Reconhecido como um dos principais articuladores do debate educacional no Brasil, o ex-senador e ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque permanece como uma voz ativa na análise da política nacional. Engenheiro e economista por formação, sua carreira pública é indissociável da bandeira da educação universal e de qualidade. Buarque, que também foi reitor da Universidade de Brasília (UnB) e ministro da Educação, foi o idealizador do programa Bolsa Escola, modelo que revolucionaria as políticas de transferência de renda ao condicionar o auxílio à frequência escolar, mas que logo em seguida se tranformaria no Bolsa Família. No Senado, onde atuou por 16 anos, destacou-se por defender a “federalização” do ensino básico como caminho para reduzir as desigualdades regionais.
O senhor construiu sua trajetória com a educação como prioridade absoluta. Por que, na prática, ela nunca se tornou prioridade real dos governos brasileiros?
Por algumas razões, uma delas é que o Brasil, na sua história, se acostumou com a ideia de que, em se plantando, tudo nela dá, na terra. Portanto, para que educar? E ainda mais, logo, logo, 30 anos depois da carta que dizia isso, trouxemos escravos que plantavam e colhiam. Para que estudar os ricos, que não precisavam trabalhar? E aos escravos não havia razão para educar. Então, o país se formou com a ideia de que a educação não era importante, que a ciência e tecnologia não eram necessárias. Com as décadas, houve um ligeiro cuidado com a educação e a ideia de que ciência e tecnologia nós comprávamos, não tínhamos que desenvolver. Com isso, sempre houve uma consciência nacional de relegar a educação. Os eleitores relegam e os eleitos não dão importância porque isso não lhes dá voto. O Brasil se formou, portanto, na democracia ou no autoritarismo, sem colocar a educação como uma prioridade nossa. Nossa prioridade é o futebol, é a indústria, é a agricultura, é a produção, é a renda, é a casa. Não é a educação. Uma prova é que todo ano os brasileiros olham para Zurique para ver quem vai ganhar a Bola de Ouro. Ninguém no Brasil olha para Estocolmo para ver quem vai ganhar o prêmio Nobel de Física, por exemplo. É como se isso não fosse algo nosso, como se nós não estivéssemos preparados para isso. Educação não é uma prioridade nacional ainda.

O Bolsa Escola, criado quando o senhor era ministro da Educação, influenciou políticas nacionais. O senhor acha que o Brasil perdeu o foco na educação ou prioriza apenas transferência de renda?
Boa pergunta. De fato, quando concebida, a Bolsa Escola visava promover educação pagando as mães para que os filhos se matriculassem e não faltassem mais de duas aulas por mês. Era uma maneira de tirar proveito da necessidade de renda das famílias para induzir nelas a necessidade de educação para suas crianças. Quando a Bolsa Escola se transforma em Bolsa Família, o programa educacional vira uma espécie de transferência de renda. Portanto, algo assistencial. Três fatos ocorreram que provam isso. Primeiro, a mudança do nome. Uma mãe que recebe um dinheiro chamado Bolsa Escola, ela pensa, eu recebo porque minha criança vai à escola. Quando ela recebe Bolsa Família, ela pensa, eu recebo porque minha família é pobre. Segundo, o programa Bolsa Escola era administrado pelo Ministério da Educação. A Bolsa Família foi levada para o ministério que cuida da assistência social. O propósito do ministro que cuida da Bolsa Família não é a educação. É algo muito nobre. Acabar a fome, acabar a penúria, imediatamente. E não esperar a educação daqui a algumas décadas. E o terceiro, é que a Bolsa Escola era oferecida às mães com crianças em idade escolar. A Bolsa Família deu um passo positivo na gestão dos programas assistenciais, mas misturou as mães com crianças na escola, com os velhinhos que precisam de apoio por não terem aposentadoria, com os deficientes, com todos aqueles que necessitam. Então o resultado é que perdeu a identidade educacional. A Bolsa Família, de fato, como diz a pergunta, é um programa de transferência de renda visando a assistência social. Perdeu o foco na educação.
O que o senhor faria diferente hoje, olhando a passagem como governador do Distrito Federal?
Ótima pergunta, que eu só vim a perceber anos depois. Ao assumir e voltado para a educação, eu consegui, nas primeiras semanas, acabar o chamado turno da fome. Eram 20 mil alunos que tinham a aula de 11 à 1 da tarde, depois do primeiro turno e antes do segundo turno. Durante o tempo em que os pais, os professores estariam almoçando. Iniciei um programa de aumentar a permanência das crianças na escola. E, de fato, a Escola Candanga, que foi desenvolvida no nosso governo, conseguiu aumentar a permanência de todas as crianças na escola. Ao final, eu creio que não havia escola com menos de cinco horas por dia. O que eu faria diferente? Além de tentar manter esse ritmo para todas, eu teria concentrado em duas, três ou quatro cidades a construção de um sistema ideal de educação. Refazer os prédios escolares, colocá-los como os melhores da cidade. Equipá-los com o que há de melhor do ponto de vista pedagógico. Dar uma remuneração adicional aos professores que quisessem ir para essas cidades. E lá adotarem todas, horário realmente integral, com formação profissional ao longo do curso. Com muita cultura e esporte, além de passar aquilo que é necessário para a alfabetização contemporânea. Falar, escrever muito bem português. Entender e criticar o português. Falar mais de um idioma. O mundo de hoje exige que todo mundo fale pelo menos dois idiomas. Ensinar as bases das ciências, da matemática, da história, da geografia. Passar lições de solidariedade, de compromisso, de busca e respeito solidário com as demais pessoas e com a natureza. Querer ser agente de um desenvolvimento sustentável. E estar pronto para disputar uma cadeira na universidade em condições de igualdade com todos. Eu teria, respondendo a sua pergunta, feito um esforço para termos quatro cidades com educação que nós desejamos que sejam todas as brasileiras daqui a 20 anos. Iguais às melhores do mundo.
O senhor teve uma passagem curta no Ministério da Educação. O que faltou para implementar mudanças?
Faltou ter um Ministério da Educação. O MEC é o Ministério do Ensino Superior. O MEC cuida das escolas técnicas federais, hoje em torno a 600, e das universidades federais. E ajuda, de passagem, ligeiramente, a educação de base. Com o programa de livro didático, com o programa de financiamento de transporte, com o programa de merenda escolar. E auxílio pequeno do chamado Fundo Nacional do Desenvolvimento Educacional, UFNDE. Isso não basta, isso é pouco. Mas é o que faz o MEC, porque o MEC é o Ministério do Ensino Superior. E eu tentei, coerente com o que eu sempre imaginei, concentrar o meu trabalho no Ministério da Educação, na erradicação do analfabetismo de adultos, com o programa chamado Brasil Alfabetizado. E com a tentativa de priorizar a educação de base através das escolas ideais. Que eram cidades com escolas ideais. Mas não era esse o propósito do governo, Lula no início, e continua não sendo. Até porque, de fato, a Constituição dá como obrigação do governo federal o ensino superior. E deixa a educação de base para os municípios. O equívoco histórico do Brasil. Educação de base é a base, é o fundamento, é o necessário. Tem que ser uma questão nacional, com o Ministério da Educação de base. Com o ministro comprometido com as escolas das crianças e dos adolescentes, até o final do chamado ensino médio. Então, eu não consegui fazer o que eu queria, porque estava em choque com o objetivo do governo federal. E o presidente Lula, quando me demitiu, disse com clareza. Eu quero um ministério voltado para o ensino superior, para aumentar as vagas nas universidades. E vamos reconhecer. Conseguiu. Conseguiu porque no período democrático, a partir de Fernando Henrique Cardoso e do ministro Paulo Renato, nós multiplicamos por cinco o número de universitários no Brasil, com sucesso. Apenas por dois e meio o número de concluintes do ensino médio. Um sucesso no número de alunos, obviamente, que chegou agora e mostra um fracasso na qualidade. Porque sem uma educação de base, não há como ter um ensino superior de qualidade para todos. Apenas para alguns poucos, que tiveram, eles próprios, a sua educação de base de qualidade.
Se o senhor tivesse que definir hoje qual é o maior atraso do Brasil, qual seria?
Não tenho a menor dúvida. Temos muitos pequenos atrasos. Uma burocracia terrível, uma corrupção desenfreada e generalizada. Nós temos um corporativismo que não deixa pensar o Brasil. Nós temos uma elite egoísta e perversa. Temos muitos pequenos atrasos, mas grande, grande mesmo, é o atraso na qualidade da educação de todos, ricos e pobres. E, sobretudo, a tremenda desigualdade que nós temos conforme a renda e o endereço.
Depois de ter sido reitor, governador, senador e ministro, como o senhor gostaria de ser lembrado?
Eu gostaria de ser lembrado como um professor. Sinceramente, não por esses cargos que eu até venci, governador, senador, ministro, convidado pelo Lula. Eu gostaria de ser lembrado como o brasiliense que conseguiu ser candidato a presidente da República e foi candidato a presidente com uma bandeira. A bandeira de que o vetor do progresso é a educação. E o caminho para desenvolver esse vetor é um sistema nacional, federal, público, único, de educação de base com a mesma qualidade. Além disso, é óbvio que eu gostaria de ser lembrado também como escritor de ficção, de ensaios, de textos técnicos, que, a meu ver, com mais ou menos leitores, deixou uma marca no pensamento brasileiro. Candidato a presidente da República e escritor, professor. É assim que eu gostaria de ser lembrado. Inclusive também como um cidadão que, aos 82 anos, coloca seu nome para disputar uma cadeira na Câmara de Deputados, representando o povo do Distrito Federal.