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Como a retórica e oratória impulsionam um candidato

Como Ethos, Pathos e Logos transformaram um minuto e meio de discurso em 500% de crescimento nas redes

Luana Tachiki

27/08/2026 16h19

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Augusto Cury. – Foto: Reprodução/Band

Após o debate presidencial de 23 de agosto, na Band, Augusto Cury passou de menos de 1% para 6% no share of voice, isto é, na sua participação no conjunto de menções e conversas monitoradas nas redes sociais. Considerando 1% como referência, isso representaria um crescimento de aproximadamente 500%, ou um avanço de 5 pontos percentuais.

O dado veio de uma análise da AP Exata sobre as menções nas redes sociais após o debate. Segundo o levantamento, Cury passou de menos de 1% das menções no fim de semana para 6% até a segunda-feira.

O crescimento de sua visibilidade ocorreu após uma participação marcada pelo uso de recursos clássicos de persuasão (Ethos, Pathos e Logos, de Aristóteles), além de storytelling, metáforas, mensagens-chave, frases de efeito, linguagem simples e técnicas de oratória.

Cury construiu uma sequência retórica bastante interessante. Primeiro, buscou identificação com o público ao contar que veio de uma família de oito pessoas vivendo em um único quarto e que estudou em escola pública, inclusive durante sua formação em Medicina. É o Pathos, despertando emoção e identificação.

Depois veio a construção de autoridade: mencionou a Medicina, o mestrado, o doutorado, os mais de 70 livros publicados, a presença de suas obras em mais de 90 países, além da experiência empresarial e da atuação no agronegócio. Aqui aparece predominantemente o Ethos, relacionado à credibilidade e à autoridade de quem fala.

Então veio, provavelmente, uma das partes mais poderosas: Cury não apresentou a Presidência como um trabalho que realizaria sozinho. Disse que pretendia reunir profissionais qualificados, como economistas, gestores e pessoas sem histórico de corrupção, formando aquilo que chamou de “time de ouro”.

Para parte do público, essa mensagem pode transmitir uma ideia de gestão por competência, e não apenas de liderança pessoal. Há aqui um componente de Logos, porque existe uma estrutura lógica no argumento: um presidente não domina sozinho todas as áreas do Estado; portanto, precisa cercar-se de especialistas competentes para governar.

Além disso, Cury chegou às considerações finais depois de ter abordado diversos assuntos. Ao longo do debate, falou sobre educação e neurodivergência, dependência digital, microempreendedorismo e BNDES, relações com Estados Unidos e China, agronegócio, jornada 5×2, saúde mental do trabalhador, corrupção e segurança pública. Também apresentou o projeto denominado FATO, voltado à integração das forças de segurança.

Isso pode influenciar a percepção do espectador. Se ele tivesse contado apenas sua história pessoal no encerramento, talvez fosse percebido principalmente como um bom comunicador. Mas, como o discurso autobiográfico veio depois de uma exposição sobre diferentes áreas de governo, parte do público pode ter associado sua capacidade verbal também ao domínio de temas relacionados ao Estado.

Houve ainda outro elemento marcante: a moderação. Durante o debate, Cury repetiu a ideia de “pacificação” e criticou a agressividade presente no debate político. Em determinado momento, afirmou que a democracia pressupõe divergências e criticou ataques dirigidos aos eleitores.

A AP Exata relacionou parte da reação positiva do público à crítica feita por Cury à agressividade durante o confronto. Retoricamente, ele adotou uma estratégia específica: discordar sem transformar o adversário em inimigo.

Há também uma característica muito forte em sua oratória: Cury fala por meio de imagens mentais.

Durante o debate, utilizou expressões como:

  • professores como “cozinheiros do conhecimento”;
  • “pior do que o crime organizado é o Estado desorganizado”;
  • a formação de um “time de ouro”;
  • “o Brasil tem cura”.

São frases simples, concretas e facilmente reproduzíveis em cortes de vídeo e nas redes sociais. Isso contrasta com uma exposição política carregada de números, siglas e linguagem burocrática. O espectador pode esquecer os detalhes de determinada proposta, mas tende a se lembrar de uma boa metáfora.

Cury tem décadas de experiência trabalhando com narrativas, psicologia, palestras e livros destinados ao grande público. No debate, essa habilidade comunicativa foi aplicada ao ambiente político.

É importante, porém, fazer uma distinção: um bom desempenho retórico não é suficiente para demonstrar capacidade de governar um país. O debate mostrou, sobretudo, a capacidade de Cury de comunicar uma visão de governo e gerar identificação com parte do público.

A recepção também não foi unanimemente elogiosa. Houve cobertura jornalística crítica apontando o uso intenso de frases de efeito e de lirismo, isto é, uma forma de expressão mais poética, emotiva, metafórica e idealista.

Mas, então, por que tantas pessoas parecem ter saído impressionadas com suas falas?

Do ponto de vista comunicacional, há uma combinação bastante clara de elementos:

narrativa pessoal + autoridade intelectual e profissional + abordagem de diferentes áreas de governo + linguagem simples + metáforas memoráveis + postura de pacificação + proposta de formação de uma equipe qualificada.

Não é possível concluir, apenas a partir de um debate ou de seu desempenho retórico, se alguém seria ou não um bom presidente. Entretanto, do ponto de vista estritamente comunicacional, sua participação oferece um caso interessante de análise porque reúne Ethos, Pathos e Logos, storytelling, autoridade, identificação, metáforas, frases de efeito e call to action.

E isso fica particularmente evidente em aproximadamente um minuto e meio de suas considerações finais.

A arquitetura retórica do último minuto e meio

1. Ele começa pela própria história: Pathos + Ethos

Quando Cury fala de sua origem humilde, de ter vivido com oito pessoas em um quarto, de ter estudado em escola pública e, posteriormente, chegado à Medicina, ao mestrado e ao doutorado, ele constrói uma narrativa de superação.

Esse recurso produz dois efeitos simultâneos:

Pathos: gera identificação emocional. “Eu também vim de baixo.”

Ethos: fortalece sua credibilidade pessoal. “Eu conheço dificuldades e consegui superá-las.”

É mais persuasivo do que simplesmente afirmar: “Sou médico, pesquisador e escritor.”

2. A referência a Deus reforça valores: Ethos + Pathos

Quando manifesta gratidão a Deus, Cury também constrói uma imagem relacionada a seus valores pessoais.

Implicitamente, comunica algo como:

“Tenho valores, reconheço que não cheguei aqui sozinho e sou grato.”

Aqui predominam Ethos e Pathos.

É Ethos porque contribui para a construção da imagem moral do orador e Pathos porque pode estabelecer uma conexão afetiva com uma parcela do público que compartilha desses valores.

3. Ele quebra a solenidade com humor: conexão com a audiência

A brincadeira em torno de “lido/lindo” é pequena, mas retoricamente útil.

Depois de uma fala densa, Cury provoca uma mudança momentânea de clima. O recurso pode humanizar o candidato, diminuir a distância entre palco e audiência, gerar simpatia e renovar a atenção do público.

É uma espécie de quebra de padrão.

4. Depois, apresenta suas realizações: Ethos

Ao mencionar mais de 70 livros, presença em mais de 90 países e outras experiências profissionais, Cury constrói aquilo que podemos chamar de Ethos de competência.

A mensagem implícita é:

“Não estou chegando aqui sem trajetória. Construí coisas relevantes e tenho experiência.”

E a ordem em que essas informações aparecem é importante.

Se começasse apenas enumerando títulos e realizações, poderia correr o risco de soar excessivamente autopromocional. Como primeiro apresenta sua origem e as dificuldades que enfrentou, suas conquistas surgem como consequência de uma trajetória de superação, e não apenas como exibição de currículo.

5. A mudança mais importante: ele sai do “eu” para o “nós”

Aqui está uma das partes mais fortes do encerramento.

Depois de passar boa parte da fala construindo sua própria credibilidade, Cury muda o foco:

“Não vou governar sozinho.”

Passa, então, a falar sobre reunir pessoas qualificadas, especialistas, gestores, economistas e profissionais íntegros.

Retoricamente, essa mudança responde a uma possível objeção do eleitor:

“Tudo bem, Cury é médico, escritor e intelectual. Mas ele sabe administrar um país?”

A resposta implícita não é:

“Sim, eu sei tudo.”

É:

“Vou reunir quem sabe.”

Isso desloca a proposta da capacidade individual para a capacidade de formar uma equipe.

6. O “time de ouro”: entra o Logos

A expressão “time de ouro” é uma metáfora e, portanto, possui também componente emocional.

Mas o argumento que sustenta a expressão contém Logos:

Um presidente não domina todas as áreas → o Brasil possui problemas extremamente complexos → portanto, é necessário reunir especialistas competentes em diferentes áreas para governar.

Existe aí um raciocínio lógico.

Assim, podemos resumir:

“Time de ouro” = Logos na estrutura do argumento + Pathos na forma de apresentá-lo.

7. Ele cria uma antítese com a política tradicional

Ao contrapor sua postura a gritos, agressividade, ataques e conflitos, Cury cria um contraste retórico.

Ele não precisa declarar diretamente:

“Eu sou melhor do que os outros candidatos.”

O contraste faz isso implicitamente:

eles → confronto, gritaria, agressividade

eu → diálogo, equilíbrio, equipe, pacificação

Isso fortalece novamente o Ethos, especialmente a imagem de um candidato moderado.

Ele constrói uma determinada persona:

“Sou o homem do equilíbrio.”

8. O pedido para compartilhar o vídeo: Call to Action

Quando pede às pessoas que compartilhem o vídeo para “furar a bolha”, Cury transforma o espectador em potencial participante de sua comunicação.

Até então, o público estava apenas ouvindo.

Agora, ele pede uma ação concreta.

Na comunicação persuasiva, isso é um CTA, ou Call to Action.

A expressão “furar a bolha” também ajuda a construir uma narrativa: a de que sua mensagem precisa da colaboração do próprio público para alcançar pessoas que ainda não a conhecem.

Assim, o candidato tenta converter simpatia em mobilização.

9. O fechamento: “O Brasil tem cura”

Aqui está provavelmente uma das frases mais memoráveis do encerramento.

Ela funciona em diferentes níveis.

Primeiro, é uma metáfora. Cury é médico e o país é simbolicamente apresentado como um organismo que pode ser tratado.

Segundo, existe uma proximidade sonora e semântica entre seu sobrenome e a palavra:

Cury → cura.

Terceiro, é uma frase de efeito extremamente curta.

Depois de uma fala cheia de informações, ele encerra com apenas quatro palavras:

“O Brasil tem cura.”

A simplicidade aumenta sua memorabilidade.

A engenharia dos 90 segundos

O movimento retórico pode ser sintetizado desta forma:

Origem humilde ↓ Superação ↓ Formação e realizações ↓ Credibilidade ↓ “Não farei isso sozinho” ↓ Equipe competente e íntegra ↓ “Time de ouro” ↓ Contraste com a agressividade política ↓ Convocação para compartilhar ↓ “O Brasil tem cura”

Existe, portanto, uma arquitetura persuasiva.

Cury começa predominantemente com Pathos, fortalece o Ethos, introduz Logos ao apresentar a lógica da formação de uma equipe e termina novamente com Pathos, por meio de uma metáfora curta e memorável.

Em uma fórmula:

PATHOS → ETHOS → LOGOS → PATHOS

Esse último Pathos é particularmente importante porque, em um discurso, os argumentos podem convencer racionalmente, mas é frequentemente a emoção provocada pelo fechamento que permanece na memória do público.

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