falsa se torne legítima por estar associada a interesses políticos. O que diferencia a prudência comunicacional da manipulação é, entre outros fatores, a finalidade da conduta, sua proporcionalidade e o compromisso com a responsabilidade pública.

Comunicar estrategicamente não significa necessariamente revelar tudo. Significa compreender que uma informação divulgada no momento inadequado pode produzir consequências tão relevantes quanto a própria decisão que se pretende comunicar.

Em algumas circunstâncias, a inteligência de um líder não está apenas naquilo que ele consegue dizer, mas também naquilo que compreende que ainda não deve revelar.

Nem toda resposta evasiva representa fragilidade comunicacional. Às vezes, ela revela a inteligência estratégica de um líder que sabe o momento certo de falar, o que deve revelar e quais informações precisam ser preservadas.

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