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Três Poderes
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A violência [contra a mulher] é um problema cultural

Advogada e ativista Patrícia Zapponi é a entrevista da semana e fala sobre o seu trabalho na defesa das mulheres e das minorias

Marcelo Chaves

08/09/2026 10h53

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Fotos: Arquivo Pessoal

Advogada criminalista, familharista ativista, ex-subsecretária de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres do Distrito Federal e atual presidente da Rede Internacional de Proteção à Vítima – Laço Branco Brasil, Patrícia Zapponi é a nossa entrevistada. Na conversa com o Jornal de Brasília, ela fala sobre o trabalho que vem desenvolvendo em defesa dos direitos das mulheres e contra o feminicídio.

A senhora já compartilhou publicamente que vivenciou a violência doméstica antes de se tornar uma voz ativa no enfrentamento à misoginia. Como essa experiência pessoal transformou a sua visão sobre o sistema de justiça e moldou sua atuação profissional?

Antes de ter voz ativa na causa nunca havia dado publicidade ao que passei. Só quem sabia que eu era uma vítima eram as pessoas que me ajudaram a superar e não me deixaram desistir. Mas a experiência que tive foi vital para que eu desenvolvesse empatia e tivesse mais respeito e acolhimento, sem julgamento, das mulheres que precisam.

Em que momento a senhora percebeu que precisava transformar a sua dor individual em um ativismo coletivo e institucional em defesa de outras mulheres?

Quem me fez perceber a importância que eu tenho para causa e não me fez desistir foram dois homens: um juiz de Direito e um delegado de polícia que me falaram: “Patrícia você pode fazer disso uma ferramenta para transformar muitas vidas. Imagina você uma advogada que quase perdeu a vida. E as mulheres que estão na comunidade? Vá em frente!” Foi a partir dessa conversa que entrei de cabeça nessa causa.

Durante sua passagem pela Subsecretaria de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres do DF, quais foram os maiores desafios práticos para tirar as políticas públicas do papel e fazê-las chegar às vítimas mais vulneráveis?

Durante a minha passagem como subsecretária, o maior desafio era a falta de capacitação de alguns servidores sobre o tema e a dificuldade de levar as políticas públicas a quem realmente precisava, além da subutilização dos equipamentos e a questão política muito presente.

Como a senhora avalia a articulação e a cooperação entre os órgãos policiais (como a PCDF e a PMDF), o Judiciário e a sociedade civil no Distrito Federal? O que ainda precisa ser aprimorado nessa rede de proteção?

O DF desde 2021 possui um decreto que institucionalizou a rede de proteção a mulheres vítimas de violência. A articulação da rede e da sociedade civil é muito eficaz. O que falta é ampliar a rede e alimentar o engajamento de toda a sociedade.

Como presidente da Rede Laço Branco Brasil, a senhora lidera debates como a campanha Homens de Honra. Como ressignificar o papel do homem na sociedade e trazê-los para o centro do combate à violência de gênero, sem esvaziar o protagonismo das mulheres?

Para mantermos o nosso protagonismo precisamos de homens que caminhem conosco lado a lado. Afinal, quem pratica a violência é na sua maioria um homem que subjulga e desvaloriza a mulher. Assim é de suma importância ter homens que falem para homens e nos ajudem a reeducar os ofensores. Hoje, contamos só em Brasília com 8.256 homens de honra, desde desembargadores, médicos, empresários, jornalistas, advogados, professores, policiais e vigilantes. Enfim, em todos os espaços.

Por que é urgente focar na educação e na conscientização dos homens para romper o ciclo da violência doméstica e intrafamiliar?

Porque quem tem praticado atrocidades contra as mulheres são os homens. A violência é um problema cultural e educacional. Assim, só conseguimos transformar realidades com a mudança dos comportamentos já estruturados em nossa sociedade. Este ano tivemos a sanção de um decreto presidencial que conclama aos homens a participar da prevenção, enfrentamento e combate à violência intrafamiliar.

Prestes a completar duas décadas de existência, a Lei Maria da Penha é considerada um marco, mas a senhora já apontou que existem “gargalos” que minam sua efetividade. Quais são esses principais obstáculos no judiciário atual?

No judiciário atual o maior gargalo na minha opinião é a não aplicação do Protocolo de Gênero e Raça do CNJ por algumas juízas e juízes. A maior barreira ainda são as pessoas, dogmas religiosos e opiniões pessoais que se sobrepõem às leis.

No tribunal e no dia a dia da advocacia, como combater as tentativas do sistema de deslegitimar a voz da mulher (práticas como o gaslighting ou o uso histórico de estereótipos que tentam invalidar a saúde mental da vítima)?

Tudo passa pela nossa postura para enfrentar. Já fui chamada de “demônio” em audiência por ser assertiva. Devemos denunciar qualquer tipo de violência pelo simples fato de ser mulher e devemos enaltecer a decisão recente do STF que qualquer mulher que tenha sido vítima de violência pelo simples fato de ser mulher pode e deve denunciar.

Os dados mostram que mulheres negras, indígenas e moradoras de periferia enfrentam barreiras ainda maiores para quebrar o ciclo da violência. De que forma o direito e o ativismo social podem construir soluções mais inclusivas para essas realidades?

Levando conhecimento, alternativas, políticas públicas com eficácia real, mostrando que elas não estão sozinhas. Também ajudando a criarem grupos para se auto apoiarem, mostrando que apesar das dificuldades, se estiverem em movimento, chegarão à mudança de vida. E mostrando que ela é importante trabalhando a autoestima e dando segurança.

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